28/06/2026

Ponto e vírgula;


Ninguém entra na vida de ninguém. O verbo engana.


Chegamos quando a frase já está sendo dita. A mesa conserva marcas de copos que não vimos, há fotografias viradas para baixo em gavetas que nunca abriremos, um perfume qualquer insiste num casaco cujo dono talvez já nem exista. Chamamos isso de encontro apenas porque ignoramos tudo o que aconteceu antes de abrirmos a porta.


As pessoas gostam de dizer "conheci alguém". É uma vaidade da gramática. Não se conhece alguém; conhece-se uma superfície suficientemente generosa para deixar adivinhar os escombros. O resto permanece trabalhando no escuro, onde a linguagem não alcança.


Cada rosto traz uma multidão que desaprendeu a aparecer. Infâncias que ainda respiram por baixo da pele. Mortos que continuam decidindo o tom da voz. Cidades demolidas que persistem no jeito de arrumar uma mesa ou fechar uma janela. O passado não passa; muda de roupa.


Talvez seja por isso que toda intimidade seja um equívoco bem-sucedido. Não porque revele o outro, mas porque nos faz esquecer, durante alguns minutos, que ele continua irremediavelmente estrangeiro.


Há uma superstição discreta segundo a qual ocupamos um papel decisivo na vida dos que amamos. É confortável imaginar que chegamos para alterar o enredo. Como se o mundo esperasse nossa entrada em cena para finalmente adquirir sentido.


Mas a vida raramente escreve assim.


Ela prefere a pontuação.


Às vezes somos uma vírgula: adiamos o fôlego. Às vezes um travessão: interrompemos. Às vezes reticências: deixamos um eco maior que a presença. Quase nunca somos o ponto final.


E existe o ponto e vírgula.


Esse sinal estranho que recusa tanto o encerramento quanto a continuidade dócil. Algo terminou; algo insiste. A frase poderia acabar, mas não acaba. Prossegue carregando o peso do que já não pode desfazer.


Talvez seja esse o verdadeiro nome dos encontros. Não capítulos. Não destinos. Apenas um ponto e vírgula na sintaxe do tempo.


Depois seguimos.


Não porque a história terminou.


Porque ela nunca pertenceu a ninguém.

Domingo a gente Chora



Domingo não é dia. É umidade — nas paredes, nos ossos, nas ideias. Chove sem pressa, sem drama, sem promessa de limpeza. A chuva apenas cai, como quem já não precisa se explicar.

Acordei com Bethânia declamando Prece. Hoje não li Pessoa — ouvi Pessoa atravessando a garganta de uma mulher que faz da palavra herdada coisa própria. Talvez seja esse o único milagre da poesia: um morto mais vivo que os vivos que o leem.

Todos acreditam carregar um pouco de Pessoa. Vaidade compreensível. Ninguém admite a própria banalidade, mas todos reconhecem a própria tristeza. Somos mendigos do íntimo. Sabemos o endereço da dor, frequentamos sua calçada, decoramos sua fachada — mas nunca tivemos a chave. Talvez nem exista porta. Talvez a dor seja só um bairro onde andamos em círculos chamando repetição de profundidade.

Não acredito em Deus. Deus exige templos, dogmas, promessas, recompensas adiadas. A poesia é mais modesta: não salva, apenas organiza o fracasso em versos bonitos o bastante para contemplá-lo sem constrangimento. Mesma aposta, sem o luxo da eternidade.

Bethânia canta um homem morto que passou a vida escrevendo sobre existir como quem observa o próprio corpo de longe. Um vivo emprestando voz a um morto para alcançar outros vivos que já experimentam, aos poucos, a própria ausência.

A chuva continua. Não participa — acontece. Não precisa de testemunhas, nem de aplausos, nem de sentido.

Talvez o domingo seja isso: não pausa antes da segunda, mas demonstração silenciosa de que o universo não interrompe seu funcionamento para nos responder. Chove sobre quem crê e sobre quem não crê. Sobre a infância, os velhos, as igrejas e os cemitérios — com a mesma indiferença mineral.

Não há lição.

Há Bethânia, um poeta morto, uma janela molhada e um domingo cumprindo sua única vocação: existir sem pedir licença para ser interpretado.

27/06/2026

Ponto e vírgula


Entramos nas vidas como quem abre uma porta no meio de uma conversa. Acreditamos ter começado histórias, mentira confortável: você não é o livro, só uma vírgula caída numa frase que já corria antes de você.

Histórias não começam; se encontram. Dois trilhos que, por um ônibus atrasado, um olhar desviado, se tocam e logo retomam o próprio rumo.

Conhecer alguém é encontrar um arquivo. Não a pessoa pura, mas o que ela já foi: ex-amores, silêncios aprendidos, cidades que ficaram no mapa. E ela encontra seus destroços também. Dois depósitos de ruínas se cumprimentam com a cautela de quem já sabe o peso das coisas.

