04/07/2026

O que ninguem viu

 

Eliane não batia. Não precisava.

Ela só parava de olhar. Quando eu errava, o olho dela desviava. Como se eu tivesse virado parede. Eu aprendi que o silêncio dela pesava mais que grito. Aprendi a vigiar a direção dos olhos dela antes de abrir a boca. Se ela olhava para o lado, eu já sabia: some. E eu sumia. Não do quarto. De mim.

Tinha dia que eu acordava e a primeira coisa que fazia era testar o humor pelo barulho dos passos. Passo forte = encolher. Passo arrastado = tentar uma piada. Passo rápido = fingir que não existo. Eu tinha 6 anos e sabia ler pisada melhor que palavra.

Na mesa, meu lugar era o mais perto da parede. Sem costas livres. Sem saída. Se eu derrubasse o copo, era o fim. Se eu mastigasse alto, era o fim. Se eu pedisse mais comida, era o fim. Então eu comia devagar, baixo, pouco. Aprendi a ter fome calada.

Dedé falava: "Você não presta". Mas não era gritando. Era dando risada. Como se fosse brincadeira. E todo mundo ria junto. Eu ria também. Ria para não chorar. Ria para provar que entendia a piada. A piada era eu.

Certa vez, brinquei de descobridor. Fiz uma cabana com lençol. Eliane entrou, olhou, não falou nada. Desmontou a cabana com um puxão. Pegou o lençol, dobrou, guardou. Não disse uma palavra. Eu fiquei ali, no meio do nada, como se a cabana nunca tivesse existido. Como se eu nunca tivesse existido.

Quando me chamavam de "demoníaco", era em tom de conversa normal. Como quem diz "hoje tá frio". Meu corpo gelava. Mas eu não podia mostrar. Mostrar era pior. Eu aprendi a não tremer quando ouviam meu nome.

No juizado de menores, era o cartão de visita. Toda vez que eu fazia algo que eles não gostavam: "Vai pro Juizado." Eu não sabia o que era. Mas sabia que era onde criança ruim vai. E eu tentava não ser ruim. Tentava ser bom. Mas nunca sabia o que era bom pra eles. O alvo mudava. Um dia bom era silêncio. Outro dia bom era alegria. Outro dia bom era sumir.

Minha mãe, quando me defendia, era em voz baixa. Como quem pede desculpa por pedir. Eu ouvia: "Ele é só uma criança". E ouvia a resposta: "É por isso mesmo". Eu não entendia. Mas entendia que ser criança era o problema.

Eu tinha medo de dormir. Porque dormindo, não vigiava. Acordava com gente em cima da cama, conversando sobre mim, "ele não melhora", "vai piorar". Eu fingia que tava dormindo. Aprendi a respirar fundo e lento pra parecer que não ouvia.

Minha irmã mais velha me ensinou a não tocar nas coisas dela. Mas não falou. Só olhou. Um olho que dizia "se tocar, você vai ver". Eu nunca toquei. Até hoje, em loja, tenho vontade de pedir licença pra tocar em roupa.

O banheiro era o único lugar onde eu podia chorar sem barulho. Aprendi a chorar com a boca aberta, sem som. Só o ar saindo. Assim ninguém ouvia. Assim ninguém vinha perguntar. Porque perguntar era pior. Perguntar era "o que você fez agora?"

Dedé me dava brinquedo quebrado. E dizia: "É pra você aprender a consertar". Eu consertava. Consertava tudo. Cada brinquedo era um teste. Se eu não consertasse, era ingrato. Se eu consertasse, ele dava outro quebrado. Eu aprendi que amor vem quebrado. E que a culpa é sua se não souber colar.

Eliane me chamava de "sensível". Mas não era elogio. Era diagnóstico. Como quem diz "tem defeito de fábrica". Eu fiquei anos tentando ser menos sensível. Até que entendi que sensível era o que sobrava de mim depois que eles tiraram tudo.

Quando eu ria muito, alguém dizia: "Tá achando graça do quê?" Quando eu ficava quieto: "Tá de castigo?" Quando eu pedia desculpas: "Desculpa o quê? Você não fez nada." Mas eu sempre pedia. Pedia por existir. Pedia por respirar no mesmo cômodo.

Até hoje, quando alguém ergue a mão perto de mim, eu pisco. Não por medo de apanhar. Por medo do gesto. Do movimento. Do que vem depois. Do que pode vir.

Aprendi a medir o valor de uma palavra pelo tom, não pelo conteúdo. "Vem cá" podia ser amor ou armadilha. Eu ia. Ia sempre. Porque não ir era pior.

Na cozinha, aquele dia, eu ouvi: "Ele não tem jeito". E todo mundo concordou. Cabeça balançando. Como se eu fosse um defeito que não vale o conserto. Eu tinha 8 anos. Eu entendi que não tinha jeito antes de saber que tinha jeito.

Você, você nunca fez isso. Mas você via. Você via eu sumir na mesa. Via eu rir quando não era graça. Via eu pedir desculpas por nada. E não dizia nada. E eu entendi que até quem ama não vê tudo. Ou vê e não sabe o que fazer. Ou vê e escolhe não ver.

Hoje, quando alguém me diz "você é forte", eu quero gritar: não sou forte. Sou sobrevivente. Sobrevivente não é forte. Sobrevivente é quem aprendeu a viver com o osso quebrado porque ninguém levou ao médico.

Meus irmãos me olham como quem olha um estranho que ficou rico. Não me veem. Veem o que podem tirar. E eu deixo tirar. Deixo porque aprender a dar foi a única forma que eu tive de merecer ficar. Mas hoje eu sei: dar não compra amor. Só adia o abandono.

Minha mãe, no fim, foi a única que ficou. Mas até ela, às vezes, me olhava com a pergunta: "Por que você nasceu?" Ela nunca disse. Mas o olho dela disse. E eu, menino, aprendi a responder com boas notas. Com não dar trabalho. Com ser útil. Com ser pouco.

Eu não quero mais ser pouco. Não quero mais merecer. Não quero mais ler passos. Não quero mais medir tom. Não quero mais rir de piada que me mata.

Quero que saibam: cada vez que me chamaram de doido, cada vez que desmontaram minha cabana, cada vez que me sentaram na cozinha pra decidir se eu ficava ou ia, cada vez que me olharam como defeito, cada vez que eu chorei sem som no banheiro, cada vez que eu engoli fome pra não pedir mais, cada vez que eu fingi que não doía, cada vez que eu me encolhi, cada vez que eu não fui eu, cada vez que eu apaguei quem era pra caber onde não cabia, cada vez que eu esperei o amor como quem espera esmola:

Nunca foi culpa minha.

E eu ainda estou aqui. Não porque perdoei. Porque aprendi a viver com o que não foi pedido. ninguém viu

Eliane não batia. Não precisava.

Ela só parava de olhar. Quando eu errava, o olho dela desviava. Como se eu tivesse virado parede. Eu aprendi que o silêncio dela pesava mais que grito. Aprendi a vigiar a direção dos olhos dela antes de abrir a boca. Se ela olhava para o lado, eu já sabia: some. E eu sumia. Não do quarto. De mim.

Tinha dia que eu acordava e a primeira coisa que fazia era testar o humor pelo barulho dos passos. Passo forte = encolher. Passo arrastado = tentar uma piada. Passo rápido = fingir que não existo. Eu tinha 6 anos e sabia ler pisada melhor que palavra.

Na mesa, meu lugar era o mais perto da parede. Sem costas livres. Sem saída. Se eu derrubasse o copo, era o fim. Se eu mastigasse alto, era o fim. Se eu pedisse mais comida, era o fim. Então eu comia devagar, baixo, pouco. Aprendi a ter fome calada.

