06/08/2026

A Dor que me Habita


Sempre morei em mim. Sozinho.


Dizem que sou um lugar bonito. Nunca soube. Um lugar não pode contemplar a própria paisagem. Toda casa ignora o rosto que oferece à rua. Vejo-me apenas pelas frestas tortas do meu próprio olhar, sempre enviesado, sempre suspeito. Para mim, as cortinas permanecem cerradas. A luz, quando entra, chega cansada.


As pessoas insistem em dizer que sou um lugar bonito. Curioso. Porque quase todas me fizeram sentir exatamente o contrário.


Talvez esse lugar de que falam exista. Mas não é a casa inteira. É o quartinho dos fundos. O cômodo onde se empilham objetos sem serventia imediata. Onde se guarda aquilo que não se tem coragem de jogar fora, mas também não se deseja por perto. Um lugar que só recebe visitas por acidente ou necessidade.


Tenho sido esse quarto.


Esquecido, mas nunca vazio.


Habitado apenas pelas coisas que os outros abandonaram em mim.


Amei a poesia que eu era quando estava com você.


Não apenas a poesia que escrevia. A poesia que respirava. A maneira como meu peito parecia menos pesado quando sua voz atravessava o silêncio. Amei quem eu me tornava sob a luz da sua presença. Talvez eu nunca tenha amado alguém sem antes amar a versão de mim que esse alguém permitia existir.


Agora estou magoado.


Estou com medo.


Mas até isso morrerá.


Tudo morre.


A dor morrerá. A saudade morrerá. Você morrerá. Eu morrerei. O planeta continuará girando por algum tempo, até que também desapareça sem deixar endereço. O universo jamais saberá que estivemos aqui tentando dar nome ao que doía.


Há um estranho consolo nisso.


Nada importa o bastante para sobreviver ao tempo.


E, ainda assim, tudo pesa demais enquanto dura.


Todas as manhãs abraço a minha insignificância como quem veste um casaco molhado. Ela pesa sobre os ombros, sobre os olhos, sobre os gestos mais simples. Caminho tentando parecer inteiro enquanto arrasto um corpo convencido de que perdeu alguma coisa que nunca chegou realmente a possuir.


As flores secarão.


A raiva também.


O medo também.


Até a memória daquilo que hoje me destrói acabará reduzida a uma poeira sem nome.


Quem sabe um dia encontremos outras flores.


Vermelhas.


Ou pretas.


Sempre gostei do preto e do vermelho. Talvez porque ambas as cores saibam alguma coisa sobre o fim.


Chamava você de volta porque havia lirismo na sua alma. Meu coração rimava com a serenidade da sua voz. Eu queria envelhecer algumas tardes lendo poemas ao seu lado. Como naquela noite em que você chorou ouvindo o texto sobre minha avó e a árvore de Natal. Ainda sinto o calor das suas lágrimas escorrendo pelas minhas costas.


Naquele instante, tive a ilusão mais rara de toda a minha vida.


Achei que havia sido compreendido.


Talvez eu esteja romantizando uma lembrança. A memória também inventa. Também mente para suportar a realidade.


Mas, para mim, naquele breve intervalo, existiam apenas você, eu e a poesia crescendo entre nós como uma planta que ignorava a precariedade da terra onde nascia.


Fomos, por alguns minutos, dois artistas tentando justificar a existência.


Depois a existência venceu.


Tudo em mim é trânsito.


Passagem.


Provisoriedade.


Nada permanece tempo suficiente para criar raízes, embora eu insista em abraçar o efêmero como se meus braços pudessem impedir o tempo de cumprir seu trabalho.


Achei você bonito.


Bonito para além da pele.


Bonito naquele lugar onde quase ninguém consegue permanecer sem fugir.


O que fizemos um com o outro?


Como conseguimos ser tão delicados e tão cruéis?


Tão líricos e tão profanos?


Como duas pessoas capazes de escrever cartas tão belas conseguem construir silêncios tão devastadores?


As suas palavras continuam lindas.


Mas o amor nunca sobreviveu apenas de palavras.


O amor é uma sequência de escolhas.


E algumas escolhas não erram apenas o caminho.


Erram a própria possibilidade de chegada.


