talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
14/08/2026
Escravo Cardíaco das Lembranças
O que está tatuado nas veias
não são nomes.
São faltas.
Tinta vermelha
correndo quente
entre músculo, sangue e nervos.
Cada sístole, uma lembrança.
Cada diástole, a mentira
de que passou.
Não é um coração.
É o lugar onde o esquecimento
fracassa.
Fingimos esquecer.
O sangue não.
Ele sabe.
08/08/2026
Da obrigação de viver, esse castigo abençoado
Acordar é o primeiro tombo do dia. A gente abre os olhos e já tropeça na imposição muda: continue. Não tem contrato, não tem carimbo, mas a cláusula é pétrea. Você há de aceitar a vida até o último suspiro, a morte, com a resignação de quem recebe um pacote sem remetente. Castigo ou bênção? Depende da calçada onde o medo resolve sentar.
Tem gente que olha a ponte mais alta da cidade e sente um frio na sola do pé, um cálculo esquisito entre a gravidade e a coragem. O salto não é medo do chão; é medo de aterrissar num lugar onde não exista nem chão, nem ponte, nem a dúvida gostosa de pular. A dose mal calculada de remédio que vira veneno é prima-irmã desse cálculo: você medica a angústia com a precisão de um ourives e, sem querer, transforma a cura em bilhete de ida. A fronteira entre o remédio e o veneno, meu santo, é uma vírgula na bula da existência, e quem nunca quase engoliu a vírgula?
A felicidade, essa coitada, foi empacotada como dádiva, mas a fita que a embrulha é de espinho. Dádiva de sofrimento, agonia e sofrimento, é um eco que não cala. A gente recebe o presente, rasga o papel e lá dentro encontra um espelho embaçado onde a própria cara é a surpresa desagradável. “Aproveite sua dádiva!”, dizem, enquanto a gente sangra os dedos no laço. É uma ideia tão tóxica que deveria vir com tarja preta e um aviso: “A tentativa de ser feliz pode causar, sangramento, tontura, náusea e uma vontade incontrolável de devolver o universo à loja.”
Mas repare que sagacidade o absurdo tem: se morrer é castigo, então viver é o quê? Regalia? Pena perpétua sem direito a condicional? Eu, cá com meus botões de osso, desconfio que a vida é o verdadeiro corredor da morte. A diferença é que o carrasco esqueceu o relógio em casa e a gente fica ali, de pé, ensaiando a última frase, que nunca chega. A morte, coitada, é só a burocracia final: carimba, assina, arquiva. Um castigo tão breve que mais parece prêmio de consolação. “Morrer é castigo”, repetem, mas eu olho pr’um vivo atolado em conta, desamor e trânsito e penso: castigo mesmo é ter que pagar boleto todo mês sem saber se o mês que vem vem.
E se o contrário for o certo? E se a morte for a bênção e a vida a penitência? Aí estar vivo é rir da própria forca com um cinismo lírico, quase uma valsa. É dançar no cadafalso e perguntar ao carrasco se ele aceita pix. É descobrir que a obrigatoriedade de aceitar a vida não é uma sentença; é um convite para zombar do juiz. Porque, no fundo, a maior sagacidade do absurdo é esta: a ponte, o remédio, a felicidade envenenada, tudo isso é matéria-prima de piada. E rir, meu caro, é o único salto que a gente dá sem calcular a dose. Nem remédio, nem veneno: só cócega na alma.
No fim, seja castigo ou bênção, a vida está aí, feito visita indesejada que entra sem bater e ainda pergunta se tem café. A gente pode ficar aperreado ou pode passar o café. Eu, que sou cabra do absurdo, passo o café, boto um cuscuz no prato, cubro com queijo coalho e deixo a manteiga de garrafa derreter por cima. Depois puxo a cadeira pra calçada e fico proseando com a vida até a morte chegar, essa sim, a visita que não precisa de convite, porque chega na hora que bem entende. E, quando ela aparecer, eu digo: “Oxente, tenha calma. Sente aí. Deixe eu terminar meu cuscuz e rir mais um pouco. Depois a gente conversa.”
06/08/2026
Desabitar
Moro nesta casa há mais tempo do que já
Morei em qualquer lugar.
Se me vendam os olhos, não encontro a cozinha. Hesito diante do corredor. Procuro o interruptor como se fosse visita. Há anos moro aqui. Ainda não decorei a casa.
Comigo aconteceu algo pior.
Fecho os olhos e também não sei onde estou.
Não sei onde começa o coração. Não sei por que os pulmões insistem. O sangue atravessa um mapa que nunca vi. Há uma geografia inteira acontecendo sem mim.
Viver talvez seja isso: um organismo trabalhando para um desconhecido.
Nunca aprendi o caminho até mim. Aprendi apenas os desvios.
Às vezes cozinho. Corto, tempero, provo. No fim, como uma comida que não reconheço. O gosto sempre chega antes ou depois de mim. Nunca comigo.
Dizem que o corpo é a única casa da qual não podemos nos mudar.
Talvez.
Mas ninguém diz que também é possível nunca entrar.
Passei mais tempo dentro deste corpo do que dentro de qualquer outra casa.
E, ainda assim, se me pedissem para voltar para mim de olhos fechados, eu morreria perdido no caminho.
A Dor que me Habita
Sempre morei em mim. Sozinho.
Dizem que sou um lugar bonito. Nunca soube. Um lugar não pode contemplar a própria paisagem. Toda casa ignora o rosto que oferece à rua. Vejo-me apenas pelas frestas tortas do meu próprio olhar, sempre enviesado, sempre suspeito. Para mim, as cortinas permanecem cerradas. A luz, quando entra, chega cansada.
As pessoas insistem em dizer que sou um lugar bonito. Curioso. Porque quase todas me fizeram sentir exatamente o contrário.
Talvez esse lugar de que falam exista. Mas não é a casa inteira. É o quartinho dos fundos. O cômodo onde se empilham objetos sem serventia imediata. Onde se guarda aquilo que não se tem coragem de jogar fora, mas também não se deseja por perto. Um lugar que só recebe visitas por acidente ou necessidade.
Tenho sido esse quarto.
Esquecido, mas nunca vazio.
Habitado apenas pelas coisas que os outros abandonaram em mim.
Amei a poesia que eu era quando estava com você.
Não apenas a poesia que escrevia. A poesia que respirava. A maneira como meu peito parecia menos pesado quando sua voz atravessava o silêncio. Amei quem eu me tornava sob a luz da sua presença. Talvez eu nunca tenha amado alguém sem antes amar a versão de mim que esse alguém permitia existir.
Agora estou magoado.
Estou com medo.
Mas até isso morrerá.
Tudo morre.
A dor morrerá. A saudade morrerá. Você morrerá. Eu morrerei. O planeta continuará girando por algum tempo, até que também desapareça sem deixar endereço. O universo jamais saberá que estivemos aqui tentando dar nome ao que doía.
Há um estranho consolo nisso.
Nada importa o bastante para sobreviver ao tempo.
E, ainda assim, tudo pesa demais enquanto dura.
Todas as manhãs abraço a minha insignificância como quem veste um casaco molhado. Ela pesa sobre os ombros, sobre os olhos, sobre os gestos mais simples. Caminho tentando parecer inteiro enquanto arrasto um corpo convencido de que perdeu alguma coisa que nunca chegou realmente a possuir.
As flores secarão.
A raiva também.
O medo também.