Dedé falava: "Você não presta". Mas não era gritando. Era dando risada. Como se fosse brincadeira. E todo mundo ria junto. Eu ria também. Ria para não chorar. Ria para provar que entendia a piada. A piada era eu.

Certa vez, brinquei de descobridor. Fiz uma cabana com lençol. Eliane entrou, olhou, não falou nada. Desmontou a cabana com um puxão. Pegou o lençol, dobrou, guardou. Não disse uma palavra. Eu fiquei ali, no meio do nada, como se a cabana nunca tivesse existido. Como se eu nunca tivesse existido.

Quando me chamavam de "demoníaco", era em tom de conversa normal. Como quem diz "hoje tá frio". Meu corpo gelava. Mas eu não podia mostrar. Mostrar era pior. Eu aprendi a não tremer quando ouviam meu nome.

No juizado de menores, era o cartão de visita. Toda vez que eu fazia algo que eles não gostavam: "Vai pro Juizado." Eu não sabia o que era. Mas sabia que era onde criança ruim vai. E eu tentava não ser ruim. Tentava ser bom. Mas nunca sabia o que era bom pra eles. O alvo mudava. Um dia bom era silêncio. Outro dia bom era alegria. Outro dia bom era sumir.

Minha mãe, quando me defendia, era em voz baixa. Como quem pede desculpa por pedir. Eu ouvia: "Ele é só uma criança". E ouvia a resposta: "É por isso mesmo". Eu não entendia. Mas entendia que ser criança era o problema.

Eu tinha medo de dormir. Porque dormindo, não vigiava. Acordava com gente em cima da cama, conversando sobre mim, "ele não melhora", "vai piorar". Eu fingia que tava dormindo. Aprendi a respirar fundo e lento pra parecer que não ouvia.

Minha irmã mais velha me ensinou a não tocar nas coisas dela. Mas não falou. Só olhou. Um olho que dizia "se tocar, você vai ver". Eu nunca toquei. Até hoje, em loja, tenho vontade de pedir licença pra tocar em roupa.

O banheiro era o único lugar onde eu podia chorar sem barulho. Aprendi a chorar com a boca aberta, sem som. Só o ar saindo. Assim ninguém ouvia. Assim ninguém vinha perguntar. Porque perguntar era pior. Perguntar era "o que você fez agora?"

Dedé me dava brinquedo quebrado. E dizia: "É pra você aprender a consertar". Eu consertava. Consertava tudo. Cada brinquedo era um teste. Se eu não consertasse, era ingrato. Se eu consertasse, ele dava outro quebrado. Eu aprendi que amor vem quebrado. E que a culpa é sua se não souber colar.

Eliane me chamava de "sensível". Mas não era elogio. Era diagnóstico. Como quem diz "tem defeito de fábrica". Eu fiquei anos tentando ser menos sensível. Até que entendi que sensível era o que sobrava de mim depois que eles tiraram tudo.

Quando eu ria muito, alguém dizia: "Tá achando graça do quê?" Quando eu ficava quieto: "Tá de castigo?" Quando eu pedia desculpas: "Desculpa o quê? Você não fez nada." Mas eu sempre pedia. Pedia por existir. Pedia por respirar no mesmo cômodo.

Até hoje, quando alguém ergue a mão perto de mim, eu pisco. Não por medo de apanhar. Por medo do gesto. Do movimento. Do que vem depois. Do que pode vir.

Aprendi a medir o valor de uma palavra pelo tom, não pelo conteúdo. "Vem cá" podia ser amor ou armadilha. Eu ia. Ia sempre. Porque não ir era pior.

Na cozinha, aquele dia, eu ouvi: "Ele não tem jeito". E todo mundo concordou. Cabeça balançando. Como se eu fosse um defeito que não vale o conserto. Eu tinha 8 anos. Eu entendi que não tinha jeito antes de saber que tinha jeito.

Você, você nunca fez isso. Mas você via. Você via eu sumir na mesa. Via eu rir quando não era graça. Via eu pedir desculpas por nada. E não dizia nada. E eu entendi que até quem ama não vê tudo. Ou vê e não sabe o que fazer. Ou vê e escolhe não ver.

Hoje, quando alguém me diz "você é forte", eu quero gritar: não sou forte. Sou sobrevivente. Sobrevivente não é forte. Sobrevivente é quem aprendeu a viver com o osso quebrado porque ninguém levou ao médico.

Meus irmãos me olham como quem olha um estranho que ficou rico. Não me veem. Veem o que podem tirar. E eu deixo tirar. Deixo porque aprender a dar foi a única forma que eu tive de merecer ficar. Mas hoje eu sei: dar não compra amor. Só adia o abandono.

Minha mãe, no fim, foi a única que ficou. Mas até ela, às vezes, me olhava com a pergunta: "Por que você nasceu?" Ela nunca disse. Mas o olho dela disse. E eu, menino, aprendi a responder com boas notas. Com não dar trabalho. Com ser útil. Com ser pouco.

Eu não quero mais ser pouco. Não quero mais merecer. Não quero mais ler passos. Não quero mais medir tom. Não quero mais rir de piada que me mata.

Quero que saibam: cada vez que me chamaram de doido, cada vez que desmontaram minha cabana, cada vez que me sentaram na cozinha pra decidir se eu ficava ou ia, cada vez que me olharam como defeito, cada vez que eu chorei sem som no banheiro, cada vez que eu engoli fome pra não pedir mais, cada vez que eu fingi que não doía, cada vez que eu me encolhi, cada vez que eu não fui eu, cada vez que eu apaguei quem era pra caber onde não cabia, cada vez que eu esperei o amor como quem espera esmola:

Nunca foi culpa minha.

E eu ainda estou aqui. Não porque perdoei. Porque aprendi a viver com o que não foi pedido.

01/07/2026

Coivaras


O sol pesa. Não brilha — oprime.

No meio da malhada, o fogo é uma língua antiga, lambendo o mato seco, traduzindo o calor em sentença. As coivaras ardem em fileiras, e minhas irmãs, com rastelos nas mãos, repetem o gesto das gerações: riscar a terra para alimentar o fogo, como quem mantém o mundo em funcionamento por pura teimosia.

O ar cheira a cinza e a espera. Tudo pulsa em vermelho.

Os homens fincam postes, erguem torres de promessa. São figuras feitas de sombra e suor, moldando o futuro com as próprias mãos. Um deles se destaca — o operário do sorriso inclinado, o olhar que mede o horizonte e o corpo de minha irmã com o mesmo cálculo.

Ela o observa de soslaio, fingindo distração. O fogo estala ao lado, mas há outro fogo crescendo ali — mais silencioso, mais perigoso. Entre um fio e outro, ele torce pedaços de arame, faz pequenas esculturas: pássaros, corações, serpentes. Oferece uma delas a ela, como quem entrega um segredo materializado.

O sol testemunha o gesto sem piedade.

Ela recebe o presente. O metal brilha, quente, como se ainda guardasse a temperatura das mãos dele. É o primeiro contato, e o primeiro contato é sempre uma espécie de ferida.

O fogo cresce. A terra respira com dificuldade.

Eu assisto — criança no limite entre o visível e o que não se entende. O mundo inteiro parece arder em simultâneo: o mato, os corpos, o tempo. As formigas correm entre as brasas, os homens gritam ordens, o vento muda de direção e leva o cheiro do fogo para dentro da casa.

Minha irmã não olha mais para as chamas.

Olha para ele.

E nesse olhar há uma estranha suspensão: como se o agreste inteiro — o pó, o calor, as moscas, a claridade insuportável — parasse para assistir à possibilidade do que não devia acontecer.