Continuo com medo.


Muito medo.


Imagino sua dor.


Imagino mesmo.


Mas também habito a minha, e ela ocupa todos os cômodos da casa.


Também é permitido aos homens feitos tremerem.


Corarem.


Desejarem voltar ao colo da mãe.


Pedirem socorro sem encontrar linguagem suficiente para isso.


Estou perdido.


Talvez sempre tenha estado.


Talvez apenas agora tenha parado de fingir que sabia o caminho.


Não sei.


Essa talvez seja a frase mais honesta que já pronunciei.


Não sei.


Tudo em mim dói.


Tudo em mim parece sintoma de alguma doença cujo diagnóstico é simplesmente estar vivo.


Tenho vivido dopado.


Esqueço os dias que passaram.


Temo desesperadamente aqueles que ainda insistem em vir.


A depressão possui esse talento perverso: ela não mata imediatamente. Ela transforma a existência numa longa sala de espera onde nada acontece além da expectativa cansada de continuar respirando.


Sinto-me só.


Não da solidão física.


Essa quase sempre encontra distrações.


Falo daquela solidão mineral, anterior à linguagem, onde ninguém consegue realmente atravessar a distância que separa uma consciência da outra.


Encontro abrigo em alguns livros.


Há escritores que conseguem emprestar palavras às coisas que ainda não aprenderam a existir na língua.


A maior parte do que sentimos jamais receberá um nome.


Vivemos esmagados por emoções maiores do que o vocabulário humano.


Chamamos isso de tristeza.


De amor.


De saudade.


Mas são apenas etiquetas frágeis coladas sobre abismos.


Estamos todos presos neste pequeno ponto azul suspenso num universo indiferente.


Aqui dentro, tudo cresce desproporcionalmente.


As dores.


Os medos.


As esperanças.


E, paradoxalmente, nada consegue realmente tocar nada.


A física já havia descoberto isso antes de nós.


Os átomos não se encostam.


Seus núcleos apenas se aproximam, separados por um vazio imenso que insiste em permanecer entre eles.


Talvez o afeto seja isso.


Uma tentativa infinita de atravessar um vazio que a própria matéria decretou intransponível.


Sua carta é bonita.


Meu quartinho dos fundos a guardará para sempre.


Continuarei sendo esse lugar de que falam bem, mas onde ninguém permanece.


Não sou uma casa.


Sou um depósito de permanências interrompidas.


Um endereço lembrado apenas quando falta outro.


Um abrigo de emergência.


Nunca um lar.


Obrigado por emprestar sua poesia à minha durante aquele breve intervalo em que acreditamos que duas almas poderiam morar uma na outra.


Agora restam apenas os sussurros.


E talvez os sussurros sejam tudo o que realmente sobrevive quando o amor termina.

Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

 Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

Só depois compreendi que ninguém volta para um lugar cuja planta nunca decorou.

Há pessoas que apagam a luz sem pensar. Continuam andando. O corpo conhece a distância entre a cama e a porta. A mão encontra o interruptor antes da parede. Os pés desviam da quina da mesa como quem evita uma lembrança antiga. A casa já desceu para dentro da carne.

Nunca me aconteceu.

Sempre precisei dos olhos.

Quando os fecho, não encontro uma casa. Encontro muros.

Bato neles como um cego que ignora as dimensões da própria cela. Não porque sejam muitos. Porque nunca aprendi o desenho de nenhum. Nunca soube quantos passos separavam um quarto do outro. Nunca soube onde uma parede terminava para que outra começasse a me proteger. Passei por dentro de lugares. Nunca os habitei.

Chamaram isso de morar.

Era apenas permanecer entre paredes.

Talvez seja por isso que invejo as vilas.

Não pela calma. Nem pelas árvores. Nem pela nostalgia barata que inventaram para elas.

Invejo o homem cujo nome ninguém sabe direito, mas cujo rosto todos conhecem. A mulher que passa toda manhã com a mesma sacola. O rapaz da oficina. A velha que senta na porta antes do entardecer.

Ninguém lhes deve amor.

Nem amizade.

Basta o reconhecimento.