Até a memória daquilo que hoje me destrói acabará reduzida a uma poeira sem nome.
Quem sabe um dia encontremos outras flores.
Vermelhas.
Ou pretas.
Sempre gostei do preto e do vermelho. Talvez porque ambas as cores saibam alguma coisa sobre o fim.
Chamava você de volta porque havia lirismo na sua alma. Meu coração rimava com a serenidade da sua voz. Eu queria envelhecer algumas tardes lendo poemas ao seu lado. Como naquela noite em que você chorou ouvindo o texto sobre minha avó e a árvore de Natal. Ainda sinto o calor das suas lágrimas escorrendo pelas minhas costas.
Naquele instante, tive a ilusão mais rara de toda a minha vida.
Achei que havia sido compreendido.
Talvez eu esteja romantizando uma lembrança. A memória também inventa. Também mente para suportar a realidade.
Mas, para mim, naquele breve intervalo, existiam apenas você, eu e a poesia crescendo entre nós como uma planta que ignorava a precariedade da terra onde nascia.
Fomos, por alguns minutos, dois artistas tentando justificar a existência.
Depois a existência venceu.
Tudo em mim é trânsito.
Passagem.
Provisoriedade.
Nada permanece tempo suficiente para criar raízes, embora eu insista em abraçar o efêmero como se meus braços pudessem impedir o tempo de cumprir seu trabalho.
Achei você bonito.
Bonito para além da pele.
Bonito naquele lugar onde quase ninguém consegue permanecer sem fugir.
O que fizemos um com o outro?
Como conseguimos ser tão delicados e tão cruéis?
Tão líricos e tão profanos?
Como duas pessoas capazes de escrever cartas tão belas conseguem construir silêncios tão devastadores?
As suas palavras continuam lindas.
Mas o amor nunca sobreviveu apenas de palavras.
O amor é uma sequência de escolhas.
E algumas escolhas não erram apenas o caminho.
Erram a própria possibilidade de chegada.
Continuo com medo.
Muito medo.
Imagino sua dor.
Imagino mesmo.
Mas também habito a minha, e ela ocupa todos os cômodos da casa.
Também é permitido aos homens feitos tremerem.
Corarem.
Desejarem voltar ao colo da mãe.
Pedirem socorro sem encontrar linguagem suficiente para isso.
Estou perdido.
Talvez sempre tenha estado.
Talvez apenas agora tenha parado de fingir que sabia o caminho.
Não sei.
Essa talvez seja a frase mais honesta que já pronunciei.
Não sei.
Tudo em mim dói.
Tudo em mim parece sintoma de alguma doença cujo diagnóstico é simplesmente estar vivo.
Tenho vivido dopado.
Esqueço os dias que passaram.
Temo desesperadamente aqueles que ainda insistem em vir.
A depressão possui esse talento perverso: ela não mata imediatamente. Ela transforma a existência numa longa sala de espera onde nada acontece além da expectativa cansada de continuar respirando.
Sinto-me só.
Não da solidão física.
Essa quase sempre encontra distrações.
Falo daquela solidão mineral, anterior à linguagem, onde ninguém consegue realmente atravessar a distância que separa uma consciência da outra.
Encontro abrigo em alguns livros.
Há escritores que conseguem emprestar palavras às coisas que ainda não aprenderam a existir na língua.
A maior parte do que sentimos jamais receberá um nome.
Vivemos esmagados por emoções maiores do que o vocabulário humano.
Chamamos isso de tristeza.
De amor.
De saudade.
Mas são apenas etiquetas frágeis coladas sobre abismos.
Estamos todos presos neste pequeno ponto azul suspenso num universo indiferente.
Aqui dentro, tudo cresce desproporcionalmente.
As dores.
Os medos.
As esperanças.
E, paradoxalmente, nada consegue realmente tocar nada.
A física já havia descoberto isso antes de nós.
Os átomos não se encostam.
Seus núcleos apenas se aproximam, separados por um vazio imenso que insiste em permanecer entre eles.
Talvez o afeto seja isso.
Uma tentativa infinita de atravessar um vazio que a própria matéria decretou intransponível.
Sua carta é bonita.
Meu quartinho dos fundos a guardará para sempre.
Continuarei sendo esse lugar de que falam bem, mas onde ninguém permanece.
Não sou uma casa.
Sou um depósito de permanências interrompidas.
Um endereço lembrado apenas quando falta outro.
Um abrigo de emergência.
Nunca um lar.
Obrigado por emprestar sua poesia à minha durante aquele breve intervalo em que acreditamos que duas almas poderiam morar uma na outra.
Agora restam apenas os sussurros.
E talvez os sussurros sejam tudo o que realmente sobrevive quando o amor termina.
Passei a vida inteira tentando voltar para casa.
Passei a vida inteira tentando voltar para casa.
Só depois compreendi que ninguém volta para um lugar cuja planta nunca decorou.
Há pessoas que apagam a luz sem pensar. Continuam andando. O corpo conhece a distância entre a cama e a porta. A mão encontra o interruptor antes da parede. Os pés desviam da quina da mesa como quem evita uma lembrança antiga. A casa já desceu para dentro da carne.
Nunca me aconteceu.
Sempre precisei dos olhos.
Quando os fecho, não encontro uma casa. Encontro muros.
Bato neles como um cego que ignora as dimensões da própria cela. Não porque sejam muitos. Porque nunca aprendi o desenho de nenhum. Nunca soube quantos passos separavam um quarto do outro. Nunca soube onde uma parede terminava para que outra começasse a me proteger. Passei por dentro de lugares. Nunca os habitei.
Chamaram isso de morar.
Era apenas permanecer entre paredes.
Talvez seja por isso que invejo as vilas.
Não pela calma. Nem pelas árvores. Nem pela nostalgia barata que inventaram para elas.
Invejo o homem cujo nome ninguém sabe direito, mas cujo rosto todos conhecem. A mulher que passa toda manhã com a mesma sacola. O rapaz da oficina. A velha que senta na porta antes do entardecer.
Ninguém lhes deve amor.
Nem amizade.
Basta o reconhecimento.
Há qualquer coisa de profundamente humano em cruzar um rosto que nunca nos pertenceu e, ainda assim, não precisar perguntar quem ele é. O rosto responde antes. Ele ocupa um lugar no mapa. Ele confirma que aquele pedaço de mundo tem memória.
Talvez seja isso uma casa:
Um lugar onde até os desconhecidos deixam de ser estranhos.
Nunca tive sequer esse consolo.
Os rostos nunca criaram raízes diante de mim. Eram passageiros como eu. Olhavam-me com o mesmo esforço com que se olha uma placa de trânsito: apenas o suficiente para seguir adiante. Nunca fui o homem da esquina. Nunca fui aquele que passa às seis. Nunca fui reconhecido antes de ser identificado.
A vida inteira precisei me apresentar.
É cansativo nascer todos os dias.
Hoje sei que não procurei um teto.
Procurei um lugar onde pudesse fechar os olhos sem desaparecer.
Mas fecho os olhos e continuo perdido.
Não porque exista um labirinto.
Porque nunca existiu uma casa.
04/08/2026
Cobre por Cobre
Há sobretudo em mim a inveja dos amigos que nunca tive.
Não dos que aparecem nas fotografias de aniversário, nem dos que distribuem abraços com a generosidade de quem distribui panfletos. Invejo os gratuitos. Essa espécie rara de gente que chega sem cálculo, permanece sem contrato e parte sem deixar uma fatura sobre a mesa.
