09/02/2026

Mentiras sem Esquadros

 Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.

Eu amei enquanto doía. Doía porque o desejo do outro era difuso, espalhado — cabia em muitos, menos em mim. Doía. Agora não dói mais. O que restou foi a raiva voltada para dentro. Raiva de mim. E isso eu trabalho, sem discurso, sem aplauso. Tento o perdão próprio como quem aprende um idioma hostil.

Eu criei. Nunca tive dúvida. Criei enquanto outros recebiam pronto. Os amigos chegaram depois, colheram o que já estava formado. Amigos que você fez questão de esconder de mim. Que família é essa? Família que só mandava dinheiro, enquanto o afeto, o treino diário, a ginástica emocional, ficava com eles. Uma única foto juntos — e o gesto seguinte foi apagar. Sintomático.

Então a pergunta ficou, crua, sem adorno: o que exatamente você queria comigo? Qual era a minha função? Sustento? Apoio? Esteio provisório? Nunca foi amor. Amor não se esconde, não apaga, não terceiriza.

E isso eu já sei. O aprendizado veio tarde, mas veio seco. Sem consolo. Sem poesia fácil. Apenas verdade.