Há qualquer coisa de profundamente humano em cruzar um rosto que nunca nos pertenceu e, ainda assim, não precisar perguntar quem ele é. O rosto responde antes. Ele ocupa um lugar no mapa. Ele confirma que aquele pedaço de mundo tem memória.


Talvez seja isso uma casa:

Um lugar onde até os desconhecidos deixam de ser estranhos.


Nunca tive sequer esse consolo.


Os rostos nunca criaram raízes diante de mim. Eram passageiros como eu. Olhavam-me com o mesmo esforço com que se olha uma placa de trânsito: apenas o suficiente para seguir adiante. Nunca fui o homem da esquina. Nunca fui aquele que passa às seis. Nunca fui reconhecido antes de ser identificado.


A vida inteira precisei me apresentar.


É cansativo nascer todos os dias.


Hoje sei que não procurei um teto.


Procurei um lugar onde pudesse fechar os olhos sem desaparecer.


Mas fecho os olhos e continuo perdido.


Não porque exista um labirinto.


Porque nunca existiu uma casa.

04/08/2026

Cobre por Cobre

 Há sobretudo em mim a inveja dos amigos que nunca tive.

Não dos que aparecem nas fotografias de aniversário, nem dos que distribuem abraços com a generosidade de quem distribui panfletos. Invejo os gratuitos. Essa espécie rara de gente que chega sem cálculo, permanece sem contrato e parte sem deixar uma fatura sobre a mesa.

Nunca soube o que era isso.

Cada amizade que me atravessou trouxe consigo uma praça de pedágio. Paguei em tempo, em escuta, em favores, em paciência. Houve amizades que custaram fins de semana; outras, pedaços inteiros de mim. E eu pagava com uma diligência quase religiosa, como se o preço fosse a prova de que o afeto existia.

Paguei cobre por cobre.

Talvez seja essa a forma mais discreta da solidão: descobrir que algumas pessoas nos querem por perto, desde que continuemos úteis. A utilidade é uma máscara curiosa; veste-se de carinho durante o dia e, à noite, revela o uniforme de cobrador.

Ainda assim, não me tornei amargo. No máximo, adquiri o humor melancólico dos que aprenderam a rir da própria ingenuidade. Se um desconhecido me oferece um café sem segundas intenções, quase procuro a câmera escondida. A gratuidade me parece uma teoria bonita, dessas que funcionam melhor nos livros do que nas esquinas.

Meu mal não é a falta de amigos.

Meu mal é a inveja dos amigos que não fiz. Dos que talvez existam apenas na hipótese, como tantas outras coisas que poderiam ter salvado uma vida e, por um desencontro ridículo de calendários, ônibus ou timidez, jamais aconteceram.

No fim, talvez morrer seja a maior das liberdades.

A escravidão é passar a vida inteira com as moedas na mão, disposto a pagar por companhia, e descobrir, tarde demais, que o único afeto que valia a pena nunca esteve à venda.

31/07/2026

Viver a Dois é Viver Metade


Há um equívoco antigo, repetido com a solenidade das mentiras necessárias: dizem que duas pessoas se completam. Nunca acreditei nisso. Ninguém completa ninguém. O que existe é uma lenta amputação consentida.

Viver a dois é viver pela metade.

É descobrir que até a sede deixa de ser sua. Bebe-se o refrigerante que o outro prefere porque já não vale a pena discutir o gosto das pequenas coisas. Depois vêm as grandes. Escolhe-se o filme que não se queria ver. Ri-se da piada que não teve graça. Assiste-se à série vazia, construída para preencher o tempo de quem desaprendeu a suportar o silêncio. E assim os dias passam: um episódio após o outro, enquanto a própria vida permanece pausada.

Viver junto é a pedagogia da renúncia. Renuncia-se ao horário, ao lado da cama, à temperatura do quarto, ao caminho de volta para casa. Renuncia-se até ao direito de sentir fome. Parte-se o pão ao meio para alguém que sequer queria pão. E come-se a metade restante sem saber se era fome ou apenas o reflexo de repartir.

Há uma violência discreta em toda convivência. Não a violência dos gritos, mas a das pequenas concessões. A violência de abandonar uma vontade por dia até já não reconhecer quais eram as próprias vontades. O amor, quando dura, muitas vezes parece apenas a administração eficiente dessas desistências.

