Há cacos de me mim por toda parte.
Eles me fazem sangrar;
Há cacos de mim por toda parte;
Estou invisível.
Não insensível.
talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
Há cacos de me mim por toda parte.
Eles me fazem sangrar;
Há cacos de mim por toda parte;
Estou invisível.
Não insensível.
A amizade talvez seja o vínculo mais mal compreendido que existe.
Gostamos de acreditar que ela nasce de afinidades profundas, de encontros raros, de algum reconhecimento secreto entre duas pessoas. Mas basta observar um pouco. A maioria dos amigos compartilhou primeiro um endereço, uma rotina, um horário ou um inconveniente. O resto veio depois, como as plantas que crescem nas rachaduras do concreto e nos fazem esquecer que a rachadura veio antes da planta.
Sempre me intrigou a facilidade com que as pessoas pertencem umas às outras. Elas entram em um lugar e, pouco tempo depois, parecem fazer parte dele. Eu nunca consegui esse tipo de adaptação. Os ambientes sempre me receberam como quem tolera um visitante. Aprendi a conversar, a rir no momento certo, a participar. Não porque me sentisse dentro, mas porque o lado de fora também exige etiqueta.
Há quem diga que isso é solidão. Não sei. Solidão pressupõe a falta de alguma coisa. Eu nunca soube se me faltava algo ou se apenas enxergava um mecanismo que os outros preferiam ignorar.
As amizades também obedecem a esse mecanismo.
Enquanto existe um chão comum, elas respiram. O trabalho. A universidade. A infância. A vizinhança. Quando o chão desaparece, quase sempre o vínculo desaparece junto. Não porque alguém tenha traído alguém. Apenas porque a estrutura que sustentava o encontro deixou de existir. Chamamos isso de afastamento, como se houvesse um culpado. Talvez nunca tenha havido aproximação suficiente.
É estranho. Passamos a vida inteira cercados de relações que dependem de circunstâncias, mas insistimos em chamá-las de escolhas.
Ainda assim, de tempos em tempos, acontece um erro.
Alguém permanece.
Não permanece porque precisa. Nem porque você precise. Permanece apesar da completa ausência de necessidade. Como se duas consciências, condenadas a jamais dividir a mesma experiência, decidissem continuar orbitando uma à outra sem esperar que a distância diminuísse.
Não vejo beleza nisso.
Vejo apenas uma exceção.
E talvez a amizade seja exatamente isso: uma exceção sem promessa, sem finalidade e sem garantia de durar. Ela não derrota o isolamento. Não cura o desencontro entre uma consciência e outra. Apenas o contradiz por algum tempo.
Depois, como quase tudo, segue o seu caminho.
Há um momento em que a memória deixa de ser lembrança e vira geografia; Aracaju fez isso comigo.
Já não caminho por suas ruas; caminho por camadas de gente. Cada esquina tem o nome de um rosto cansado do passado; cada semáforo guarda a pressa de avançar o sinal amarelo pra chegar logo ao não destino; cada calçada é um pequeno tribunal onde sou obrigado a depor sobre alguém que já não existe; ou que existe apenas como versão fossilizada dentro da minha cabeça.
Às vezes finjo esquecer. É uma técnica sofisticada; finjo tanto que esqueço; o problema é que, de tanto representar, esqueço que estava fingindo. Então o esquecimento vence a encenação. Até que uma rua qualquer desfaz o truque.
E lá vem.
Fulano.
Beltrana.
A conversa que nunca terminou.
O café.
A briga.
O silêncio.
Até quem já havia me esquecido volta para me assombrar. Não a pessoa. O espectro. É curioso como a memória é arrogante: ela não aceita a reciprocidade do esquecimento. O outro seguiu vivendo; eu continuo tropeçando na sombra que ele deixou.
O coração leva um susto ridículo, como se tivesse visto um fantasma. E talvez tenha visto. Fantasmas não são mortos; são presenças que perderam o corpo, mas conservaram o maldito endereço, a maldita esquina, o beco, a viela.
Então faço o papel de sensitivo cansado; passo por eles fingindo que não os vejo. Quem sabe, ignorados, desapareçam, como crianças que fecham os olhos e pensam que o mundo desapareceu.
Nunca desaparecem.
O inferno não é reviver o passado; é perceber que ele nunca foi embora. Ele apenas mudou de estratégia; deixou de morar no tempo e passou a morar nos lugares.
Não carregar lembranças; ser carregado por elas. Como se cada rua nos atravessasse mais do que nós a atravessamos.
E ainda assim continuo andando.
Não por esperança, não por teimosia.
Mas porque percebi o óbvio: eu não habito Aracaju. Eu habito as memórias que ela me deu. A cidade é só a moldura; o que fica dentro não tem nome que eu queira dar.
O sol pesa. Não brilha — oprime.
No meio da malhada, o fogo é uma língua antiga, lambendo o mato seco, traduzindo o calor em sentença. As coivaras ardem em fileiras, e minhas irmãs, com rastelos nas mãos, repetem o gesto das gerações: riscar a terra para alimentar o fogo, como quem mantém o mundo em funcionamento por pura teimosia.
O ar cheira a cinza e a espera. Tudo pulsa em vermelho.
Os homens fincam postes, erguem torres de promessa. São figuras feitas de sombra e suor, moldando o futuro com as próprias mãos. Um deles se destaca — o operário do sorriso inclinado, o olhar que mede o horizonte e o corpo de minha irmã com o mesmo cálculo.