O pior é a síndrome do protagonista: acreditar que somos o centro e os outros, cenário. Não são. Cada pessoa carrega uma trama inteira onde você talvez nem exista. Somos coadjuvantes por topografia, não por humildade.

Por isso, hoje tento a pergunta certa: em que ponto da história dela eu apareci? Este encontro é só um ponto numa linha já traçada, coincidência com hora marcada pelo acaso.

O trabalho honesto é não atrapalhar a passada. Com sorte, você cruza alguém no trecho mais interessante. Basta.

22/06/2026

Que destino é esse?


Hoje não marquei hora com ninguém.

E, ainda assim, alguma coisa em mim continua atrasada.

O relógio está ali, na parede, insistindo em seu ofício de ferro e costume. Move os ponteiros com a compostura de quem acredita no mundo. Mas há muito desconfio dessa elegância mecânica. Ele não conduz. Não salva. Não explica. Apenas passa, como passam os dias, como passam os rostos, como passa tudo o que um dia juramos reter.

Durante anos pensei que a vida estivesse me esperando em algum ponto exato do caminho.

Atrasado para o amor.

Atrasado para a alegria.

Atrasado para mim mesmo.

Via os outros correndo com uma segurança que me humilhava. Tinham destinos dobrados no bolso, compromissos nos dedos, fotografias, alianças, diplomas, datas, tudo muito bem alinhado como se houvesse uma ordem secreta que apenas eu ignorava. Eu, ao contrário, me sentia sempre no lado errado do tempo.

Então comecei a correr também.

Não por convicção.

Por medo.

Porque a imobilidade parece indecente diante da pressa alheia.

Porque ficar parado, hoje, é quase uma forma de culpa.

Corri, portanto, como quem tenta alcançar uma porta já fechada.

Mas o caminho não se esclareceu.

Ao contrário: tornou-se cada vez mais incerto, mais delgado, mais parecido com uma invenção do próprio cansaço. Os marcos se apagavam. As distâncias mentiam. Os mapas se contradiziam com uma serenidade ofensiva. E, no meio dessa neblina, nasceu em mim uma suspeita que eu mesmo evitava nomear.

Talvez ninguém soubesse para onde ia.

Talvez todos estivéssemos apenas repetindo o gesto uns dos outros, como crianças perdidas no escuro que chamam de direção o ruído dos próprios passos.

Foi então que a estação apareceu.

Não a estação de ferro, nem a de telhado gasto, nem a de chegadas e partidas.

Uma estação interior.

Uma ruína com forma de espera.

Sentei-me nela durante anos, como quem aguarda um trem que traria a resposta final, a palavra exata, o amor definitivo, a versão legítima de si mesmo. Esperei com educação, com esperança, com esse tipo de fé que já nasce cansada.

E, enquanto esperava, a ferrugem trabalhou.

Subiu pelas placas.

Tomou os bancos.

Cresceu nos pilares.

Apodreceu a linguagem do anúncio, desfez a promessa das linhas, desarrumou o próprio conceito de partida.

Até que um dia compreendi algo pior do que a falta do trem.

Não havia atraso.

Não havia falha.

Não havia abandono.

Não havia estação.

A ruína não era o resto de uma promessa quebrada.

Era a promessa desde o início.

O vazio não sobreviera depois.

O vazio era a arquitetura.

Fui eu quem lhe deu nome.

Fui eu quem desenhou horários.

Fui eu quem escutou partidas imaginárias e chamou isso de destino.

E, quando essa verdade finalmente chegou, não trouxe consolo.

Trouxe silêncio.

Mas não um silêncio vazio, desses que pedem resposta.

Um silêncio anterior à pergunta.

Um silêncio que não aponta o horizonte, porque já desistiu dele.

Um silêncio que apenas deixa os dias passarem com sua disciplina indiferente, enquanto os anos se infiltram na terra como água sem memória.

Hoje não marquei hora com ninguém.

E já não preciso.

Nem sei que horas são.

O relógio continua na parede.

Mas agora entendo: ele nunca esteve enganado.

Quem exigia direção era eu.

17/06/2026

Necrópolis


A morte nunca me chega como alma.

Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.

A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.

Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.

A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.

Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.

Meu pai, porém, ainda está perto demais.

Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.

E isso me incomoda.

Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.

O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.

A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.

Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.


31/05/2026

Território nunca Visitado


Hoje pensei em fazer um pudim.

Não fiz.

A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.

Estranhei.

Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.

Mas nunca fiz um pudim.

A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.

Nunca fiz um pudim.

Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.

Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.

É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.

E então deixa de acontecer.

O tempo deposita poeira sobre a ausência.

Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.

O pudim continuava inexistente.

Os ovos continuavam na geladeira.

O leite condensado continuava no armário.

Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.

No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.

A cozinha permaneceu igual.

O mundo permaneceu igual.

15/05/2026

Casa de Câmbio


Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.