Nunca soube o que era isso.
Cada amizade que me atravessou trouxe consigo uma praça de pedágio. Paguei em tempo, em escuta, em favores, em paciência. Houve amizades que custaram fins de semana; outras, pedaços inteiros de mim. E eu pagava com uma diligência quase religiosa, como se o preço fosse a prova de que o afeto existia.
Paguei cobre por cobre.
Talvez seja essa a forma mais discreta da solidão: descobrir que algumas pessoas nos querem por perto, desde que continuemos úteis. A utilidade é uma máscara curiosa; veste-se de carinho durante o dia e, à noite, revela o uniforme de cobrador.
Ainda assim, não me tornei amargo. No máximo, adquiri o humor melancólico dos que aprenderam a rir da própria ingenuidade. Se um desconhecido me oferece um café sem segundas intenções, quase procuro a câmera escondida. A gratuidade me parece uma teoria bonita, dessas que funcionam melhor nos livros do que nas esquinas.
Meu mal não é a falta de amigos.
Meu mal é a inveja dos amigos que não fiz. Dos que talvez existam apenas na hipótese, como tantas outras coisas que poderiam ter salvado uma vida e, por um desencontro ridículo de calendários, ônibus ou timidez, jamais aconteceram.
No fim, talvez morrer seja a maior das liberdades.
A escravidão é passar a vida inteira com as moedas na mão, disposto a pagar por companhia, e descobrir, tarde demais, que o único afeto que valia a pena nunca esteve à venda.
31/07/2026
Viver a Dois é Viver Metade
Há um equívoco antigo, repetido com a solenidade das mentiras necessárias: dizem que duas pessoas se completam. Nunca acreditei nisso. Ninguém completa ninguém. O que existe é uma lenta amputação consentida.
Viver a dois é viver pela metade.
É descobrir que até a sede deixa de ser sua. Bebe-se o refrigerante que o outro prefere porque já não vale a pena discutir o gosto das pequenas coisas. Depois vêm as grandes. Escolhe-se o filme que não se queria ver. Ri-se da piada que não teve graça. Assiste-se à série vazia, construída para preencher o tempo de quem desaprendeu a suportar o silêncio. E assim os dias passam: um episódio após o outro, enquanto a própria vida permanece pausada.
Viver junto é a pedagogia da renúncia. Renuncia-se ao horário, ao lado da cama, à temperatura do quarto, ao caminho de volta para casa. Renuncia-se até ao direito de sentir fome. Parte-se o pão ao meio para alguém que sequer queria pão. E come-se a metade restante sem saber se era fome ou apenas o reflexo de repartir.
Há uma violência discreta em toda convivência. Não a violência dos gritos, mas a das pequenas concessões. A violência de abandonar uma vontade por dia até já não reconhecer quais eram as próprias vontades. O amor, quando dura, muitas vezes parece apenas a administração eficiente dessas desistências.
E há o corpo.
O corpo talvez seja o primeiro a desertar. Antes das palavras, antes das brigas, antes mesmo da coragem de admitir o fracasso, é ele quem parte. O sexo, que um dia pareceu uma linguagem, transforma-se lentamente num idioma morto. Os toques tornam-se protocolares. Os beijos aprendem a duração exata da obrigação. O desejo deixa de ser encontro e passa a ser lembrança.
Porque o tesão raramente morre. Apenas muda de endereço.
Morre no parceiro e renasce naquilo que ainda não aconteceu. Na mulher que passou na rua. No homem sentado do outro lado do restaurante. Na colega de trabalho. No estranho do metrô. Ou, mais frequentemente, em ninguém de concreto. Apenas numa possibilidade. Numa fantasia sem rosto. Num corpo inventado que jamais terá o peso da realidade.
Somos seres faltantes. Desejamos precisamente aquilo que nos escapa. O que possuímos deixa de ser objeto do desejo porque a posse dissolve a ilusão. O desejo vive da distância, da impossibilidade, daquilo que ainda pode ser qualquer coisa. A realidade é sempre menor do que a imaginação.
Talvez a monogamia não seja a vitória sobre o desejo, mas apenas um acordo para fingirmos que ele obedece. O corpo assina um contrato que a fantasia jamais leu. O olhar continua demorando-se onde não deveria. A imaginação continua fabricando encontros impossíveis. O desejo permanece indisciplinado, indiferente às alianças, aos votos e às fotografias felizes.
Continuamos dividindo a cama enquanto cada um sonha sozinho. Dois corpos lado a lado, separados por um continente invisível. A intimidade, com o tempo, deixa de ser proximidade e passa a ser geografia. Aprende-se exatamente onde termina a perna do outro, mas nunca onde começa seu abismo.
Viver a dois é também negociar o irrenunciável. Não apenas o filme, a música, o refrigerante ou o pão. Negocia-se o próprio desejo. Negocia-se a liberdade de imaginar. Negocia-se o silêncio. Negocia-se o tempo. E, pouco a pouco, negocia-se a si mesmo.
Há quem chame isso de maturidade.
Talvez seja apenas desgaste.
Talvez amar seja apenas a forma socialmente aceita de perder pequenas partes de si sem fazer escândalo.
A solidão, porém, não desaparece quando chega outra pessoa. Ela apenas muda de lugar. Sai da sala e passa a dormir entre os dois travesseiros. Aprende a respirar no mesmo ritmo do casal. Torna-se educada, discreta, quase invisível. Mas continua ali.
Talvez esse seja o destino de toda intimidade: descobrir que ninguém entra realmente na vida de ninguém. Recebemos visitas. Nunca habitantes. Há sempre um quarto trancado dentro de cada pessoa, um território sem mapas, onde nem o amor, nem o sexo, nem a convivência conseguem entrar.
No fim, viver a dois é viver pela metade.
Metade das escolhas. Metade dos desejos. Metade da liberdade. Metade da mesa. Metade da cama. Metade do pão.
E, paradoxalmente, o dobro da solidão.
Porque passamos a carregar não apenas a nossa, mas também a do outro.
E talvez seja esse o maior absurdo da existência: procuramos alguém para nos salvar da solidão e acabamos descobrindo que ela é a única companheira verdadeiramente monogâmica. Nunca nos trai. Nunca nos abandona. Apenas espera, pacientemente, que o amor termine de prometer aquilo que jamais poderia cumprir.
28/07/2026
Porque dói e Sangra
Há cacos de me mim por toda parte.
Eles me fazem sangrar;
Há cacos de mim por toda parte;
Estou invisível.
Não insensível.
21/07/2026
Da Amizade
A amizade talvez seja o vínculo mais mal compreendido que existe.
Gostamos de acreditar que ela nasce de afinidades profundas, de encontros raros, de algum reconhecimento secreto entre duas pessoas. Mas basta observar um pouco. A maioria dos amigos compartilhou primeiro um endereço, uma rotina, um horário ou um inconveniente. O resto veio depois, como as plantas que crescem nas rachaduras do concreto e nos fazem esquecer que a rachadura veio antes da planta.
Sempre me intrigou a facilidade com que as pessoas pertencem umas às outras. Elas entram em um lugar e, pouco tempo depois, parecem fazer parte dele. Eu nunca consegui esse tipo de adaptação. Os ambientes sempre me receberam como quem tolera um visitante. Aprendi a conversar, a rir no momento certo, a participar. Não porque me sentisse dentro, mas porque o lado de fora também exige etiqueta.
