07/01/2026

Velar a inexistência

 Hoje eu morreria sem saudade alguma.

A frase não me ameaça; ela apenas constata. Como um objeto esquecido sobre a mesa, sem dono e sem urgência. Hoje eu morreria sem saudade porque a saudade exige vínculo, e o vínculo sempre me pareceu um acordo implícito que nunca assinei.

Na infância, eu já ensaiava esse desaparecimento. Entrava no guarda-roupas não para brincar, mas para testar a hipótese do sumiço. Entre camisas grandes demais e o cheiro morno de madeira antiga, eu me escondia com método. Não havia plateia. Ninguém me procurava. Ainda assim, eu esperava. Esperava o milagre mínimo de ser necessário. Ele não vinha. O guarda-roupas era um útero sem promessa: eu entrava criança e saía igual, apenas um pouco mais consciente do vazio.

Ninguém me encontrava porque ninguém tinha me perdido. Essa foi uma das primeiras verdades objetivas da minha vida. Aprendi cedo que o desaparecimento só é dramático quando há testemunhas. Sem elas, é apenas logística.

Cresci levando o guarda-roupas comigo, agora invisível. Navego a vida adulta com o mesmo protocolo: entro, fecho a porta, aguardo. O mundo segue. As pessoas se cruzam como compromissos mal marcados. Chamam isso de relação; eu chamo de troca utilitária com verniz emocional. Tudo pede algo. Tudo cobra. Tudo se sustenta em favores disfarçados de afeto.

Nunca houve um encontro real. Houve aproximações, encostos laterais, negociações afetivas. Verdadeiro, não. Verdadeiro exigiria ausência de necessidade — e isso seria antinatural, quase obsceno. O adulto que me tornei entende: ninguém encontra ninguém; no máximo, coincidem carências.

O tom é absurdo porque a lógica funciona demais. Eu me escondia sem perseguidor, cresci sem buscador, e agora caminho lúcido entre pessoas que se chamam de encontros enquanto apenas se utilizam. Não há clímax, não há revelação, não há resgate do armário.

Por isso, hoje eu morreria sem saudade.

Não por desamor à vida, mas por excesso de clareza.

A saudade pressupõe que algo tenha, de fato, acontecido.

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