O operário ri de algo que ninguém ouve.

A escultura de arame gira entre os dedos dela, refletindo a luz como um aviso: o perigo também sabe ser belo.

As coivaram rolam ao sabor do vento  lambendo o chão. As ordens aos operários  corta o ar em ecos apressados.

E tudo parece anunciar que a vida, naquele instante, está prestes a começar , ou a queimar por completo.

Eu, imóvel, não entendo a diferença.

No meio da malhada, o que se acende nunca quer apenas iluminar

28/06/2026

Ponto e vírgula;


Ninguém entra na vida de ninguém. O verbo engana.


Chegamos quando a frase já está sendo dita. A mesa conserva marcas de copos que não vimos, há fotografias viradas para baixo em gavetas que nunca abriremos, um perfume qualquer insiste num casaco cujo dono talvez já nem exista. Chamamos isso de encontro apenas porque ignoramos tudo o que aconteceu antes de abrirmos a porta.


As pessoas gostam de dizer "conheci alguém". É uma vaidade da gramática. Não se conhece alguém; conhece-se uma superfície suficientemente generosa para deixar adivinhar os escombros. O resto permanece trabalhando no escuro, onde a linguagem não alcança.


Cada rosto traz uma multidão que desaprendeu a aparecer. Infâncias que ainda respiram por baixo da pele. Mortos que continuam decidindo o tom da voz. Cidades demolidas que persistem no jeito de arrumar uma mesa ou fechar uma janela. O passado não passa; muda de roupa.


Talvez seja por isso que toda intimidade seja um equívoco bem-sucedido. Não porque revele o outro, mas porque nos faz esquecer, durante alguns minutos, que ele continua irremediavelmente estrangeiro.


Há uma superstição discreta segundo a qual ocupamos um papel decisivo na vida dos que amamos. É confortável imaginar que chegamos para alterar o enredo. Como se o mundo esperasse nossa entrada em cena para finalmente adquirir sentido.


Mas a vida raramente escreve assim.


Ela prefere a pontuação.


Às vezes somos uma vírgula: adiamos o fôlego. Às vezes um travessão: interrompemos. Às vezes reticências: deixamos um eco maior que a presença. Quase nunca somos o ponto final.


E existe o ponto e vírgula.


Esse sinal estranho que recusa tanto o encerramento quanto a continuidade dócil. Algo terminou; algo insiste. A frase poderia acabar, mas não acaba. Prossegue carregando o peso do que já não pode desfazer.


Talvez seja esse o verdadeiro nome dos encontros. Não capítulos. Não destinos. Apenas um ponto e vírgula na sintaxe do tempo.


Depois seguimos.


Não porque a história terminou.


Porque ela nunca pertenceu a ninguém.

Domingo a gente Chora



Domingo não é dia. É umidade — nas paredes, nos ossos, nas ideias. Chove sem pressa, sem drama, sem promessa de limpeza. A chuva apenas cai, como quem já não precisa se explicar.

Acordei com Bethânia declamando Prece. Hoje não li Pessoa — ouvi Pessoa atravessando a garganta de uma mulher que faz da palavra herdada coisa própria. Talvez seja esse o único milagre da poesia: um morto mais vivo que os vivos que o leem.

Todos acreditam carregar um pouco de Pessoa. Vaidade compreensível. Ninguém admite a própria banalidade, mas todos reconhecem a própria tristeza. Somos mendigos do íntimo. Sabemos o endereço da dor, frequentamos sua calçada, decoramos sua fachada — mas nunca tivemos a chave. Talvez nem exista porta. Talvez a dor seja só um bairro onde andamos em círculos chamando repetição de profundidade.

Não acredito em Deus. Deus exige templos, dogmas, promessas, recompensas adiadas. A poesia é mais modesta: não salva, apenas organiza o fracasso em versos bonitos o bastante para contemplá-lo sem constrangimento. Mesma aposta, sem o luxo da eternidade.

Bethânia canta um homem morto que passou a vida escrevendo sobre existir como quem observa o próprio corpo de longe. Um vivo emprestando voz a um morto para alcançar outros vivos que já experimentam, aos poucos, a própria ausência.

A chuva continua. Não participa — acontece. Não precisa de testemunhas, nem de aplausos, nem de sentido.

Talvez o domingo seja isso: não pausa antes da segunda, mas demonstração silenciosa de que o universo não interrompe seu funcionamento para nos responder. Chove sobre quem crê e sobre quem não crê. Sobre a infância, os velhos, as igrejas e os cemitérios — com a mesma indiferença mineral.

Não há lição.

Há Bethânia, um poeta morto, uma janela molhada e um domingo cumprindo sua única vocação: existir sem pedir licença para ser interpretado.

22/06/2026

Que destino é esse?


Hoje não marquei hora com ninguém.

E, ainda assim, alguma coisa em mim continua atrasada.

O relógio está ali, na parede, insistindo em seu ofício de ferro e costume. Move os ponteiros com a compostura de quem acredita no mundo. Mas há muito desconfio dessa elegância mecânica. Ele não conduz. Não salva. Não explica. Apenas passa, como passam os dias, como passam os rostos, como passa tudo o que um dia juramos reter.

Durante anos pensei que a vida estivesse me esperando em algum ponto exato do caminho.

Atrasado para o amor.

Atrasado para a alegria.

Atrasado para mim mesmo.

Via os outros correndo com uma segurança que me humilhava. Tinham destinos dobrados no bolso, compromissos nos dedos, fotografias, alianças, diplomas, datas, tudo muito bem alinhado como se houvesse uma ordem secreta que apenas eu ignorava. Eu, ao contrário, me sentia sempre no lado errado do tempo.

Então comecei a correr também.

Não por convicção.

Por medo.

Porque a imobilidade parece indecente diante da pressa alheia.

Porque ficar parado, hoje, é quase uma forma de culpa.

Corri, portanto, como quem tenta alcançar uma porta já fechada.

Mas o caminho não se esclareceu.

Ao contrário: tornou-se cada vez mais incerto, mais delgado, mais parecido com uma invenção do próprio cansaço. Os marcos se apagavam. As distâncias mentiam. Os mapas se contradiziam com uma serenidade ofensiva. E, no meio dessa neblina, nasceu em mim uma suspeita que eu mesmo evitava nomear.

Talvez ninguém soubesse para onde ia.

Talvez todos estivéssemos apenas repetindo o gesto uns dos outros, como crianças perdidas no escuro que chamam de direção o ruído dos próprios passos.

Foi então que a estação apareceu.

Não a estação de ferro, nem a de telhado gasto, nem a de chegadas e partidas.

Uma estação interior.

Uma ruína com forma de espera.

Sentei-me nela durante anos, como quem aguarda um trem que traria a resposta final, a palavra exata, o amor definitivo, a versão legítima de si mesmo. Esperei com educação, com esperança, com esse tipo de fé que já nasce cansada.

E, enquanto esperava, a ferrugem trabalhou.

Subiu pelas placas.

Tomou os bancos.

Cresceu nos pilares.

Apodreceu a linguagem do anúncio, desfez a promessa das linhas, desarrumou o próprio conceito de partida.

Até que um dia compreendi algo pior do que a falta do trem.

Não havia atraso.

Não havia falha.

Não havia abandono.

Não havia estação.

A ruína não era o resto de uma promessa quebrada.

Era a promessa desde o início.

O vazio não sobreviera depois.

O vazio era a arquitetura.

Fui eu quem lhe deu nome.

Fui eu quem desenhou horários.

Fui eu quem escutou partidas imaginárias e chamou isso de destino.

E, quando essa verdade finalmente chegou, não trouxe consolo.

