22/06/2026

Que destino é esse?


Hoje não tenho hora marcada. Nem sei que horas são. O relógio apodrece na parede, um parasita que insiste em fatiar o nada em porções iguais. Há dias em que sua simples presença provoca náusea: um objeto estúpido tiquetaqueando sobre uma parede muda, fingindo que alguma coisa está acontecendo.

Não tenho trem para perder. Não tenho compromisso que justifique meu atraso no mundo. Não há ninguém consultando o relógio à minha espera. Ninguém perguntando por onde ando. Ninguém contando os minutos da minha ausência.

Chamam isso de liberdade.

Mas liberdade não tem esse cheiro de coisa esquecida. Liberdade não pesa assim no estômago.

Porque não existe estação nenhuma.

Nenhuma plataforma de concreto frio. Nenhum apito distante cortando a tarde. Nenhum painel luminoso anunciando chegadas e partidas. Nenhum banco duro onde eu pudesse me sentar e fingir — por algumas horas, ao menos — que estou à espera de alguém.

À espera de um amor que me atravessasse as vísceras.

À espera do anúncio do meu nome num alto-falante que nunca funcionou.

À espera de que a vida finalmente começasse.

Mas não há trem.

Não há estação.

Não há partida.

Durante muito tempo carreguei a convicção de que estava atrasado para alguma coisa essencial. Via os outros correndo: acumulando metas, fotografias brilhantes, diplomas, filhos, casas, histórias quentes para contar. Pareciam passageiros apressados, arrastando malas pesadas rumo a destinos que realmente importavam.

E eu corri também.

Corri atrás de horários. Corri atrás de promessas. Corri atrás de vagões que só existiam na fumaça da minha cabeça.

Hoje suspeito que o trilho nunca foi construído.

Talvez essa seja a fraude mais antiga da existência: a promessa silenciosa de que, em algum momento, o grande acontecimento virá. Uma curva gloriosa. Um encontro capaz de reorganizar os escombros. Um sentido oculto aguardando pacientemente na próxima estação.

E então os anos passam.

Passam sem pedir licença.

Passam como chuvas de verão sobre telhados velhos: fazem barulho, deixam infiltrações e desaparecem.

O trem não veio.

Pior.

Talvez nunca tivesse sido programado.

A estação enferrujou antes da inauguração. Uma carcaça de metal esquecida ao sol. Um monumento erguido para uma promessa que já nasceu morta.

E a vida não esperou ninguém.

Passou depressa, com a indiferença de quem não reconhece passageiros atrasados. Passou enquanto eu organizava a bagagem. Passou enquanto eu procurava uma razão suficientemente nobre para embarcar. Passou enquanto eu observava um horizonte imóvel, esperando algum sinal.

Nenhum sinal veio.

E ficou apenas isto:

A plataforma vazia do que não foi vivido.

A poeira acumulada sobre caminhos que meus pés jamais percorreram.

O eco distante de partidas que morreram antes mesmo de serem anunciadas.

Sem trem.

Sem estação.

Sem glória.

Sem esperança — essa palavra desgastada, esse mecanismo de adiamento que nos convence a esperar mais um pouco.

Apenas a sensação áspera de permanecer onde sempre estive.

Parado diante de trilhos que não levam a lugar algum, observando uma existência que passou ao longe, silenciosa, sem diminuir a velocidade, sem olhar para trás.


17/06/2026

Necrópolis


A morte nunca me chega como alma.

Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.

A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.

Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.

A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.

Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.

Meu pai, porém, ainda está perto demais.

Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.

E isso me incomoda.

Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.

O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.

A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.

Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.


31/05/2026

Território nunca Visitado


Hoje pensei em fazer um pudim.

Não fiz.

A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.

Estranhei.

Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.

Mas nunca fiz um pudim.

A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.

Nunca fiz um pudim.

Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.

Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.

É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.

E então deixa de acontecer.

O tempo deposita poeira sobre a ausência.

Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.

O pudim continuava inexistente.

Os ovos continuavam na geladeira.

O leite condensado continuava no armário.

Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.

No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.

A cozinha permaneceu igual.

O mundo permaneceu igual.

15/05/2026

Casa de Câmbio


Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.


10/05/2026

Bolo de chocolate

 Bolo de chocolate

Estava eu num domingo molhado, daqueles feitos sob medida para quem acorda com a alma fora do corpo. Chovia aquela chuva miúda que, por aqui, chamam de chuva que molha os bestas. Eu nem liguei. Era besta havia tempo demais. Tinha aprendido a correr para a chuva em vez de fugir dela.