Há quem diga que isso é solidão. Não sei. Solidão pressupõe a falta de alguma coisa. Eu nunca soube se me faltava algo ou se apenas enxergava um mecanismo que os outros preferiam ignorar.
As amizades também obedecem a esse mecanismo.
Enquanto existe um chão comum, elas respiram. O trabalho. A universidade. A infância. A vizinhança. Quando o chão desaparece, quase sempre o vínculo desaparece junto. Não porque alguém tenha traído alguém. Apenas porque a estrutura que sustentava o encontro deixou de existir. Chamamos isso de afastamento, como se houvesse um culpado. Talvez nunca tenha havido aproximação suficiente.
É estranho. Passamos a vida inteira cercados de relações que dependem de circunstâncias, mas insistimos em chamá-las de escolhas.
Ainda assim, de tempos em tempos, acontece um erro.
Alguém permanece.
Não permanece porque precisa. Nem porque você precise. Permanece apesar da completa ausência de necessidade. Como se duas consciências, condenadas a jamais dividir a mesma experiência, decidissem continuar orbitando uma à outra sem esperar que a distância diminuísse.
Não vejo beleza nisso.
Vejo apenas uma exceção.
E talvez a amizade seja exatamente isso: uma exceção sem promessa, sem finalidade e sem garantia de durar. Ela não derrota o isolamento. Não cura o desencontro entre uma consciência e outra. Apenas o contradiz por algum tempo.
Depois, como quase tudo, segue o seu caminho.
12/07/2026
Cartografia da Lembrança
Há um momento em que a memória deixa de ser lembrança e vira geografia; Aracaju fez isso comigo.
Já não caminho por suas ruas; caminho por camadas de gente. Cada esquina tem o nome de um rosto cansado do passado; cada semáforo guarda a pressa de avançar o sinal amarelo pra chegar logo ao não destino; cada calçada é um pequeno tribunal onde sou obrigado a depor sobre alguém que já não existe; ou que existe apenas como versão fossilizada dentro da minha cabeça.
Às vezes finjo esquecer. É uma técnica sofisticada; finjo tanto que esqueço; o problema é que, de tanto representar, esqueço que estava fingindo. Então o esquecimento vence a encenação. Até que uma rua qualquer desfaz o truque.
E lá vem.
Fulano.
Beltrana.
A conversa que nunca terminou.
O café.
A briga.
O silêncio.
Até quem já havia me esquecido volta para me assombrar. Não a pessoa. O espectro. É curioso como a memória é arrogante: ela não aceita a reciprocidade do esquecimento. O outro seguiu vivendo; eu continuo tropeçando na sombra que ele deixou.
O coração leva um susto ridículo, como se tivesse visto um fantasma. E talvez tenha visto. Fantasmas não são mortos; são presenças que perderam o corpo, mas conservaram o maldito endereço, a maldita esquina, o beco, a viela.
Então faço o papel de sensitivo cansado; passo por eles fingindo que não os vejo. Quem sabe, ignorados, desapareçam, como crianças que fecham os olhos e pensam que o mundo desapareceu.
Nunca desaparecem.
O inferno não é reviver o passado; é perceber que ele nunca foi embora. Ele apenas mudou de estratégia; deixou de morar no tempo e passou a morar nos lugares.
Não carregar lembranças; ser carregado por elas. Como se cada rua nos atravessasse mais do que nós a atravessamos.
E ainda assim continuo andando.
Não por esperança, não por teimosia.
Mas porque percebi o óbvio: eu não habito Aracaju. Eu habito as memórias que ela me deu. A cidade é só a moldura; o que fica dentro não tem nome que eu queira dar.
04/07/2026
O que ninguem viu
01/07/2026
Coivaras
O sol pesa. Não brilha — oprime.
No meio da malhada, o fogo é uma língua antiga, lambendo o mato seco, traduzindo o calor em sentença. As coivaras ardem em fileiras, e minhas irmãs, com rastelos nas mãos, repetem o gesto das gerações: riscar a terra para alimentar o fogo, como quem mantém o mundo em funcionamento por pura teimosia.
O ar cheira a cinza e a espera. Tudo pulsa em vermelho.
Os homens fincam postes, erguem torres de promessa. São figuras feitas de sombra e suor, moldando o futuro com as próprias mãos. Um deles se destaca — o operário do sorriso inclinado, o olhar que mede o horizonte e o corpo de minha irmã com o mesmo cálculo.
Ela o observa de soslaio, fingindo distração. O fogo estala ao lado, mas há outro fogo crescendo ali — mais silencioso, mais perigoso. Entre um fio e outro, ele torce pedaços de arame, faz pequenas esculturas: pássaros, corações, serpentes. Oferece uma delas a ela, como quem entrega um segredo materializado.
O sol testemunha o gesto sem piedade.
Ela recebe o presente. O metal brilha, quente, como se ainda guardasse a temperatura das mãos dele. É o primeiro contato, e o primeiro contato é sempre uma espécie de ferida.
O fogo cresce. A terra respira com dificuldade.
Eu assisto — criança no limite entre o visível e o que não se entende. O mundo inteiro parece arder em simultâneo: o mato, os corpos, o tempo. As formigas correm entre as brasas, os homens gritam ordens, o vento muda de direção e leva o cheiro do fogo para dentro da casa.
Minha irmã não olha mais para as chamas.
Olha para ele.
E nesse olhar há uma estranha suspensão: como se o agreste inteiro — o pó, o calor, as moscas, a claridade insuportável — parasse para assistir à possibilidade do que não devia acontecer.
O operário ri de algo que ninguém ouve.
A escultura de arame gira entre os dedos dela, refletindo a luz como um aviso: o perigo também sabe ser belo.
As coivaram rolam ao sabor do vento lambendo o chão. As ordens aos operários corta o ar em ecos apressados.
E tudo parece anunciar que a vida, naquele instante, está prestes a começar , ou a queimar por completo.
Eu, imóvel, não entendo a diferença.
No meio da malhada, o que se acende nunca quer apenas iluminar
28/06/2026
Ponto e vírgula;
Ninguém entra na vida de ninguém. O verbo engana.
Chegamos quando a frase já está sendo dita. A mesa conserva marcas de copos que não vimos, há fotografias viradas para baixo em gavetas que nunca abriremos, um perfume qualquer insiste num casaco cujo dono talvez já nem exista. Chamamos isso de encontro apenas porque ignoramos tudo o que aconteceu antes de abrirmos a porta.
As pessoas gostam de dizer "conheci alguém". É uma vaidade da gramática. Não se conhece alguém; conhece-se uma superfície suficientemente generosa para deixar adivinhar os escombros. O resto permanece trabalhando no escuro, onde a linguagem não alcança.
Cada rosto traz uma multidão que desaprendeu a aparecer. Infâncias que ainda respiram por baixo da pele. Mortos que continuam decidindo o tom da voz. Cidades demolidas que persistem no jeito de arrumar uma mesa ou fechar uma janela. O passado não passa; muda de roupa.
Talvez seja por isso que toda intimidade seja um equívoco bem-sucedido. Não porque revele o outro, mas porque nos faz esquecer, durante alguns minutos, que ele continua irremediavelmente estrangeiro.
Há uma superstição discreta segundo a qual ocupamos um papel decisivo na vida dos que amamos. É confortável imaginar que chegamos para alterar o enredo. Como se o mundo esperasse nossa entrada em cena para finalmente adquirir sentido.