Trouxe silêncio.

Mas não um silêncio vazio, desses que pedem resposta.

Um silêncio anterior à pergunta.

Um silêncio que não aponta o horizonte, porque já desistiu dele.

Um silêncio que apenas deixa os dias passarem com sua disciplina indiferente, enquanto os anos se infiltram na terra como água sem memória.

Hoje não marquei hora com ninguém.

E já não preciso.

Nem sei que horas são.

O relógio continua na parede.

Mas agora entendo: ele nunca esteve enganado.

Quem exigia direção era eu.

17/06/2026

Necrópolis


A morte nunca me chega como alma.

Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.

A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.

Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.

A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.

Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.

Meu pai, porém, ainda está perto demais.

Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.

E isso me incomoda.

Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.

O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.

A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.

Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.


31/05/2026

Território nunca Visitado


Hoje pensei em fazer um pudim.

Não fiz.

A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.

Estranhei.

Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.

Mas nunca fiz um pudim.

A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.

Nunca fiz um pudim.

Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.

Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.

É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.

E então deixa de acontecer.

O tempo deposita poeira sobre a ausência.

Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.

O pudim continuava inexistente.

Os ovos continuavam na geladeira.

O leite condensado continuava no armário.

Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.

No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.

A cozinha permaneceu igual.

O mundo permaneceu igual.

15/05/2026

Casa de Câmbio


Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.


10/05/2026

Bolo de chocolate

 Bolo de chocolate

Estava eu num domingo molhado, daqueles feitos sob medida para quem acorda com a alma fora do corpo. Chovia aquela chuva miúda que, por aqui, chamam de chuva que molha os bestas. Eu nem liguei. Era besta havia tempo demais. Tinha aprendido a correr para a chuva em vez de fugir dela.

Acordei calculista. Queria morrer, mas sem erro. Passei a manhã pesquisando doses, janelas toxicológicas, sequelas, probabilidades de virar vegetal. Imaginava o cenário: preso numa cama, fedendo, virando osso e merda, boca seca, dentes à mostra, esperando a morte que eu mesmo tentara apressar. O celular, esse cão fiel, me sugou para dentro. Leitura ia, leitura vinha. Até que algo me distraiu: não era veneno de farmácia. Era veneno de dispensa.

Margarina, açúcar, farinha, creme de leite, leite condensado — e mais leite condensado, porque uma vez só nunca basta. Sem planejar, comecei a jogar tudo na batedeira. Joguei amendoim, castanha, uva-passa, ameixas. Bati até a massa ficar homogênea, escura, brilhante. O forno já esquentava. Não queria que o bolo saísse solado como a minha vida.

Enquanto a massa girava, os remédios foram esquecidos na gaveta da mente. De repente eu estava preocupado com o tempo exato de forno, com o palito que sai limpo, com o cheiro que invadia a cozinha. O suicida meticuloso tinha virado cozinheiro ansioso. Era ridículo. Era salvador.

O bolo saiu perfeito: alto, úmido, denso. Fiz três xícaras de café. Pus a mesa com a seriedade de um ritual inventado na hora. Primeira garfada. Primeiro gole. Doce demais. Amargo demais. Vivo demais.

Comi devagar. Para cada xícara, um pedaço. No último farelo, no último gole, eu não estava morto. Estava empanturrado de uma tristeza diferente — aquela que ainda consegue sentir gosto.

Nos dias seguintes, a balança cobrou o preço. Mas valia.

O bolo não cura. Não resolve o carrossel de Tobias, aquele brinquedo velho que rodava praças de cidade pequena em Sergipe, rangendo, fazendo a criança jurar que viajava longe quando, na verdade, dava voltas no mesmo eixo enferrujado.

Mesmo assim, sigo aqui. Barriga cheia, boca com gosto de chocolate. Perdi feio para a vida outra vez — mas perdi com cobertura espessa por cima de um miolo meio solado.

Amanhã a gente vê se o carrossel ainda gira. Por hoje, o bolo venceu.

28/03/2026

Reticentes Recorretes

A minha mãe nunca disse que não podia. Nunca disse que não tinha. Ela apenas demovia sorrateiramente a vontade que eu tinha de qualquer coisa. Ela ia porfiando pelas beiradas, metia defeitos, procurava jeito qualquer que fosse para me dizer que o que eu queria não servia de nada. Era apenas um capricho de criança. E nisso eu perdia a vontade do que quer que fosse.


Nisso eu fui aprendendo a querer pouco. E acabei sendo pouco também.


Quando a gente fazia aniversário ela deixava claro que pobre não fazia aniversário. Pobre completa ano. Ignorando ela que aniversário era justamente isso. A gente não tinha era festa de aniversário, presente de aniversário e nem um feliz aniversário.


A miséria nos ensinava que querer era errado e que não poder era a norma.


Ela nunca disse um lacônico não!


Ela arrodeava, me fazia cismar, e duvidar do que eu queria. Eu vacilava e mudava o tino. Ia para outras coisas que o menino em mim me permitia. Permitiu tão pouco a bem da verdade. Eu me sentia como um passarinho que não sabia voar. Mas me viam como um menino cheio de azedume, endemoniado. Não a minha mãe. Os outros que saíram dela.


Eu era uma carta sem destinatário,  um livro sem leitor uma chave que não abria porta nenhuma.


Hoje, com minhas cãs, ainda tenho que forçar, empurrar, demandar força para existir mesmo desencaixado daqueles próximos de sangue e longe de existência.


Sou forte; sem ternunra, mas forte. Minha mãe embora me demovesse de minhas pequenas ambições infantis fez de mim um homem forte. Ainda que queira pouco, ainda que saiba pouco, ainda que a vida seja pouca e sem sentido, eu me esforço para andar com a cabeça erguida e para não viver sob olhares presunçosos de grandeza moral inexistente.


Eu sou filho da paixão. Talvez o único ato louco e passional porque ela passou.


Eu passei por tantas paixões loucas e transitórias que tenho pena de quem nunca as experimentou de verdade com medo de deus, esperando uma recompensa de um mundo que seria completamente entendiante. Como é bom não precisar de deus para ser bom. Como é bom imaginar uma deusa-mãe que lhe dá colo e não promete castigar por não viver o roteiro que escreveram para você.


Hoje, de novo, não tem festa de aniversário, apenas aniversário; mais pela minha falta de habilidades sociais do que pela miséria.


De qualquer modo tem aniversário.


Afetos completamente desorganizados, mas cheios de emoções paralelas.


Janelas abertas, portas fechadas.


Um pôr do sol que pincela de amarelo alaranjado meu fim de tarde e que escurece junto com minha alma.


Todo dia é essa agonia, ou essa aventura.


Meu deus que criatura!

26/03/2026

Ímpares Solitários



Abro a gaveta de meias toda manhã com a mesma expectativa tola de quem compra bilhete de loteria sabendo a estatística. E toda manhã o mundo me confirma: não há par. Há meias. Há intenções de meias. Há meias que foram, um dia, a metade de algo que se podia chamar de conjunto, mas que agora existem sozinhas com uma dignidade levemente ridícula, como filósofos do nada e do tudo.

Não jogo fora. Esse é o problema. Guardo a meia solitária porque existe em mim uma fé residual, irracional, quase litúrgica, de que a outra vai aparecer. Que houve apenas um desencontro provisório. Que a gaveta ainda vai se resolver. Mas a gaveta não se resolve, a gaveta acumula, e eu fico ali parado de manhã com uma meia listrada na mão olhando para o nada como se o nada fosse me dar uma explicação.

Minha vida tem essa textura.

