16/11/2019

Geringonças existenciais.

Ao primeiro passo, à primeira oportunidade eu sigo só ou sou deixado à beira do caminho. Sou e apenas sou quando necessário.  Afora isso, busura descartada.
Qualquer pessoa se torna a mais interessante do mundo. Entre mim e qualquer  outra do mundo: qualquer coisa. Eu sou um apêndice, que dirige. Leva de um lugar a outro. Que não sou digno de  selfie ou de abraços em público.
E imagino a conversas que teriam tido se eu não as estivesse estragado.
Todas as conversas possíveis. - poxa, mor feliz de te encontrar,  pena que  eu tô  com o otário. Tenho Que fingir que estou com ele senão  ia ver o resto do pessoal e a gente ia toma umas ( manda as fotos depois.) Queria beber.
É  isso aí. Eu sou o não. Eu sou o nada.  Quanto mais gente eu vejo me perco num mar de rostos que parecem , e apenas parecem , felizes e ajustados. Engajados, descolados, contentes.  Esse contentamento maldito me aborrece.
Me fecho, vou a um canto.  Escuto uma senhora feia e esquálida murmurar: coitado, esse tá desprezado.   Em seguida passa um bêbado com um olhar empático, achando que eu no batente da porta, também estivesse ébrio. Me olhou com cara de contentamento de prazer , talvez, por não se sentir o único bêbado e desprezado da festa. Não. Ele não era o único.  Eu também era O Despreszado. Ainda a comiseração por minha pessoa não passou. Acho que estava com cara de combalido. Um maconheiro me assobia faz sinal de legal e pergunta de estou bem.  Balanço a cabeça.  Só tinha força para isso.  Uma senhora pobre e feia, um bêbado  e um maconheiro me sentiram  ali no batente de uma porta de uma rua que leva para uma festa por fora e que me levava para um enterro por dentro. Sento, sento, sinto, sinto, choro desconfiadamente e assim vou enxugando as lágrimas que não têm  nome nem gênese.  Toda aquela felicidade por fora daquelas pessoas me notava mais amargo e incredulo do que tudo.
Também queria ser como elas: achar a felicidade numa lata de cerveja.  Em quem bebe a cerveja e em que cata a lata.
Eu sou estrangeiro de mim, em mim. Tanto que chego a despertar compaixão num bêbado, numa senhora miserável e num maconheiro humanista.  Alguém sentiu um pouco de minha dor. Se não sentiu sabia que estava doendo. Existir doí E eu não tenho remédio pra dor.
Sou sou o motorista. Vivo por fora e morto por dentro , não há festa que me ressucite.  Não há tristeza que me mate de vez.

11/11/2019

Abandonar

A primeira  noite em casa sem ele foi devastadora.
Não sentir sua alegria e curiosidades típicas,  seus maneirismos .
Senti-me um pouco culpado (mentira,  muito culpado) por tê-lo abandonado. Ele era meu e o descartei, o abandonei.  Sem cerimônias, sem choro nem vela.
Pessimamente mal. Um bicho que deixa outro pra morrer à beira do caminho.
Abando, quantos abandonos eu já sofri e agora faço o mesmo. Abandonei o meu cachorro. Meu deus. Eu sou um monstro.  "Abandonei" digo, lhe dei um novo Tudor.  Mas e os afetos ainda que cheios de alfinetadas entre nós?  E a responsabilidade emocional ? O que fazer ? Se o que está  feito, feito está?  Cheguei em casa e ela estava completamente vazia, nem um latido, nenhum olhar fingido r dissimulado, nem uma rodeada nos meus pés.  Aqui era o reino dele. O sofá,  a cama, os quartos, eu seu vassalo.  Não tenho mais com quem brigar. Meu cachorro foi embora ( má hora , na verdade)  mas se foi. Até meus bichos se vão e eu fico aqui no mesmo lugar.  Na mesma casa . Só mudo as cores, os móveis de lugares, pinto paredes, derrubo  paredes, mas sempre volto pro mesmo lugar. É agora já não tem nem mais para quem voltar.  Nem mais latidos terei à minha espera.
🐶🐕🐶🐕🐕🐶🐕🐶

09/11/2019

Florada

Apesar da feiúra,
Apesar do lodo,
Apesar da solidão
do caminho
Do limo,
dos ectoplasmas...
Pas platitudes infiéis e transversais
Apesar dos pesares havia alí à beira do caminho, oras,  flores!!!!
Apesar de tudo há alguma beleza  por onde passamos.
Apesar desses monstruosos moinhos de ventos disfarçados de amigos e solitarariantes há  beleza
Nem que seja somente e tão-somente nas flores à beira do caminho.
As flores que não  cultivamos...
Nunca cultivamos. E tudo morre. Como eu morro todo dia.

08/11/2019

Hipotenusa

Há tantas sessões, que só sobram razões  para hiatos.  Os catetos não se somam não acham as somas inequívocas e patentes.  E matematicamente  exatas. Nosso coração não. Mais corpos quebrados arremessados ao léu. Não! Somas, sobras, restos, nada, multiplicados por zero, potências infinitas de dores. Não. Isso não é  amor. É  desfaçatez,  olhar oblíquo  dissimulado de servidão mentirosa.
Amor não se pede. Não se demanda. Se ganha.
Ao sinal do primeiro xingamento a gente corre.  Corre pra bem longe. Não  há escapatória a verdade é  aquela dita na hora da fúria. Da a angústia.
Amor não descava neurose, não embrutece  coração e serve à mesa uma psicose à flor da pele.
Amor serve música aos ouvidos ,  ao corpo, ao corpo de ambos.
Palavras doces e macias , a ambos!
Platitudes gentis,  a ambos. Não é  servidão em troca de meias moedas seja lá   de que for. É  de graça,  pela graça  e por a graça.  Ah,  o amor.
Acho que cheguei até aqui dizendo eu te amo, sem verdadeiramente ter amado alguém.  Ninguém me cabe e não eu não caibo em ninguém.
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04/11/2019

Transitividades

Tudo me fazia esquecer você
Tudo me fazia doer
A sua ausência presente
A sua presença ausente,
A promessa de sua ausência
A sua presença
Telas de cristais líquidos nos separam
Nos levam a mundos diferentes
A gozos inexistentes...
A possibilidades impossíveis
A complascências  incomplascentes.
É tudo que nos resta: a possibilidade de um adeus mais que arquejado,
Mais que almejado,
Pois essa externidade  intimista quer liberdade de existência longínqua...
Um (des)amor à distância física.  Um (des)amor à distância já  temos.
Todo amor é  à distância.
Todo amor é  de um lado só
à gauche, à gauche, à gauche, à gauche,
Porque direito mesmo é  a superficialidade do nada que somos.
Amar é verbo transitório, cheio de objetos incertos e tortuosos, vazios , cheios de espinhosos, amar, amor!
Amar  sinônimo de olvidar apenas e tão-somente e só!