Mas a vida raramente escreve assim.
Ela prefere a pontuação.
Às vezes somos uma vírgula: adiamos o fôlego. Às vezes um travessão: interrompemos. Às vezes reticências: deixamos um eco maior que a presença. Quase nunca somos o ponto final.
E existe o ponto e vírgula.
Esse sinal estranho que recusa tanto o encerramento quanto a continuidade dócil. Algo terminou; algo insiste. A frase poderia acabar, mas não acaba. Prossegue carregando o peso do que já não pode desfazer.
Talvez seja esse o verdadeiro nome dos encontros. Não capítulos. Não destinos. Apenas um ponto e vírgula na sintaxe do tempo.
Depois seguimos.
Não porque a história terminou.
Porque ela nunca pertenceu a ninguém.
Domingo a gente Chora
Domingo não é dia. É umidade — nas paredes, nos ossos, nas ideias. Chove sem pressa, sem drama, sem promessa de limpeza. A chuva apenas cai, como quem já não precisa se explicar.
Acordei com Bethânia declamando Prece. Hoje não li Pessoa — ouvi Pessoa atravessando a garganta de uma mulher que faz da palavra herdada coisa própria. Talvez seja esse o único milagre da poesia: um morto mais vivo que os vivos que o leem.
Todos acreditam carregar um pouco de Pessoa. Vaidade compreensível. Ninguém admite a própria banalidade, mas todos reconhecem a própria tristeza. Somos mendigos do íntimo. Sabemos o endereço da dor, frequentamos sua calçada, decoramos sua fachada — mas nunca tivemos a chave. Talvez nem exista porta. Talvez a dor seja só um bairro onde andamos em círculos chamando repetição de profundidade.
Não acredito em Deus. Deus exige templos, dogmas, promessas, recompensas adiadas. A poesia é mais modesta: não salva, apenas organiza o fracasso em versos bonitos o bastante para contemplá-lo sem constrangimento. Mesma aposta, sem o luxo da eternidade.
Bethânia canta um homem morto que passou a vida escrevendo sobre existir como quem observa o próprio corpo de longe. Um vivo emprestando voz a um morto para alcançar outros vivos que já experimentam, aos poucos, a própria ausência.
A chuva continua. Não participa — acontece. Não precisa de testemunhas, nem de aplausos, nem de sentido.
Talvez o domingo seja isso: não pausa antes da segunda, mas demonstração silenciosa de que o universo não interrompe seu funcionamento para nos responder. Chove sobre quem crê e sobre quem não crê. Sobre a infância, os velhos, as igrejas e os cemitérios — com a mesma indiferença mineral.
Não há lição.
Há Bethânia, um poeta morto, uma janela molhada e um domingo cumprindo sua única vocação: existir sem pedir licença para ser interpretado.
22/06/2026
Que destino é esse?
Hoje não marquei hora com ninguém.
E, ainda assim, alguma coisa em mim continua atrasada.
O relógio está ali, na parede, insistindo em seu ofício de ferro e costume. Move os ponteiros com a compostura de quem acredita no mundo. Mas há muito desconfio dessa elegância mecânica. Ele não conduz. Não salva. Não explica. Apenas passa, como passam os dias, como passam os rostos, como passa tudo o que um dia juramos reter.
Durante anos pensei que a vida estivesse me esperando em algum ponto exato do caminho.
Atrasado para o amor.
Atrasado para a alegria.
Atrasado para mim mesmo.
Via os outros correndo com uma segurança que me humilhava. Tinham destinos dobrados no bolso, compromissos nos dedos, fotografias, alianças, diplomas, datas, tudo muito bem alinhado como se houvesse uma ordem secreta que apenas eu ignorava. Eu, ao contrário, me sentia sempre no lado errado do tempo.
Então comecei a correr também.
Não por convicção.
Por medo.
Porque a imobilidade parece indecente diante da pressa alheia.
Porque ficar parado, hoje, é quase uma forma de culpa.
Corri, portanto, como quem tenta alcançar uma porta já fechada.
Mas o caminho não se esclareceu.
Ao contrário: tornou-se cada vez mais incerto, mais delgado, mais parecido com uma invenção do próprio cansaço. Os marcos se apagavam. As distâncias mentiam. Os mapas se contradiziam com uma serenidade ofensiva. E, no meio dessa neblina, nasceu em mim uma suspeita que eu mesmo evitava nomear.
Talvez ninguém soubesse para onde ia.
Talvez todos estivéssemos apenas repetindo o gesto uns dos outros, como crianças perdidas no escuro que chamam de direção o ruído dos próprios passos.
Foi então que a estação apareceu.
Não a estação de ferro, nem a de telhado gasto, nem a de chegadas e partidas.
Uma estação interior.
Uma ruína com forma de espera.
Sentei-me nela durante anos, como quem aguarda um trem que traria a resposta final, a palavra exata, o amor definitivo, a versão legítima de si mesmo. Esperei com educação, com esperança, com esse tipo de fé que já nasce cansada.
E, enquanto esperava, a ferrugem trabalhou.
Subiu pelas placas.
Tomou os bancos.
Cresceu nos pilares.
Apodreceu a linguagem do anúncio, desfez a promessa das linhas, desarrumou o próprio conceito de partida.
Até que um dia compreendi algo pior do que a falta do trem.
Não havia atraso.
Não havia falha.
Não havia abandono.
Não havia estação.
A ruína não era o resto de uma promessa quebrada.
Era a promessa desde o início.
O vazio não sobreviera depois.
O vazio era a arquitetura.
Fui eu quem lhe deu nome.
Fui eu quem desenhou horários.
Fui eu quem escutou partidas imaginárias e chamou isso de destino.
E, quando essa verdade finalmente chegou, não trouxe consolo.
Trouxe silêncio.
Mas não um silêncio vazio, desses que pedem resposta.
Um silêncio anterior à pergunta.
Um silêncio que não aponta o horizonte, porque já desistiu dele.
Um silêncio que apenas deixa os dias passarem com sua disciplina indiferente, enquanto os anos se infiltram na terra como água sem memória.
Hoje não marquei hora com ninguém.
E já não preciso.
Nem sei que horas são.
O relógio continua na parede.
Mas agora entendo: ele nunca esteve enganado.
Quem exigia direção era eu.
17/06/2026
Cadaverina
A morte nunca me chega como alma.
Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.
A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.
Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.
A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.
Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.
Meu pai, porém, ainda está perto demais.
Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.
E isso me incomoda.
Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.
O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.
A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.
Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.
31/05/2026
Território nunca Visitado
Hoje pensei em fazer um pudim.
Não fiz.
A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.
Estranhei.
Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.
Mas nunca fiz um pudim.
A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.
Nunca fiz um pudim.
Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.
Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.
É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.
E então deixa de acontecer.
O tempo deposita poeira sobre a ausência.
Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.
O pudim continuava inexistente.
Os ovos continuavam na geladeira.
O leite condensado continuava no armário.
Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.
No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.
A cozinha permaneceu igual.
O mundo permaneceu igual.
15/05/2026
Casa de Câmbio
Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.
10/05/2026
Bolo de chocolate
Bolo de chocolate
Estava eu num domingo molhado, daqueles feitos sob medida para quem acorda com a alma fora do corpo. Chovia aquela chuva miúda que, por aqui, chamam de chuva que molha os bestas. Eu nem liguei. Era besta havia tempo demais. Tinha aprendido a correr para a chuva em vez de fugir dela.