No chaveiro que carrego no bolso há chaves que não sei mais do que são. Não sei. Juro que não sei. Há uma pequena, dourada, que pode ter sido de um cadeado de mala ou do coração de alguém ou de uma caixa de papelão onde guardei coisas que não quero lembrar que guardei. Há uma de corte estranho, que abre alguma coisa que provavelmente não existe mais, alguma porta em algum apartamento de algum tempo em que eu era uma versão anterior de mim com outros problemas de mesmo peso. Carrego essas chaves com a seriedade de quem carrega documentos. Com o rigor de quem sabe para onde vai.

Mas não sei para onde vou.

O absurdo não é carregar chaves sem fechadura. O absurdo é a seriedade com que as carrego. É o peso concreto delas no bolso, esse som metálico e sem cerimônia que fazem quando bato na coxa, esse hábito de consultá-las com os dedos enquanto penso, como se na ponta dos dedos houvesse resposta tátil para perguntas que não têm nem enunciado certo. Carrego o peso do que não abre mais como se abertura fosse ainda uma possibilidade honesta.

E talvez seja. Aí está o problema.

Porque a chave que não encontra fechadura permanece numa espécie de limbo teológico: ela não falhou, ela apenas ainda não encontrou o que lhe corresponde. A porta pode existir. Pode ser que em algum lugar haja uma fechadura esperando exatamente esse dente irregular, esse corte específico que minha chave desconhecida tem. A possibilidade não foi descartada, foi só adiada, o que é uma forma de tortura mais refinada do que a negação direta.

A vida passageira funciona assim: ela não diz não. Ela diz ainda não, ou diz talvez, ou pior, não diz nada e deixa a chave no bolso tilintando contra as outras chaves igualmente inúteis igualmente esperançosas.

Às vezes penso que devo jogar fora. As meias ímpares, as chaves sem rosto. Fazer aquela limpeza que os livros de autoajuda prometem que muda algo além da gaveta. Mas sempre que pego uma chave para descartar, a seguro por um instante e sinto naquele metal frio uma história que não consigo reconstruir completamente, uma história que existe só como clima, como resíduo, como a sensação de que aquilo importou sem que eu consiga dizer exatamente o quê ou o quando ou o porquê.

E guardo de volta.

Somos, talvez, o que não conseguimos jogar fora. O par que falta, a fechadura que sumiu, o transitório que ficou preso no bolso sem avisar que havia ficado. A vida equívoca e inexata que insiste em não se organizar em conjuntos legíveis, em narrativas com início meio e fim, em gavetas arrumadas de onde se tira, sem drama, as duas meias certas para o dia que começa.

Hoje vou de meias diferentes. Uma cinza, uma azul. Caminho assim, levemente assimétrico, levemente absurdo, com as chaves batendo no bolso como sinos pequenos e sem música que tocam só para mim.

19/03/2026

Telas e Pratos no Calor Morto

 O sol de Sergipe entra pela janela como um ferro em brasa, grudando o ar no corpo, tornando cada respiração uma rendição preguiçosa. É um dia desocupado, desses que o calendário entrega de bandeja, sem textos para dissecar em camadas de ironia ou melancolia. Sento na cadeira rangente, o ventilador girando preguiçoso no teto, e o celular vira âncora. Dedos deslizam, rolam feeds infinitos: memes que riem de nada, notícias que mastigam o mundo em pedaços indigeríveis, stories de vidas alheias que brilham como falsas constelações. É seguro aqui, na tela. O polegar sabe o caminho, automático, hipnótico, como quem foge de um precipício fingindo admirar a vista.Mas o medo não mente. Ele sussurra primeiro, um zumbido baixo sob as notificações, depois grita — uma voz interna que não aponta para lugar nenhum, só para o vazio que engole tudo. Tristeza sem nome, ecoando insignificância como um grito num poço seco, onde cada eco multiplica o silêncio em vez de preenchê-lo. Decadência que se alastra devagar, nos vincos da pele enrugada pelo calor, na pilha de livros intocados na mesa, nas promessas de projetos que viram fantasmas pálidos, pairando como névoa sobre o que poderia ter sido. Falta de sentido? Não é falta, é excesso: o mundo transborda em pixels vazios, e eu, preso, rolo mais uma vez, como se o próximo vídeo pudesse remendar o buraco que se abre no peito, um vazio que não pede explicações, só devora as que inventamos para nos iludir. Parar seria olhar para dentro, encarar o abismo que devolve o olhar com um bocejo indiferente, revelando não um propósito grandioso, mas a teia frágil de rotinas que tecemos para não desabar — rotinas que, no fim, só adiam o inevitável confronto com o nada que nos constitui. E nesse adiamento reside o veneno doce: cada scroll é uma vitória pírrica sobre o silêncio, cada like um aplauso para o ator solitário no palco vazio, onde o sentido finge existir só porque os holofotes ainda piscam. Mas e se o teatro todo for só ilusão? A voz grita mais alto agora, não com raiva ou desespero, mas com uma indiferença cruel, ecoando que somos poeira dançando no vento quente, insignificantes não por maldade do cosmos, mas por sua absoluta indiferença a nossas narrativas frágeis.De repente, o olho cai na cozinha. A pia está cheia de pratos, empilhados como ruínas de banquetes esquecidos — restos de arroz endurecido, xícaras com círculos de café como auréolas profanas. Enquanto houver pratos, haverá procrastinação. Lavo um? Não, amanhã. Amanhã o sol não queima tanto, amanhã a voz cala, amanhã o celular solta um elixir que preenche o vazio. Mas o absurdo mora aí: os pratos se multiplicam sozinhos, ou será que eu os invento para não enfrentar o silêncio? Um prato a mais, uma notificação a menos, e o dia escorre pelo ralo, quente e inútil. O ventilador gira, o sol ri, e eu, rei do nada, continuo rolando

18/03/2026

A inércia de uma pedra , a queda cinetica da dor

Estou só como quem empurra uma pedra que não pede movimento, como quem cumpre um gesto que o mundo não encomendou. O esforço não redime, apenas ocupa. A montanha não responde. O chão não memoriza. Sou um ponto entre bilhões de pontos, grão que não soma, areia que não constrói deserto algum. Existir é repetir o peso, e chamar de sentido o hábito de não largá-lo. No fundo, não é a solidão que dói. É a lucidez de que ela é estrutural. Somos mônadas com sede de fusão, átomos que sonham ser molécula, consciências que imploram por um “nós” sabendo que o máximo que alcançam é um “eu” roçando outro “eu” no escuro. Desejamos ser dois em um, mas a ontologia nos condena ao um em um. Cada qual empurrando sua própria pedra, cada qual chamando de amor o breve alinhamento de trajetórias antes da gravidade nos separar outra vez. E ainda assim seguimos. Como Sísifo, mas sem a dignidade do mito. Empurramos por inércia, por teimosia biológica, por essa recusa patética e grandiosa de aceitar que o nada é suficiente.

Tropeços cronológicos

 O relógio de parede parou e, curiosamente, ninguém percebeu de imediato. Continuou ali, respeitável, com seus ponteiros imóveis, sustentando uma aparência de ordem. Há objetos que, mesmo mortos, mantêm a pose melhor do que muita gente viva.

Alguém, inevitavelmente, repete a máxima: “mesmo parado, ele acerta duas vezes ao dia”. A frase tem o charme das ideias que parecem profundas justamente por não serem examinadas. Funciona como consolo intelectual para a falha, quase uma absolvição.

Mas o relógio não acerta. Ele coincide.

Há uma diferença estrutural aí que costuma ser ignorada. Acertar implica acompanhar, ajustar-se, responder ao tempo. Coincidir é outra coisa, é estar imóvel enquanto o mundo, por acaso, passa pelo mesmo ponto. O mérito, se há algum, não é do relógio, é do tempo que continua, indiferente, fazendo o trabalho sozinho.