Acordei calculista. Queria morrer, mas sem erro. Passei a manhã pesquisando doses, janelas toxicológicas, sequelas, probabilidades de virar vegetal. Imaginava o cenário: preso numa cama, fedendo, virando osso e merda, boca seca, dentes à mostra, esperando a morte que eu mesmo tentara apressar. O celular, esse cão fiel, me sugou para dentro. Leitura ia, leitura vinha. Até que algo me distraiu: não era veneno de farmácia. Era veneno de dispensa.

Margarina, açúcar, farinha, creme de leite, leite condensado — e mais leite condensado, porque uma vez só nunca basta. Sem planejar, comecei a jogar tudo na batedeira. Joguei amendoim, castanha, uva-passa, ameixas. Bati até a massa ficar homogênea, escura, brilhante. O forno já esquentava. Não queria que o bolo saísse solado como a minha vida.

Enquanto a massa girava, os remédios foram esquecidos na gaveta da mente. De repente eu estava preocupado com o tempo exato de forno, com o palito que sai limpo, com o cheiro que invadia a cozinha. O suicida meticuloso tinha virado cozinheiro ansioso. Era ridículo. Era salvador.

O bolo saiu perfeito: alto, úmido, denso. Fiz três xícaras de café. Pus a mesa com a seriedade de um ritual inventado na hora. Primeira garfada. Primeiro gole. Doce demais. Amargo demais. Vivo demais.

Comi devagar. Para cada xícara, um pedaço. No último farelo, no último gole, eu não estava morto. Estava empanturrado de uma tristeza diferente — aquela que ainda consegue sentir gosto.

Nos dias seguintes, a balança cobrou o preço. Mas valia.

O bolo não cura. Não resolve o carrossel de Tobias, aquele brinquedo velho que rodava praças de cidade pequena em Sergipe, rangendo, fazendo a criança jurar que viajava longe quando, na verdade, dava voltas no mesmo eixo enferrujado.

Mesmo assim, sigo aqui. Barriga cheia, boca com gosto de chocolate. Perdi feio para a vida outra vez — mas perdi com cobertura espessa por cima de um miolo meio solado.

Amanhã a gente vê se o carrossel ainda gira. Por hoje, o bolo venceu.

28/03/2026

Reticentes Recorretes

A minha mãe nunca disse que não podia. Nunca disse que não tinha. Ela apenas demovia sorrateiramente a vontade que eu tinha de qualquer coisa. Ela ia porfiando pelas beiradas, metia defeitos, procurava jeito qualquer que fosse para me dizer que o que eu queria não servia de nada. Era apenas um capricho de criança. E nisso eu perdia a vontade do que quer que fosse.


Nisso eu fui aprendendo a querer pouco. E acabei sendo pouco também.


Quando a gente fazia aniversário ela deixava claro que pobre não fazia aniversário. Pobre completa ano. Ignorando ela que aniversário era justamente isso. A gente não tinha era festa de aniversário, presente de aniversário e nem um feliz aniversário.


A miséria nos ensinava que querer era errado e que não poder era a norma.


Ela nunca disse um lacônico não!


Ela arrodeava, me fazia cismar, e duvidar do que eu queria. Eu vacilava e mudava o tino. Ia para outras coisas que o menino em mim me permitia. Permitiu tão pouco a bem da verdade. Eu me sentia como um passarinho que não sabia voar. Mas me viam como um menino cheio de azedume, endemoniado. Não a minha mãe. Os outros que saíram dela.


Eu era uma carta sem destinatário,  um livro sem leitor uma chave que não abria porta nenhuma.


Hoje, com minhas cãs, ainda tenho que forçar, empurrar, demandar força para existir mesmo desencaixado daqueles próximos de sangue e longe de existência.


Sou forte; sem ternunra, mas forte. Minha mãe embora me demovesse de minhas pequenas ambições infantis fez de mim um homem forte. Ainda que queira pouco, ainda que saiba pouco, ainda que a vida seja pouca e sem sentido, eu me esforço para andar com a cabeça erguida e para não viver sob olhares presunçosos de grandeza moral inexistente.


Eu sou filho da paixão. Talvez o único ato louco e passional porque ela passou.