Acordei calculista. Queria morrer, mas sem erro. Passei a manhã pesquisando doses, janelas toxicológicas, sequelas, probabilidades de virar vegetal. Imaginava o cenário: preso numa cama, fedendo, virando osso e merda, boca seca, dentes à mostra, esperando a morte que eu mesmo tentara apressar. O celular, esse cão fiel, me sugou para dentro. Leitura ia, leitura vinha. Até que algo me distraiu: não era veneno de farmácia. Era veneno de dispensa.
Margarina, açúcar, farinha, creme de leite, leite condensado — e mais leite condensado, porque uma vez só nunca basta. Sem planejar, comecei a jogar tudo na batedeira. Joguei amendoim, castanha, uva-passa, ameixas. Bati até a massa ficar homogênea, escura, brilhante. O forno já esquentava. Não queria que o bolo saísse solado como a minha vida.
Enquanto a massa girava, os remédios foram esquecidos na gaveta da mente. De repente eu estava preocupado com o tempo exato de forno, com o palito que sai limpo, com o cheiro que invadia a cozinha. O suicida meticuloso tinha virado cozinheiro ansioso. Era ridículo. Era salvador.
O bolo saiu perfeito: alto, úmido, denso. Fiz três xícaras de café. Pus a mesa com a seriedade de um ritual inventado na hora. Primeira garfada. Primeiro gole. Doce demais. Amargo demais. Vivo demais.
Comi devagar. Para cada xícara, um pedaço. No último farelo, no último gole, eu não estava morto. Estava empanturrado de uma tristeza diferente — aquela que ainda consegue sentir gosto.
Nos dias seguintes, a balança cobrou o preço. Mas valia.
O bolo não cura. Não resolve o carrossel de Tobias, aquele brinquedo velho que rodava praças de cidade pequena em Sergipe, rangendo, fazendo a criança jurar que viajava longe quando, na verdade, dava voltas no mesmo eixo enferrujado.
Mesmo assim, sigo aqui. Barriga cheia, boca com gosto de chocolate. Perdi feio para a vida outra vez — mas perdi com cobertura espessa por cima de um miolo meio solado.
Amanhã a gente vê se o carrossel ainda gira. Por hoje, o bolo venceu.
28/03/2026
Reticentes Recorretes
A minha mãe nunca disse que não podia. Nunca disse que não tinha. Ela apenas demovia sorrateiramente a vontade que eu tinha de qualquer coisa. Ela ia porfiando pelas beiradas, metia defeitos, procurava jeito qualquer que fosse para me dizer que o que eu queria não servia de nada. Era apenas um capricho de criança. E nisso eu perdia a vontade do que quer que fosse.
Nisso eu fui aprendendo a querer pouco. E acabei sendo pouco também.
Quando a gente fazia aniversário ela deixava claro que pobre não fazia aniversário. Pobre completa ano. Ignorando ela que aniversário era justamente isso. A gente não tinha era festa de aniversário, presente de aniversário e nem um feliz aniversário.
A miséria nos ensinava que querer era errado e que não poder era a norma.
Ela nunca disse um lacônico não!
Ela arrodeava, me fazia cismar, e duvidar do que eu queria. Eu vacilava e mudava o tino. Ia para outras coisas que o menino em mim me permitia. Permitiu tão pouco a bem da verdade. Eu me sentia como um passarinho que não sabia voar. Mas me viam como um menino cheio de azedume, endemoniado. Não a minha mãe. Os outros que saíram dela.
Eu era uma carta sem destinatário, um livro sem leitor uma chave que não abria porta nenhuma.
Hoje, com minhas cãs, ainda tenho que forçar, empurrar, demandar força para existir mesmo desencaixado daqueles próximos de sangue e longe de existência.
Sou forte; sem ternunra, mas forte. Minha mãe embora me demovesse de minhas pequenas ambições infantis fez de mim um homem forte. Ainda que queira pouco, ainda que saiba pouco, ainda que a vida seja pouca e sem sentido, eu me esforço para andar com a cabeça erguida e para não viver sob olhares presunçosos de grandeza moral inexistente.
Eu sou filho da paixão. Talvez o único ato louco e passional porque ela passou.
Eu passei por tantas paixões loucas e transitórias que tenho pena de quem nunca as experimentou de verdade com medo de deus, esperando uma recompensa de um mundo que seria completamente entendiante. Como é bom não precisar de deus para ser bom. Como é bom imaginar uma deusa-mãe que lhe dá colo e não promete castigar por não viver o roteiro que escreveram para você.
Hoje, de novo, não tem festa de aniversário, apenas aniversário; mais pela minha falta de habilidades sociais do que pela miséria.
De qualquer modo tem aniversário.
Afetos completamente desorganizados, mas cheios de emoções paralelas.
Janelas abertas, portas fechadas.
Um pôr do sol que pincela de amarelo alaranjado meu fim de tarde e que escurece junto com minha alma.
Todo dia é essa agonia, ou essa aventura.
Meu deus que criatura!
26/03/2026
Ímpares Solitários
Abro a gaveta de meias toda manhã com a mesma expectativa tola de quem compra bilhete de loteria sabendo a estatística. E toda manhã o mundo me confirma: não há par. Há meias. Há intenções de meias. Há meias que foram, um dia, a metade de algo que se podia chamar de conjunto, mas que agora existem sozinhas com uma dignidade levemente ridícula, como filósofos do nada e do tudo.
Não jogo fora. Esse é o problema. Guardo a meia solitária porque existe em mim uma fé residual, irracional, quase litúrgica, de que a outra vai aparecer. Que houve apenas um desencontro provisório. Que a gaveta ainda vai se resolver. Mas a gaveta não se resolve, a gaveta acumula, e eu fico ali parado de manhã com uma meia listrada na mão olhando para o nada como se o nada fosse me dar uma explicação.
Minha vida tem essa textura.
No chaveiro que carrego no bolso há chaves que não sei mais do que são. Não sei. Juro que não sei. Há uma pequena, dourada, que pode ter sido de um cadeado de mala ou do coração de alguém ou de uma caixa de papelão onde guardei coisas que não quero lembrar que guardei. Há uma de corte estranho, que abre alguma coisa que provavelmente não existe mais, alguma porta em algum apartamento de algum tempo em que eu era uma versão anterior de mim com outros problemas de mesmo peso. Carrego essas chaves com a seriedade de quem carrega documentos. Com o rigor de quem sabe para onde vai.
Mas não sei para onde vou.
O absurdo não é carregar chaves sem fechadura. O absurdo é a seriedade com que as carrego. É o peso concreto delas no bolso, esse som metálico e sem cerimônia que fazem quando bato na coxa, esse hábito de consultá-las com os dedos enquanto penso, como se na ponta dos dedos houvesse resposta tátil para perguntas que não têm nem enunciado certo. Carrego o peso do que não abre mais como se abertura fosse ainda uma possibilidade honesta.
E talvez seja. Aí está o problema.
Porque a chave que não encontra fechadura permanece numa espécie de limbo teológico: ela não falhou, ela apenas ainda não encontrou o que lhe corresponde. A porta pode existir. Pode ser que em algum lugar haja uma fechadura esperando exatamente esse dente irregular, esse corte específico que minha chave desconhecida tem. A possibilidade não foi descartada, foi só adiada, o que é uma forma de tortura mais refinada do que a negação direta.