Dizer que o relógio parado “acerta” é como elogiar uma pedra por estar no lugar certo quando alguém tropeça nela. A pedra não antecipou nada, não calculou nada. Apenas estava.

Sem outro relógio funcionando, ninguém saberia dizer que horas são olhando para aquele mostrador congelado. Ele não informa, ele sugere, e sugere sempre a mesma coisa. Um instrumento que não diferencia instantes não mede tempo, no máximo encena a ideia de medida.

Ainda assim, há certo conforto em mantê-lo na parede. Ele organiza o espaço, cria a ilusão de continuidade, como se o tempo estivesse ali, domesticado. Talvez seja isso que realmente se defende quando se repete a frase, não o relógio, mas a necessidade de acreditar que até o que falha conserva algum vínculo secreto com o acerto.

Não conserva.

O relógio parado não está certo duas vezes ao dia. Está permanentemente desligado daquilo que pretende representar. E quando, por coincidência, o mundo passa por aquele mesmo número, o que ocorre não é um acerto, é um encontro fortuito entre um sistema que funciona e outro que desistiu.

No fundo, o relógio parado não é um erro ocasional. É a negação contínua do próprio propósito, disfarçada de precisão eventual. E isso, longe de ser reconfortante, é apenas uma forma elegante de inutilidade.

06/03/2026

Presente do indicativo

 Não queria ter conhecido as pessoas que conheci.

Cada rosto virou um espelho onde algo em mim ia se decompondo aos poucos, silenciosamente, como fruta que apodrece por dentro antes que a casca revele qualquer coisa. Cada encontro foi uma colisão de mundos imperfeitos, orbitando sem sentido ao redor de um centro que nunca estava lá.

Não queria ter sentido o que senti. E o que ainda pulsa nos nervos como febre tardia, essa coisa que não passa quando deveria ter passado. Sentir é uma ferida que recusa cicatrizar. A consciência se debruça sobre ela, examina, mede, disseca, tenta encontrar a lógica da dor como um médico que conhece o diagnóstico e sabe, com a frieza de quem sabe, que não há cura.

Não quero morrer.

Esse talvez seja o dado mais irracional de todos. Não quero morrer, mas viver tem o peso de um naufrágio que nunca termina. Um corpo à deriva que continua se debatendo na água mesmo depois de entender que não existe costa visível em nenhuma direção. Respirar é só prolongar o intervalo entre uma onda e outra. Viver exige uma crença que eu simplesmente não tenho.

Os outros caminham como se o chão fosse sólido. Como se isso fosse um fato e não uma aposta. Mas sob a superfície existe apenas uma crosta fina, e embaixo dela o abismo, paciente, esperando o momento em que alguém olha para baixo por tempo demais.

Não queria ter nascido.

A frase aparece sem drama, quase administrativa. Um erro inicial que desencadeou todos os outros numa sequência que ninguém pediu para ver. Poderia ter sido um aborto. Seria uma interrupção discreta, uma correção silenciosa feita antes que a consciência surgisse para testemunhar o próprio absurdo de si mesma. Mas nem isso. Às vezes parece que houve uma falha ainda mais profunda, como se até o aborto tivesse sido abortado. Como se a matéria tivesse insistido em produzir este corpo contra qualquer razoabilidade disponível. Um aborto do aborto. Um resto biológico da improbabilidade que acordou um dia e descobriu que tinha que existir.

E então a consciência desperta dentro desse resto e começa a observar.

Observa o teatro. As pequenas ambições, as rivalidades que as pessoas levam a sério, as promessas morais erguidas como paredes sobre um vazio que as paredes não conseguem esconder. A consciência observa tudo isso com o cansaço específico de quem vê o truque mas ainda assim assiste ao espetáculo porque não tem mais para onde olhar.

Enquanto isso a luta continua. A luta para não andar se arrastando pelas ruas com a cara de quem perdeu tudo, embora, na contabilidade fria dos fatos, a derrota seja mesmo o estado mais próximo da verdade. A postura ereta é quase uma encenação diária. Uma tentativa de manter a dignidade mínima de um organismo que sabe coisas demais para o próprio bem.

Mas existe um momento em que a derrota parece suspensa.

Quando alguém procura. Quando alguém precisa de alguma coisa, um favor, uma presença, uma utilidade concreta qualquer. Nesses instantes acontece algo curioso: a existência encontra uma função breve, quase mecânica, e isso basta. Ser útil cria a ilusão temporária de vitória. Por alguns minutos a consciência para de girar no próprio eixo. Há tarefa, há direção, há finalidade.

Depois passa.

E o pensamento volta ao que é naturalmente. A observação quieta de que toda essa luta, essa insistência moderna em seguir, melhorar, progredir, levantar todo dia para repetir gestos aprendidos como se fossem espontâneos, pode não ser mais do que isso. Um movimento constante de corpos conscientes tentando justificar, de alguma forma, o fato fundamental e irrespondível de que nasceram sem que ninguém jamais lhes perguntasse se queriam.

02/03/2026

Inventário de Ruínas

O sol de amanhã chega como um convite que eu não emiti. Existe uma espécie de traição no calor que insiste em atravessar a cortina — ele não aquece, apenas expõe: aqui está você, ainda existindo, contra sua própria vontade.

Eu queria o nada. Não o nada terminal, mas o vazio anterior, o espaço não-ocupado, a página que nunca foi tocada pela mão de ninguém. Olho para o que sou e encontro um projeto arquitetônico abandonado a meio caminho: paredes sem reboco, fiação exposta, portas que abrem para paredes. Sou o erro de cálculo que persistiu em pé por puro acaso estrutural.

É um exercício de contorcionismo existencial, esse de habitar e desabilitar-se simultaneamente. À noite, expando-me como gás tóxico, ocupando quartos que não pedi; ao amanhecer, contrai-me como músculo em cãibra, encolhendo-me dentro da própria pele como quem foge de si mesmo. Durmo como um atlas e acordo como um selo postal — diminuído, adesivo, pronto para ser remetido a lugar nenhum.

Lamento os rostos que depositaram suas digitais no meu vidro. Lamento ter aberto a comporta e deixado que bebessem da água turva da minha atenção. Ofereci-lhes o cardápio inteiro de minha disponibilidade, e eles mastigaram com os olhos fixos no telefone, engoliram sem saborear, deixaram a gorjeta do esquecimento sobre a toalha suja. Eles entraram no meu arquivo pessoal — aquele armário de aço onde guardo os originais com o zelo de um arquivista lunático — e trataram meus documentos como rascunhos. Rasgaram minhas anotações marginais, dobraram minhas certezas ao meio, usaram minhas conclusões para apagar lápis. Saíram deixando portas abertas e luzes acesas, e eu, o tolo, paguei a conta do consumo.

O céu carrega o peso específico da chuva que não cai. O cheiro de ferro molhado invade pela janela — é o odor da possibilidade, do plantio que exige coragem que eu já gastei em outras estações. Seguro as sementes na palma até que suem, até que germinem no calor da minha hesitação, criando raízes que não levam a terra nenhuma. Tenho pavor da colheita porque sei que cada fruto será uma sentença — o gosto metálico de todas as vezes que escolhi não escolher.

O céu está bonito de chuva que não vem, e isso é a ironia suprema: a beleza em potencial, o desastre que se anuncia mas não acontece, a espera que se torna permanente. Um homem para por um instante no meio da calçada, observa o papel amassado no chão, e dá de ombros — porque se nada tem sentido prévio, até o lixo é curadoria.

