O sol pesa. Não brilha — oprime.
No meio da malhada, o fogo é uma língua antiga, lambendo o mato seco, traduzindo o calor em sentença. As coivaras ardem em fileiras, e minhas irmãs, com rastelos nas mãos, repetem o gesto das gerações: riscar a terra para alimentar o fogo, como quem mantém o mundo em funcionamento por pura teimosia.
O ar cheira a cinza e a espera. Tudo pulsa em vermelho.
Os homens fincam postes, erguem torres de promessa. São figuras feitas de sombra e suor, moldando o futuro com as próprias mãos. Um deles se destaca — o operário do sorriso inclinado, o olhar que mede o horizonte e o corpo de minha irmã com o mesmo cálculo.
Ela o observa de soslaio, fingindo distração. O fogo estala ao lado, mas há outro fogo crescendo ali — mais silencioso, mais perigoso. Entre um fio e outro, ele torce pedaços de arame, faz pequenas esculturas: pássaros, corações, serpentes. Oferece uma delas a ela, como quem entrega um segredo materializado.
O sol testemunha o gesto sem piedade.
Ela recebe o presente. O metal brilha, quente, como se ainda guardasse a temperatura das mãos dele. É o primeiro contato, e o primeiro contato é sempre uma espécie de ferida.
O fogo cresce. A terra respira com dificuldade.
Eu assisto — criança no limite entre o visível e o que não se entende. O mundo inteiro parece arder em simultâneo: o mato, os corpos, o tempo. As formigas correm entre as brasas, os homens gritam ordens, o vento muda de direção e leva o cheiro do fogo para dentro da casa.
Minha irmã não olha mais para as chamas.
Olha para ele.
E nesse olhar há uma estranha suspensão: como se o agreste inteiro — o pó, o calor, as moscas, a claridade insuportável — parasse para assistir à possibilidade do que não devia acontecer.
O operário ri de algo que ninguém ouve.
A escultura de arame gira entre os dedos dela, refletindo a luz como um aviso: o perigo também sabe ser belo.
As coivaram rolam ao sabor do vento lambendo o chão. As ordens aos operários corta o ar em ecos apressados.
E tudo parece anunciar que a vida, naquele instante, está prestes a começar , ou a queimar por completo.
Eu, imóvel, não entendo a diferença.
No meio da malhada, o que se acende nunca quer apenas iluminar