A vida passageira funciona assim: ela não diz não. Ela diz ainda não, ou diz talvez, ou pior, não diz nada e deixa a chave no bolso tilintando contra as outras chaves igualmente inúteis igualmente esperançosas.
Às vezes penso que devo jogar fora. As meias ímpares, as chaves sem rosto. Fazer aquela limpeza que os livros de autoajuda prometem que muda algo além da gaveta. Mas sempre que pego uma chave para descartar, a seguro por um instante e sinto naquele metal frio uma história que não consigo reconstruir completamente, uma história que existe só como clima, como resíduo, como a sensação de que aquilo importou sem que eu consiga dizer exatamente o quê ou o quando ou o porquê.
E guardo de volta.
Somos, talvez, o que não conseguimos jogar fora. O par que falta, a fechadura que sumiu, o transitório que ficou preso no bolso sem avisar que havia ficado. A vida equívoca e inexata que insiste em não se organizar em conjuntos legíveis, em narrativas com início meio e fim, em gavetas arrumadas de onde se tira, sem drama, as duas meias certas para o dia que começa.
Hoje vou de meias diferentes. Uma cinza, uma azul. Caminho assim, levemente assimétrico, levemente absurdo, com as chaves batendo no bolso como sinos pequenos e sem música que tocam só para mim.
19/03/2026
Telas e Pratos no Calor Morto
O sol de Sergipe entra pela janela como um ferro em brasa, grudando o ar no corpo, tornando cada respiração uma rendição preguiçosa. É um dia desocupado, desses que o calendário entrega de bandeja, sem textos para dissecar em camadas de ironia ou melancolia. Sento na cadeira rangente, o ventilador girando preguiçoso no teto, e o celular vira âncora. Dedos deslizam, rolam feeds infinitos: memes que riem de nada, notícias que mastigam o mundo em pedaços indigeríveis, stories de vidas alheias que brilham como falsas constelações. É seguro aqui, na tela. O polegar sabe o caminho, automático, hipnótico, como quem foge de um precipício fingindo admirar a vista.Mas o medo não mente. Ele sussurra primeiro, um zumbido baixo sob as notificações, depois grita — uma voz interna que não aponta para lugar nenhum, só para o vazio que engole tudo. Tristeza sem nome, ecoando insignificância como um grito num poço seco, onde cada eco multiplica o silêncio em vez de preenchê-lo. Decadência que se alastra devagar, nos vincos da pele enrugada pelo calor, na pilha de livros intocados na mesa, nas promessas de projetos que viram fantasmas pálidos, pairando como névoa sobre o que poderia ter sido. Falta de sentido? Não é falta, é excesso: o mundo transborda em pixels vazios, e eu, preso, rolo mais uma vez, como se o próximo vídeo pudesse remendar o buraco que se abre no peito, um vazio que não pede explicações, só devora as que inventamos para nos iludir. Parar seria olhar para dentro, encarar o abismo que devolve o olhar com um bocejo indiferente, revelando não um propósito grandioso, mas a teia frágil de rotinas que tecemos para não desabar — rotinas que, no fim, só adiam o inevitável confronto com o nada que nos constitui. E nesse adiamento reside o veneno doce: cada scroll é uma vitória pírrica sobre o silêncio, cada like um aplauso para o ator solitário no palco vazio, onde o sentido finge existir só porque os holofotes ainda piscam. Mas e se o teatro todo for só ilusão? A voz grita mais alto agora, não com raiva ou desespero, mas com uma indiferença cruel, ecoando que somos poeira dançando no vento quente, insignificantes não por maldade do cosmos, mas por sua absoluta indiferença a nossas narrativas frágeis.De repente, o olho cai na cozinha. A pia está cheia de pratos, empilhados como ruínas de banquetes esquecidos — restos de arroz endurecido, xícaras com círculos de café como auréolas profanas. Enquanto houver pratos, haverá procrastinação. Lavo um? Não, amanhã. Amanhã o sol não queima tanto, amanhã a voz cala, amanhã o celular solta um elixir que preenche o vazio. Mas o absurdo mora aí: os pratos se multiplicam sozinhos, ou será que eu os invento para não enfrentar o silêncio? Um prato a mais, uma notificação a menos, e o dia escorre pelo ralo, quente e inútil. O ventilador gira, o sol ri, e eu, rei do nada, continuo rolando
18/03/2026
A inércia de uma pedra , a queda cinetica da dor
Tropeços cronológicos
O relógio de parede parou e, curiosamente, ninguém percebeu de imediato. Continuou ali, respeitável, com seus ponteiros imóveis, sustentando uma aparência de ordem. Há objetos que, mesmo mortos, mantêm a pose melhor do que muita gente viva.
Alguém, inevitavelmente, repete a máxima: “mesmo parado, ele acerta duas vezes ao dia”. A frase tem o charme das ideias que parecem profundas justamente por não serem examinadas. Funciona como consolo intelectual para a falha, quase uma absolvição.
Mas o relógio não acerta. Ele coincide.
Há uma diferença estrutural aí que costuma ser ignorada. Acertar implica acompanhar, ajustar-se, responder ao tempo. Coincidir é outra coisa, é estar imóvel enquanto o mundo, por acaso, passa pelo mesmo ponto. O mérito, se há algum, não é do relógio, é do tempo que continua, indiferente, fazendo o trabalho sozinho.
Dizer que o relógio parado “acerta” é como elogiar uma pedra por estar no lugar certo quando alguém tropeça nela. A pedra não antecipou nada, não calculou nada. Apenas estava.
Sem outro relógio funcionando, ninguém saberia dizer que horas são olhando para aquele mostrador congelado. Ele não informa, ele sugere, e sugere sempre a mesma coisa. Um instrumento que não diferencia instantes não mede tempo, no máximo encena a ideia de medida.
Ainda assim, há certo conforto em mantê-lo na parede. Ele organiza o espaço, cria a ilusão de continuidade, como se o tempo estivesse ali, domesticado. Talvez seja isso que realmente se defende quando se repete a frase, não o relógio, mas a necessidade de acreditar que até o que falha conserva algum vínculo secreto com o acerto.
Não conserva.
O relógio parado não está certo duas vezes ao dia. Está permanentemente desligado daquilo que pretende representar. E quando, por coincidência, o mundo passa por aquele mesmo número, o que ocorre não é um acerto, é um encontro fortuito entre um sistema que funciona e outro que desistiu.
No fundo, o relógio parado não é um erro ocasional. É a negação contínua do próprio propósito, disfarçada de precisão eventual. E isso, longe de ser reconfortante, é apenas uma forma elegante de inutilidade.
06/03/2026
Presente do indicativo
Não queria ter conhecido as pessoas que conheci.
Cada rosto virou um espelho onde algo em mim ia se decompondo aos poucos, silenciosamente, como fruta que apodrece por dentro antes que a casca revele qualquer coisa. Cada encontro foi uma colisão de mundos imperfeitos, orbitando sem sentido ao redor de um centro que nunca estava lá.
Não queria ter sentido o que senti. E o que ainda pulsa nos nervos como febre tardia, essa coisa que não passa quando deveria ter passado. Sentir é uma ferida que recusa cicatrizar. A consciência se debruça sobre ela, examina, mede, disseca, tenta encontrar a lógica da dor como um médico que conhece o diagnóstico e sabe, com a frieza de quem sabe, que não há cura.
Não quero morrer.