Mas eu não sou esse homem. Eu sou o papel. Eu sou o amassado, o rasgado, o descartado que ainda tenta ler a si mesmo antes que a chuva chegue e borre a tinta. E a chuva continua suspensa, preguiçosa, molhando outros telhados enquanto eu aguardo aqui, embaixo, me dissolvendo lentamente no ar úmido do que não aconteceu.

O arquivo está aberto. As notas estão rasgadas. O inventário continua — item por item, ferida por ferida, silêncio por silêncio — e eu, o arquivista, o arquivo, o estrago, sigo catalogando a própria ruína com a precisão de quem sabe que ninguém mais lerá este documento.

18/02/2026

Pretérito Perfeito

 Queria amar para sempre quem um dia amei.

Não a pessoa — o estado.

A vertigem limpa de acreditar.

Havia um lugar dentro de mim onde o amor não tinha cálculo. Era puro impulso, quase fé. Eu não sabia do desgaste, não suspeitava da falha. Amar era um gesto sem sombra.

Queria voltar ali.

Mas o tempo não permite regressos; apenas memória. E memória é reconstrução, nunca retorno. O que chamamos de “para sempre” era só ignorância do fim.

Já é tarde.

Não porque o amor tenha acabado — mas porque eu já sei.

E saber corrói a ingenuidade como ferrugem lenta.

Resta a lembrança daquele instante inaugural, quando tudo parecia eterno simplesmente porque ainda não tinha sido quebrado.

Furta-cor

 Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.

Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.

Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.

Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.

As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.

A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.

A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.

As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.

A visão é turva. A beleza, não.

Viva.

12/02/2026

Despojos

 

Tal qual Macabeia tudo em mim me dói. E tomo, não tão tal qual Macabeia, um grama de dipirona.

Não resolve a causa, mas disfarça o sintoma.
Uma vida com dor não se justifica quando se tem remédio.

09/02/2026

Mentiras sem Esquadros

 Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.


24/01/2026

Brincadeira de criança


Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.

Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.

Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".

No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.

A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.

Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.

A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.

A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.

Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.

E a frase que se impõe não consola nem acusa:

não se tratava de ser desnecessário,

mas de existir apenas como peça provisória,

um encaixe tolerado enquanto cumpria função,

retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.

Como aquela criança no guarda-roupa,

que depois de horas escondida decidiu sair,

não porque foi encontrada,

mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,

e ela era, ao mesmo tempo,

a última a saber

e a única que sempre soube.

22/01/2026

Abissais Existenciais

 Tudo começa com um excesso de luz interna. Não a luz que esclarece, mas a que ofusca. Os pensamentos correm como cardumes em pânico, batendo uns nos outros, produzindo faíscas, promessas, urgências. O mundo parece inflado, dilatado, como se cada segundo carregasse mais possibilidades do que o corpo pode sustentar. Há uma falsa sensação de potência, de expansão, de que algo grandioso está prestes a se revelar — embora nada se revele, de fato. Apenas o ritmo acelera.

A consciência, embriagada de si, acredita por instantes que encontrou uma saída, um sentido, um vértice. Mas essa elevação não é subida; é a beira de um colapso. O chão não desaparece de repente. Ele amolece. Torna-se instável, traiçoeiro, como areia que cede sob o peso da própria confiança.

Então vem a queda. Não um despencar espetacular, mas um afundamento lento, contínuo, para regiões onde a pressão substitui o ar. O fundo do oceano não acolhe, não revela, não responde. Apenas comprime. Cada ideia, antes luminosa, é esmagada até perder forma. Não há escuridão poética ali; há densidade. Um silêncio espesso que não promete retorno.

Nesse nível, a existência mostra sua ossatura: movimento sem direção, dor sem finalidade, esforço sem coroamento. Tudo funciona, tudo pulsa, tudo continua — e nada converge para um porquê. O viver é apenas a persistência de mecanismos que não sabem justificar a própria atividade.

Sísifo empurra a pedra nesse cenário não como símbolo de grandeza, mas como prova de que o mundo se sustenta na repetição vazia. A montanha não é obstáculo moral; é geometria. A pedra não é desafio; é massa. E a ideia de que ele possa ser “feliz” soa como tentativa desesperada de resgatar alguma nobreza onde só há desgaste.

No fundo sem luz, não existe heroísmo. Existe atrito. Existe cansaço. Existe a lucidez de perceber que continuar não transforma o absurdo em sentido, apenas o prolonga.

E a pergunta, inevitável, ecoa como pressão nos ouvidos:

Como imaginar Sísifo feliz,

como me imaginar feliz,

se a própria rolagem da pedra

é a encenação mais bem ensaiada

de uma esperança que finge não ver

que todo esforço retorna ao ponto inicial?

Se a felicidade é possível,

talvez seja apenas outra camada de sedimento

depositada sobre o fundo,

para que não vejamos, com clareza total,

a nudez insuportável do sem-propósito.


21/01/2026

Economia

 A vergonha não nasce do espelho; nasce do inventário. Não é um rosto que me encara, é a soma das omissões. Fui pouco. Tentei pouco. Permiti demais.

Corri tanto e nunca cheguei na frente. Movimento sem destino. Esforço sem centro. Fui uma flecha sem alvo, lançada por um arco que prometia sentido e abortou o propósito no espaço vazio entre a tensão e o impacto.

Aceitei humilhações como quem aceita clima. Confundi sobrevivência com dignidade. O mundo seguiu, ruidoso e oco, como um tambor que bate para esconder o próprio vazio.


20/01/2026

Tambores de África

Todo carnaval tem seu fim, repetem como quem consola a si mesmo, como quem precisa acreditar que a ressaca moral da quarta-feira de cinzas é uma espécie de redenção. Esquecem, porém, que todo carnaval também tem seu começo e que ele retorna pontualmente, como a pedra de Sísifo, rolando de novo montanha acima, indiferente ao cansaço dos que a empurraram no ano anterior. O calendário gira, a serpentina apodrecida vira pó, a fantasia mofada no fundo do armário aguarda sua ressurreição profana. E lá estamos nós outra vez, convocados por um tambor que não pergunta se ainda há fôlego, se ainda há desejo, se ainda há sentido. Apenas chama. E quem está vivo — ou quem ainda simula estar — atende. Na avenida, corpos se chocam como partículas sem destino: suados, pintados, sorrindo com a musculatura da boca, não com a convicção do espírito. Dança-se como quem foge, bebe-se como quem anestesia, beija-se como quem tenta provar a si mesmo que ainda pulsa alguma coisa por dentro. A música repete refrões como mantras vazios: alegria obrigatória, euforia regulamentada, prazer em escala industrial. Mas há os outros. Os que dançam já mortos. Cadáveres funcionais, de olhos abertos, que cumprem o ritual como quem bate ponto numa repartição do absurdo. Rodopiam, riem, levantam os braços, mas por dentro a alma já pediu exoneração. São os que cansaram de empurrar a própria pedra e agora apenas acompanham seu rolamento, ladeira abaixo, com a inércia de quem desistiu de resistir. O carnaval passa, como sempre. Promete esquecimento e entrega apenas mais memória. Promete libertação e devolve rotina. Promete vida intensa e, às vezes, entrega só exaustão. Alguns sobrevivem. Outros continuam andando, falando, dançando — mas já atravessaram, sem cerimônia, a fronteira invisível entre existir e apenas ocupar espaço. E no ano seguinte, se a morte biológica não tiver feito seu serviço, o tambor chamará de novo. A pedra estará lá, no pé da montanha. A ciranda recomeça. Os vivos empurram. Os mortos em pé acompanham. E o carnaval, esse deus indiferente, segue girando, sem se importar se quem dança ainda está vivo — ou apenas treinando para morrer. Como já disseram, “o tambor faz barulho, mas é oco”. E então a pergunta se impõe, sem fantasia que a disfarce: e o quanto de sua existência é vazia de sentido? Só faz barulho para espantar a falta de razão de existir? No fim, quando a última nota se dissolve no ar quente e a quarta-feira tenta impor sua gravidade burocrática, resta a constatação nua e cruel: quem resistiu aos tambores de África?