E há o corpo.

O corpo talvez seja o primeiro a desertar. Antes das palavras, antes das brigas, antes mesmo da coragem de admitir o fracasso, é ele quem parte. O sexo, que um dia pareceu uma linguagem, transforma-se lentamente num idioma morto. Os toques tornam-se protocolares. Os beijos aprendem a duração exata da obrigação. O desejo deixa de ser encontro e passa a ser lembrança.

Porque o tesão raramente morre. Apenas muda de endereço.

Morre no parceiro e renasce naquilo que ainda não aconteceu. Na mulher que passou na rua. No homem sentado do outro lado do restaurante. Na colega de trabalho. No estranho do metrô. Ou, mais frequentemente, em ninguém de concreto. Apenas numa possibilidade. Numa fantasia sem rosto. Num corpo inventado que jamais terá o peso da realidade.

Somos seres faltantes. Desejamos precisamente aquilo que nos escapa. O que possuímos deixa de ser objeto do desejo porque a posse dissolve a ilusão. O desejo vive da distância, da impossibilidade, daquilo que ainda pode ser qualquer coisa. A realidade é sempre menor do que a imaginação.

Talvez a monogamia não seja a vitória sobre o desejo, mas apenas um acordo para fingirmos que ele obedece. O corpo assina um contrato que a fantasia jamais leu. O olhar continua demorando-se onde não deveria. A imaginação continua fabricando encontros impossíveis. O desejo permanece indisciplinado, indiferente às alianças, aos votos e às fotografias felizes.

Continuamos dividindo a cama enquanto cada um sonha sozinho. Dois corpos lado a lado, separados por um continente invisível. A intimidade, com o tempo, deixa de ser proximidade e passa a ser geografia. Aprende-se exatamente onde termina a perna do outro, mas nunca onde começa seu abismo.

Viver a dois é também negociar o irrenunciável. Não apenas o filme, a música, o refrigerante ou o pão. Negocia-se o próprio desejo. Negocia-se a liberdade de imaginar. Negocia-se o silêncio. Negocia-se o tempo. E, pouco a pouco, negocia-se a si mesmo.

Há quem chame isso de maturidade.

Talvez seja apenas desgaste.

Talvez amar seja apenas a forma socialmente aceita de perder pequenas partes de si sem fazer escândalo.

A solidão, porém, não desaparece quando chega outra pessoa. Ela apenas muda de lugar. Sai da sala e passa a dormir entre os dois travesseiros. Aprende a respirar no mesmo ritmo do casal. Torna-se educada, discreta, quase invisível. Mas continua ali.

Talvez esse seja o destino de toda intimidade: descobrir que ninguém entra realmente na vida de ninguém. Recebemos visitas. Nunca habitantes. Há sempre um quarto trancado dentro de cada pessoa, um território sem mapas, onde nem o amor, nem o sexo, nem a convivência conseguem entrar.

No fim, viver a dois é viver pela metade.

Metade das escolhas. Metade dos desejos. Metade da liberdade. Metade da mesa. Metade da cama. Metade do pão.

E, paradoxalmente, o dobro da solidão.

Porque passamos a carregar não apenas a nossa, mas também a do outro.

E talvez seja esse o maior absurdo da existência: procuramos alguém para nos salvar da solidão e acabamos descobrindo que ela é a única companheira verdadeiramente monogâmica. Nunca nos trai. Nunca nos abandona. Apenas espera, pacientemente, que o amor termine de prometer aquilo que jamais poderia cumprir.


28/07/2026

Porque dói e Sangra

 Há cacos de me mim por toda parte. 

Eles me fazem sangrar;

 Há cacos de mim por toda parte;

Estou invisível. 

Não insensível.

21/07/2026

Da Amizade

 

A amizade talvez seja o vínculo mais mal compreendido que existe.

Gostamos de acreditar que ela nasce de afinidades profundas, de encontros raros, de algum reconhecimento secreto entre duas pessoas. Mas basta observar um pouco. A maioria dos amigos compartilhou primeiro um endereço, uma rotina, um horário ou um inconveniente. O resto veio depois, como as plantas que crescem nas rachaduras do concreto e nos fazem esquecer que a rachadura veio antes da planta.