Eu passei por tantas paixões loucas e transitórias que tenho pena de quem nunca as experimentou de verdade com medo de deus, esperando uma recompensa de um mundo que seria completamente entendiante. Como é bom não precisar de deus para ser bom. Como é bom imaginar uma deusa-mãe que lhe dá colo e não promete castigar por não viver o roteiro que escreveram para você.


Hoje, de novo, não tem festa de aniversário, apenas aniversário; mais pela minha falta de habilidades sociais do que pela miséria.


De qualquer modo tem aniversário.


Afetos completamente desorganizados, mas cheios de emoções paralelas.


Janelas abertas, portas fechadas.


Um pôr do sol que pincela de amarelo alaranjado meu fim de tarde e que escurece junto com minha alma.


Todo dia é essa agonia, ou essa aventura.


Meu deus que criatura!

26/03/2026

Ímpares Solitários



Abro a gaveta de meias toda manhã com a mesma expectativa tola de quem compra bilhete de loteria sabendo a estatística. E toda manhã o mundo me confirma: não há par. Há meias. Há intenções de meias. Há meias que foram, um dia, a metade de algo que se podia chamar de conjunto, mas que agora existem sozinhas com uma dignidade levemente ridícula, como filósofos do nada e do tudo.

Não jogo fora. Esse é o problema. Guardo a meia solitária porque existe em mim uma fé residual, irracional, quase litúrgica, de que a outra vai aparecer. Que houve apenas um desencontro provisório. Que a gaveta ainda vai se resolver. Mas a gaveta não se resolve, a gaveta acumula, e eu fico ali parado de manhã com uma meia listrada na mão olhando para o nada como se o nada fosse me dar uma explicação.

Minha vida tem essa textura.

No chaveiro que carrego no bolso há chaves que não sei mais do que são. Não sei. Juro que não sei. Há uma pequena, dourada, que pode ter sido de um cadeado de mala ou do coração de alguém ou de uma caixa de papelão onde guardei coisas que não quero lembrar que guardei. Há uma de corte estranho, que abre alguma coisa que provavelmente não existe mais, alguma porta em algum apartamento de algum tempo em que eu era uma versão anterior de mim com outros problemas de mesmo peso. Carrego essas chaves com a seriedade de quem carrega documentos. Com o rigor de quem sabe para onde vai.

Mas não sei para onde vou.

O absurdo não é carregar chaves sem fechadura. O absurdo é a seriedade com que as carrego. É o peso concreto delas no bolso, esse som metálico e sem cerimônia que fazem quando bato na coxa, esse hábito de consultá-las com os dedos enquanto penso, como se na ponta dos dedos houvesse resposta tátil para perguntas que não têm nem enunciado certo. Carrego o peso do que não abre mais como se abertura fosse ainda uma possibilidade honesta.

E talvez seja. Aí está o problema.

Porque a chave que não encontra fechadura permanece numa espécie de limbo teológico: ela não falhou, ela apenas ainda não encontrou o que lhe corresponde. A porta pode existir. Pode ser que em algum lugar haja uma fechadura esperando exatamente esse dente irregular, esse corte específico que minha chave desconhecida tem. A possibilidade não foi descartada, foi só adiada, o que é uma forma de tortura mais refinada do que a negação direta.

A vida passageira funciona assim: ela não diz não. Ela diz ainda não, ou diz talvez, ou pior, não diz nada e deixa a chave no bolso tilintando contra as outras chaves igualmente inúteis igualmente esperançosas.

Às vezes penso que devo jogar fora. As meias ímpares, as chaves sem rosto. Fazer aquela limpeza que os livros de autoajuda prometem que muda algo além da gaveta. Mas sempre que pego uma chave para descartar, a seguro por um instante e sinto naquele metal frio uma história que não consigo reconstruir completamente, uma história que existe só como clima, como resíduo, como a sensação de que aquilo importou sem que eu consiga dizer exatamente o quê ou o quando ou o porquê.

E guardo de volta.

Somos, talvez, o que não conseguimos jogar fora. O par que falta, a fechadura que sumiu, o transitório que ficou preso no bolso sem avisar que havia ficado. A vida equívoca e inexata que insiste em não se organizar em conjuntos legíveis, em narrativas com início meio e fim, em gavetas arrumadas de onde se tira, sem drama, as duas meias certas para o dia que começa.

Hoje vou de meias diferentes. Uma cinza, uma azul. Caminho assim, levemente assimétrico, levemente absurdo, com as chaves batendo no bolso como sinos pequenos e sem música que tocam só para mim.