Paleolítico

Empurro uma pedra que o mundo não encomendou. A montanha não responde. O chão esquece meus passos. Sou grão que não soma, areia que não constrói deserto algum. Cada manhã o mesmo peso. Cada noite o mesmo lugar.   No fundo, não é a solidão que dói — é perceber que tem paredes. Somos casas sem portas, janelas pintadas por dentro. De um cômodo gritamos para o outro. De um corpo chamamos outro corpo e a voz volta como pedra atirada contra pedra.   Queremos ser dois em um. A física diz: um em um, cada qual empurrando sua carga, cada qual chamando de amor o instante em que as pedras se tocam antes da gravidade separar outra vez.   E ainda assim seguimos. Não como Sísifo — ele tinha deuses testemunhas, tinha mito, tinha nome no mármore do tempo. Nós empurramos no anonimato, por teimosia de osso, por essa recusa sem grandeza de aceitar que o vazio basta.   A pedra rola. Nós atrás. Chamamos isso de sentido porque não temos outro nome para o hábito de não largar.

13/01/2026

Um abraço suspenso no ar

 Minha mãe no oítão, escorada no cabo de vassoura, conversando sem pressa, como se qualquer mudança no mundo tivesse a obrigação de esperar o fim daquela prosa. O fim da tarde espalhava seu dourado pelo terreiro como quem avisa que está indo embora. Ao me aproximar do terreiro, com o choro vindo sem explicação, senti aquele desajuste interno que eu não sabia nomear. Ela não perguntou nada. Apenas me puxou para o colo, sem alterar o compasso da conversa, me embalando como se o meu desalento fosse parte orgânica daquele dia que acabava.


Eu me lembro do instante sem nome. Não era dor de machucado, não era medo, não era tristeza simples. Era outra coisa, leve e pesada ao mesmo tempo, um pressentimento que escorria por dentro como o próprio fim da tarde. Todo pôr do sol, desde então, me parece uma facada a mais ou a menos. O tempo sangra, e o sangue é essa luz dourada que se espalha antes de desaparecer. Naquele dia, eu não sabia disso. Só sentia a lâmina entrando em silêncio.


Foi naquele embalo distraído que percebi a aproximação dessa coisa sem corpo. Não se revelava, apenas se insinuava. Um arrepio interno, uma espécie de vazio que não doía, mas também não poupava. O sol se esvaía pelas árvores, e eu tinha a impressão de que o mundo ficava grande demais para mim. Como se a luz estivesse se despedindo não só do dia, mas de alguma parte minha que eu nunca recuperaria completamente.


A sensação não tinha forma, não tinha origem, não oferecia explicações. Era pura preconsciência. Um aviso mudo vindo de um ponto que eu ainda não alcançava. O crepúsculo me tocava o peito como quem diz, sem dizer, que toda existência carrega uma sombra anterior ao entendimento.


No colo da minha mãe, não encontrei consolo, mas um contraste brutal. O calor dela tornava mais nítido o frio que se enfiava em mim, como se o abraço iluminasse o próprio abismo. A noite avançava, e eu intuía, muito antes da idade permitir, que tudo podia se apagar de repente. Que a vida não tinha obrigação de devolver nada do que tirava.


A criança que eu era não compreendia, mas sentia. E naquela mistura de medo, silêncio e luz agonizante, fui apresentado à profundidade sombria da vida. O primeiro toque do inexplicável. A primeira suspeita de que existir é sempre assistir ao sangue do tempo correndo enquanto o sol nos banha em dourado pela última vez naquele dia. Cada tarde uma lâmina, cada poente o lembrete de que a luz não dura.

07/01/2026

Velar a inexistência

 Hoje eu morreria sem saudade alguma.

A frase não me ameaça; ela apenas constata. Como um objeto esquecido sobre a mesa, sem dono e sem urgência. Hoje eu morreria sem saudade porque a saudade exige vínculo, e o vínculo sempre me pareceu um acordo implícito que nunca assinei.

Na infância, eu já ensaiava esse desaparecimento. Entrava no guarda-roupas não para brincar, mas para testar a hipótese do sumiço. Entre camisas grandes demais e o cheiro morno de madeira antiga, eu me escondia com método. Não havia plateia. Ninguém me procurava. Ainda assim, eu esperava. Esperava o milagre mínimo de ser necessário. Ele não vinha. O guarda-roupas era um útero sem promessa: eu entrava criança e saía igual, apenas um pouco mais consciente do vazio.

Ninguém me encontrava porque ninguém tinha me perdido. Essa foi uma das primeiras verdades objetivas da minha vida. Aprendi cedo que o desaparecimento só é dramático quando há testemunhas. Sem elas, é apenas logística.

Cresci levando o guarda-roupas comigo, agora invisível. Navego a vida adulta com o mesmo protocolo: entro, fecho a porta, aguardo. O mundo segue. As pessoas se cruzam como compromissos mal marcados. Chamam isso de relação; eu chamo de troca utilitária com verniz emocional. Tudo pede algo. Tudo cobra. Tudo se sustenta em favores disfarçados de afeto.

Nunca houve um encontro real. Houve aproximações, encostos laterais, negociações afetivas. Verdadeiro, não. Verdadeiro exigiria ausência de necessidade — e isso seria antinatural, quase obsceno. O adulto que me tornei entende: ninguém encontra ninguém; no máximo, coincidem carências.

O tom é absurdo porque a lógica funciona demais. Eu me escondia sem perseguidor, cresci sem buscador, e agora caminho lúcido entre pessoas que se chamam de encontros enquanto apenas se utilizam. Não há clímax, não há revelação, não há resgate do armário.

Por isso, hoje eu morreria sem saudade.

Não por desamor à vida, mas por excesso de clareza.

A saudade pressupõe que algo tenha, de fato, acontecido.

03/01/2026

De grão em grão o cansaço vence.

 O cansaço não começa no corpo; começa no ouvido. No ouvido que aprende cedo o som circular das brigas de família: frases que voltam, acusações requentadas, silêncios que não encerram nada. Discussões que não nascem de ideias, mas de restos. Nada se resolve porque nada está em disputa de verdade. É luta sem objeto. Boxe no escuro. A voz sobe, a razão desce, e o tempo — esse — fica parado, olhando com tédio.

Essas brigas não constroem nem destroem: ocupam. São o mofo das relações. Pequenas, mesquinhas, previsíveis. Têm cheiro de café frio e gosto de domingo desperdiçado. A vida passa nelas como passa um trem que não paramos para ver: rápida, barulhenta, inútil. Discute-se o tom, o gesto, o passado reciclado. Nunca o essencial. Nunca o agora. Nunca o que dói de fato. O cansaço vem daí: de gastar existência com ruído.

A infância é esse chão rachado que seguimos pisando, mesmo adultos, mesmo cansados. Não porque queremos, mas porque aprendemos o caminho. A briga também é herança: repete-se com a mesma coreografia pobre, os mesmos papéis mal distribuídos. Briga-se como se respira, por hábito. E o absurdo maior não é a discórdia — é insistir nela, sabendo que não leva a lugar algum. O cansaço, então, vira estado permanente. Não é exaustão: é lucidez tardia. A percepção amarga de que há lutas que não são fracassadas — são desnecessárias desde o início.