Sempre me intrigou a facilidade com que as pessoas pertencem umas às outras. Elas entram em um lugar e, pouco tempo depois, parecem fazer parte dele. Eu nunca consegui esse tipo de adaptação. Os ambientes sempre me receberam como quem tolera um visitante. Aprendi a conversar, a rir no momento certo, a participar. Não porque me sentisse dentro, mas porque o lado de fora também exige etiqueta.

Há quem diga que isso é solidão. Não sei. Solidão pressupõe a falta de alguma coisa. Eu nunca soube se me faltava algo ou se apenas enxergava um mecanismo que os outros preferiam ignorar.

As amizades também obedecem a esse mecanismo.

Enquanto existe um chão comum, elas respiram. O trabalho. A universidade. A infância. A vizinhança. Quando o chão desaparece, quase sempre o vínculo desaparece junto. Não porque alguém tenha traído alguém. Apenas porque a estrutura que sustentava o encontro deixou de existir. Chamamos isso de afastamento, como se houvesse um culpado. Talvez nunca tenha havido aproximação suficiente.

É estranho. Passamos a vida inteira cercados de relações que dependem de circunstâncias, mas insistimos em chamá-las de escolhas.

Ainda assim, de tempos em tempos, acontece um erro.

Alguém permanece.

Não permanece porque precisa. Nem porque você precise. Permanece apesar da completa ausência de necessidade. Como se duas consciências, condenadas a jamais dividir a mesma experiência, decidissem continuar orbitando uma à outra sem esperar que a distância diminuísse.

Não vejo beleza nisso.

Vejo apenas uma exceção.

E talvez a amizade seja exatamente isso: uma exceção sem promessa, sem finalidade e sem garantia de durar. Ela não derrota o isolamento. Não cura o desencontro entre uma consciência e outra. Apenas o contradiz por algum tempo.

Depois, como quase tudo, segue o seu caminho.


12/07/2026

Cartografia da Lembrança



Há um momento em que a memória deixa de ser lembrança e vira geografia; Aracaju fez isso comigo.

Já não caminho por suas ruas; caminho por camadas de gente. Cada esquina tem o nome de um rosto cansado do passado; cada semáforo guarda a pressa de avançar o sinal amarelo pra chegar logo ao não destino; cada calçada é um pequeno tribunal onde sou obrigado a depor sobre alguém que já não existe; ou que existe apenas como versão fossilizada dentro da minha cabeça.

Às vezes finjo esquecer. É uma técnica sofisticada; finjo tanto que esqueço; o problema é que, de tanto representar, esqueço que estava fingindo. Então o esquecimento vence a encenação. Até que uma rua qualquer desfaz o truque.

E lá vem.

Fulano.

Beltrana.

A conversa que nunca terminou.

O café.

A briga.

O silêncio.

Até quem já havia me esquecido volta para me assombrar. Não a pessoa. O espectro. É curioso como a memória é arrogante: ela não aceita a reciprocidade do esquecimento. O outro seguiu vivendo; eu continuo tropeçando na sombra que ele deixou.

O coração leva um susto ridículo, como se tivesse visto um fantasma. E talvez tenha visto. Fantasmas não são mortos; são presenças que perderam o corpo, mas conservaram o maldito endereço, a maldita esquina, o beco, a viela.

Então faço o papel de sensitivo cansado; passo por eles fingindo que não os vejo. Quem sabe, ignorados, desapareçam, como crianças que fecham os olhos e pensam que o mundo desapareceu.

Nunca desaparecem.

O inferno não é reviver o passado; é perceber que ele nunca foi embora. Ele apenas mudou de estratégia; deixou de morar no tempo e passou a morar nos lugares.

Não carregar lembranças; ser carregado por elas. Como se cada rua nos atravessasse mais do que nós a atravessamos.

E ainda assim continuo andando.

Não por esperança, não por teimosia.

Mas porque percebi o óbvio: eu não habito Aracaju. Eu habito as memórias que ela me deu. A cidade é só a moldura; o que fica dentro não tem nome que eu queira dar.