Esse talvez seja o dado mais irracional de todos. Não quero morrer, mas viver tem o peso de um naufrágio que nunca termina. Um corpo à deriva que continua se debatendo na água mesmo depois de entender que não existe costa visível em nenhuma direção. Respirar é só prolongar o intervalo entre uma onda e outra. Viver exige uma crença que eu simplesmente não tenho.
Os outros caminham como se o chão fosse sólido. Como se isso fosse um fato e não uma aposta. Mas sob a superfície existe apenas uma crosta fina, e embaixo dela o abismo, paciente, esperando o momento em que alguém olha para baixo por tempo demais.
Não queria ter nascido.
A frase aparece sem drama, quase administrativa. Um erro inicial que desencadeou todos os outros numa sequência que ninguém pediu para ver. Poderia ter sido um aborto. Seria uma interrupção discreta, uma correção silenciosa feita antes que a consciência surgisse para testemunhar o próprio absurdo de si mesma. Mas nem isso. Às vezes parece que houve uma falha ainda mais profunda, como se até o aborto tivesse sido abortado. Como se a matéria tivesse insistido em produzir este corpo contra qualquer razoabilidade disponível. Um aborto do aborto. Um resto biológico da improbabilidade que acordou um dia e descobriu que tinha que existir.
E então a consciência desperta dentro desse resto e começa a observar.
Observa o teatro. As pequenas ambições, as rivalidades que as pessoas levam a sério, as promessas morais erguidas como paredes sobre um vazio que as paredes não conseguem esconder. A consciência observa tudo isso com o cansaço específico de quem vê o truque mas ainda assim assiste ao espetáculo porque não tem mais para onde olhar.
Enquanto isso a luta continua. A luta para não andar se arrastando pelas ruas com a cara de quem perdeu tudo, embora, na contabilidade fria dos fatos, a derrota seja mesmo o estado mais próximo da verdade. A postura ereta é quase uma encenação diária. Uma tentativa de manter a dignidade mínima de um organismo que sabe coisas demais para o próprio bem.
Mas existe um momento em que a derrota parece suspensa.
Quando alguém procura. Quando alguém precisa de alguma coisa, um favor, uma presença, uma utilidade concreta qualquer. Nesses instantes acontece algo curioso: a existência encontra uma função breve, quase mecânica, e isso basta. Ser útil cria a ilusão temporária de vitória. Por alguns minutos a consciência para de girar no próprio eixo. Há tarefa, há direção, há finalidade.
Depois passa.
E o pensamento volta ao que é naturalmente. A observação quieta de que toda essa luta, essa insistência moderna em seguir, melhorar, progredir, levantar todo dia para repetir gestos aprendidos como se fossem espontâneos, pode não ser mais do que isso. Um movimento constante de corpos conscientes tentando justificar, de alguma forma, o fato fundamental e irrespondível de que nasceram sem que ninguém jamais lhes perguntasse se queriam.
02/03/2026
Inventário de Ruínas
O sol de amanhã chega como um convite que eu não emiti. Existe uma espécie de traição no calor que insiste em atravessar a cortina — ele não aquece, apenas expõe: aqui está você, ainda existindo, contra sua própria vontade.
Eu queria o nada. Não o nada terminal, mas o vazio anterior, o espaço não-ocupado, a página que nunca foi tocada pela mão de ninguém. Olho para o que sou e encontro um projeto arquitetônico abandonado a meio caminho: paredes sem reboco, fiação exposta, portas que abrem para paredes. Sou o erro de cálculo que persistiu em pé por puro acaso estrutural.
É um exercício de contorcionismo existencial, esse de habitar e desabilitar-se simultaneamente. À noite, expando-me como gás tóxico, ocupando quartos que não pedi; ao amanhecer, contrai-me como músculo em cãibra, encolhendo-me dentro da própria pele como quem foge de si mesmo. Durmo como um atlas e acordo como um selo postal — diminuído, adesivo, pronto para ser remetido a lugar nenhum.
Lamento os rostos que depositaram suas digitais no meu vidro. Lamento ter aberto a comporta e deixado que bebessem da água turva da minha atenção. Ofereci-lhes o cardápio inteiro de minha disponibilidade, e eles mastigaram com os olhos fixos no telefone, engoliram sem saborear, deixaram a gorjeta do esquecimento sobre a toalha suja. Eles entraram no meu arquivo pessoal — aquele armário de aço onde guardo os originais com o zelo de um arquivista lunático — e trataram meus documentos como rascunhos. Rasgaram minhas anotações marginais, dobraram minhas certezas ao meio, usaram minhas conclusões para apagar lápis. Saíram deixando portas abertas e luzes acesas, e eu, o tolo, paguei a conta do consumo.
O céu carrega o peso específico da chuva que não cai. O cheiro de ferro molhado invade pela janela — é o odor da possibilidade, do plantio que exige coragem que eu já gastei em outras estações. Seguro as sementes na palma até que suem, até que germinem no calor da minha hesitação, criando raízes que não levam a terra nenhuma. Tenho pavor da colheita porque sei que cada fruto será uma sentença — o gosto metálico de todas as vezes que escolhi não escolher.
O céu está bonito de chuva que não vem, e isso é a ironia suprema: a beleza em potencial, o desastre que se anuncia mas não acontece, a espera que se torna permanente. Um homem para por um instante no meio da calçada, observa o papel amassado no chão, e dá de ombros — porque se nada tem sentido prévio, até o lixo é curadoria.
Mas eu não sou esse homem. Eu sou o papel. Eu sou o amassado, o rasgado, o descartado que ainda tenta ler a si mesmo antes que a chuva chegue e borre a tinta. E a chuva continua suspensa, preguiçosa, molhando outros telhados enquanto eu aguardo aqui, embaixo, me dissolvendo lentamente no ar úmido do que não aconteceu.
O arquivo está aberto. As notas estão rasgadas. O inventário continua — item por item, ferida por ferida, silêncio por silêncio — e eu, o arquivista, o arquivo, o estrago, sigo catalogando a própria ruína com a precisão de quem sabe que ninguém mais lerá este documento.
18/02/2026
Pretérito Perfeito
Queria amar para sempre quem um dia amei.
Não a pessoa — o estado.
A vertigem limpa de acreditar.
Havia um lugar dentro de mim onde o amor não tinha cálculo. Era puro impulso, quase fé. Eu não sabia do desgaste, não suspeitava da falha. Amar era um gesto sem sombra.
Queria voltar ali.
Mas o tempo não permite regressos; apenas memória. E memória é reconstrução, nunca retorno. O que chamamos de “para sempre” era só ignorância do fim.
Já é tarde.
Não porque o amor tenha acabado — mas porque eu já sei.
E saber corrói a ingenuidade como ferrugem lenta.
Resta a lembrança daquele instante inaugural, quando tudo parecia eterno simplesmente porque ainda não tinha sido quebrado.
Furta-cor
Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.
Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.
Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.
Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.
As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.
A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.
A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.
As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.
A visão é turva. A beleza, não.
Viva.
12/02/2026
09/02/2026
Mentiras sem Esquadros
Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.
24/01/2026
Brincadeira de criança
Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.
Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.
Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".
No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.
A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.
Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.
A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.
A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.
Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.
E a frase que se impõe não consola nem acusa:
não se tratava de ser desnecessário,
mas de existir apenas como peça provisória,
um encaixe tolerado enquanto cumpria função,
retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.
Como aquela criança no guarda-roupa,
que depois de horas escondida decidiu sair,
não porque foi encontrada,
mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,
e ela era, ao mesmo tempo,
a última a saber
e a única que sempre soube.
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