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04/10/2025

Saudade

>Não há fuga. Não há retorno. Os lugares e rostos que a memória entalhou são cadáveres em vida, perfeitos apenas na mentira que insistimos em chamar de lembrança. Queremos correr, nos jogar no abraço da ilusão, mas o chão é só chão, e nada espera, nada acolhe.Dói como o corpo grita por água enquanto o mundo diz “fique seco”. Dói como segurar o mar na mão, ver a onda se espalhar e não poder ser arrastado por ela. Cada passo que damos para não sucumbir ao passado é um corte aberto na carne da alma, uma ferida que sangra lembranças e desejos que nunca existiram fora da mente.Vivemos enlutados. Não pelo que perdemos, mas pelo que nunca foi. O presente nos olha com vazio e exige presença que não temos. O impulso de voltar, de buscar, de dissolver-se na memória é uma dor física: aperta o peito, queima a garganta, arrasta os pés. Resistir é respirar através do ferro, é aprender a caminhar com ossos partidos, sem poder tocar o conforto que a imaginação oferece.E ainda assim seguimos. Cada passo é um duelo com nós mesmos, com a ilusão que nos chama, com o desejo que nos rasga por dentro. Sobrevivemos não pelo prazer, mas pelo peso de nos mantermos vivos no instante real, onde nada é perfeito, nada nos espera, e tudo dói exatamente como é. >

22/06/2025

Manual para Desaparecer em Silêncio (ou a alegria de ser um interruptor queimado)



Sou o avesso do entusiasmo,
um guarda-chuva que abre para dentro,
carrego vinagre nos sonhos
e derramo sal no calendário.

Vou te tomar o tempo
e devolver um relógio derretido,
com ponteiros que apontam
para lugar nenhum.

Não há salvação no que sou:
um não-folheto de turismo
para a cidade onde não nasci.
Não gosto de festas —
os balões me devoram.
Não danço. Eu gotejo.
Rir? Só com reticências.

Nem os filmes nos conectam:
você assiste ao sol nascer,
eu só vejo a legenda errada.
Nem a música nos reconcilia:
você ouve pássaros,
eu escuto ferros retorcendo.

Sou silêncio embriagado de eco.
Presença feita de falta.
Às vezes sou um poste que não acende,
ou um mapa dobrado ao avesso.

Lembra da caminhada?
Você era cometa.
Eu era um sapato sem pé.
Você queria céu —
eu via poças,
e me afogava nelas de lado.

Não devemos acorrentar borboletas
a móveis antigos.
Não devemos prometer voo
a quem prefere subterrâneo.

Sou desistência com RG vencido.
Solitário até nas vozes da cabeça.
Fui abrigo com goteira,
e pedra —
não na mochila,
mas no rim emocional de quem tentou me amar.

Sou esse corpo velho de alma dobrada,
um enfeite de cemitério em liquidação.
Feio nos olhos que só refletem monóxido.
Fraco nos músculos
e nos domingos.

Sou o que fica depois do fim do mundo:
peso morto de um pensamento não pensado,
rastro de um amor que tropeçou no próprio nome,
eco de um grito que bocejou antes de sair.

13/01/2014

Roubados

Tudo é roubado de nós. A vida o tempo rouba.
Os amigos oportunistas a ganância rouba
Os verdadeiros a mentira rouba...


Ah o que não nos é roubado?
A morte!
A morte é sua!
Mas antes dela
O prazer, e junto com ele, a dor são  seus.
O prazer e a dor e a morte são solidários a você.