Ela o observa de soslaio, fingindo distração. O fogo estala ao lado, mas há outro fogo crescendo ali — mais silencioso, mais perigoso. Entre um fio e outro, ele torce pedaços de arame, faz pequenas esculturas: pássaros, corações, serpentes. Oferece uma delas a ela, como quem entrega um segredo materializado.
O sol testemunha o gesto sem piedade.
Ela recebe o presente. O metal brilha, quente, como se ainda guardasse a temperatura das mãos dele. É o primeiro contato, e o primeiro contato é sempre uma espécie de ferida.
O fogo cresce. A terra respira com dificuldade.
Eu assisto — criança no limite entre o visível e o que não se entende. O mundo inteiro parece arder em simultâneo: o mato, os corpos, o tempo. As formigas correm entre as brasas, os homens gritam ordens, o vento muda de direção e leva o cheiro do fogo para dentro da casa.
Minha irmã não olha mais para as chamas.
Olha para ele.
E nesse olhar há uma estranha suspensão: como se o agreste inteiro — o pó, o calor, as moscas, a claridade insuportável — parasse para assistir à possibilidade do que não devia acontecer.
O operário ri de algo que ninguém ouve.
A escultura de arame gira entre os dedos dela, refletindo a luz como um aviso: o perigo também sabe ser belo.
As coivaram rolam ao sabor do vento lambendo o chão. As ordens aos operários corta o ar em ecos apressados.
E tudo parece anunciar que a vida, naquele instante, está prestes a começar , ou a queimar por completo.
Eu, imóvel, não entendo a diferença.
No meio da malhada, o que se acende nunca quer apenas iluminar
Ninguém entra na vida de ninguém. O verbo engana.
Chegamos quando a frase já está sendo dita. A mesa conserva marcas de copos que não vimos, há fotografias viradas para baixo em gavetas que nunca abriremos, um perfume qualquer insiste num casaco cujo dono talvez já nem exista. Chamamos isso de encontro apenas porque ignoramos tudo o que aconteceu antes de abrirmos a porta.
As pessoas gostam de dizer "conheci alguém". É uma vaidade da gramática. Não se conhece alguém; conhece-se uma superfície suficientemente generosa para deixar adivinhar os escombros. O resto permanece trabalhando no escuro, onde a linguagem não alcança.
Cada rosto traz uma multidão que desaprendeu a aparecer. Infâncias que ainda respiram por baixo da pele. Mortos que continuam decidindo o tom da voz. Cidades demolidas que persistem no jeito de arrumar uma mesa ou fechar uma janela. O passado não passa; muda de roupa.
Talvez seja por isso que toda intimidade seja um equívoco bem-sucedido. Não porque revele o outro, mas porque nos faz esquecer, durante alguns minutos, que ele continua irremediavelmente estrangeiro.
Há uma superstição discreta segundo a qual ocupamos um papel decisivo na vida dos que amamos. É confortável imaginar que chegamos para alterar o enredo. Como se o mundo esperasse nossa entrada em cena para finalmente adquirir sentido.
Mas a vida raramente escreve assim.
Ela prefere a pontuação.
Às vezes somos uma vírgula: adiamos o fôlego. Às vezes um travessão: interrompemos. Às vezes reticências: deixamos um eco maior que a presença. Quase nunca somos o ponto final.
E existe o ponto e vírgula.
Esse sinal estranho que recusa tanto o encerramento quanto a continuidade dócil. Algo terminou; algo insiste. A frase poderia acabar, mas não acaba. Prossegue carregando o peso do que já não pode desfazer.
Talvez seja esse o verdadeiro nome dos encontros. Não capítulos. Não destinos. Apenas um ponto e vírgula na sintaxe do tempo.
Depois seguimos.
Não porque a história terminou.
Porque ela nunca pertenceu a ninguém.
Domingo não é dia. É umidade — nas paredes, nos ossos, nas ideias. Chove sem pressa, sem drama, sem promessa de limpeza. A chuva apenas cai, como quem já não precisa se explicar.
Acordei com Bethânia declamando Prece. Hoje não li Pessoa — ouvi Pessoa atravessando a garganta de uma mulher que faz da palavra herdada coisa própria. Talvez seja esse o único milagre da poesia: um morto mais vivo que os vivos que o leem.
Todos acreditam carregar um pouco de Pessoa. Vaidade compreensível. Ninguém admite a própria banalidade, mas todos reconhecem a própria tristeza. Somos mendigos do íntimo. Sabemos o endereço da dor, frequentamos sua calçada, decoramos sua fachada — mas nunca tivemos a chave. Talvez nem exista porta. Talvez a dor seja só um bairro onde andamos em círculos chamando repetição de profundidade.
Não acredito em Deus. Deus exige templos, dogmas, promessas, recompensas adiadas. A poesia é mais modesta: não salva, apenas organiza o fracasso em versos bonitos o bastante para contemplá-lo sem constrangimento. Mesma aposta, sem o luxo da eternidade.
Bethânia canta um homem morto que passou a vida escrevendo sobre existir como quem observa o próprio corpo de longe. Um vivo emprestando voz a um morto para alcançar outros vivos que já experimentam, aos poucos, a própria ausência.
A chuva continua. Não participa — acontece. Não precisa de testemunhas, nem de aplausos, nem de sentido.
Talvez o domingo seja isso: não pausa antes da segunda, mas demonstração silenciosa de que o universo não interrompe seu funcionamento para nos responder. Chove sobre quem crê e sobre quem não crê. Sobre a infância, os velhos, as igrejas e os cemitérios — com a mesma indiferença mineral.
Não há lição.
Há Bethânia, um poeta morto, uma janela molhada e um domingo cumprindo sua única vocação: existir sem pedir licença para ser interpretado.