24/01/2026

tratado sobre a solidão


Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.

Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.

Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".

No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.

A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.

Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.

A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.

A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.

Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.

E a frase que se impõe não consola nem acusa:

não se tratava de ser desnecessário,

mas de existir apenas como peça provisória,

um encaixe tolerado enquanto cumpria função,

retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.

Como aquela criança no guarda-roupa,

que depois de horas escondida decidiu sair,

não porque foi encontrada,

mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,

e ela era, ao mesmo tempo,

a última a saber

e a única que sempre soube.

22/01/2026

Abissais Existenciais

 Tudo começa com um excesso de luz interna. Não a luz que esclarece, mas a que ofusca. Os pensamentos correm como cardumes em pânico, batendo uns nos outros, produzindo faíscas, promessas, urgências. O mundo parece inflado, dilatado, como se cada segundo carregasse mais possibilidades do que o corpo pode sustentar. Há uma falsa sensação de potência, de expansão, de que algo grandioso está prestes a se revelar — embora nada se revele, de fato. Apenas o ritmo acelera.

A consciência, embriagada de si, acredita por instantes que encontrou uma saída, um sentido, um vértice. Mas essa elevação não é subida; é a beira de um colapso. O chão não desaparece de repente. Ele amolece. Torna-se instável, traiçoeiro, como areia que cede sob o peso da própria confiança.

Então vem a queda. Não um despencar espetacular, mas um afundamento lento, contínuo, para regiões onde a pressão substitui o ar. O fundo do oceano não acolhe, não revela, não responde. Apenas comprime. Cada ideia, antes luminosa, é esmagada até perder forma. Não há escuridão poética ali; há densidade. Um silêncio espesso que não promete retorno.

Nesse nível, a existência mostra sua ossatura: movimento sem direção, dor sem finalidade, esforço sem coroamento. Tudo funciona, tudo pulsa, tudo continua — e nada converge para um porquê. O viver é apenas a persistência de mecanismos que não sabem justificar a própria atividade.

Sísifo empurra a pedra nesse cenário não como símbolo de grandeza, mas como prova de que o mundo se sustenta na repetição vazia. A montanha não é obstáculo moral; é geometria. A pedra não é desafio; é massa. E a ideia de que ele possa ser “feliz” soa como tentativa desesperada de resgatar alguma nobreza onde só há desgaste.

No fundo sem luz, não existe heroísmo. Existe atrito. Existe cansaço. Existe a lucidez de perceber que continuar não transforma o absurdo em sentido, apenas o prolonga.

E a pergunta, inevitável, ecoa como pressão nos ouvidos:

Como imaginar Sísifo feliz,

como me imaginar feliz,

se a própria rolagem da pedra

é a encenação mais bem ensaiada

de uma esperança que finge não ver

que todo esforço retorna ao ponto inicial?

Se a felicidade é possível,

talvez seja apenas outra camada de sedimento

depositada sobre o fundo,

para que não vejamos, com clareza total,

a nudez insuportável do sem-propósito.


21/01/2026

Economia

 A vergonha não nasce do espelho; nasce do inventário. Não é um rosto que me encara, é a soma das omissões. Fui pouco. Tentei pouco. Permiti demais.

Corri tanto e nunca cheguei na frente. Movimento sem destino. Esforço sem centro. Fui uma flecha sem alvo, lançada por um arco que prometia sentido e abortou o propósito no espaço vazio entre a tensão e o impacto.

Aceitei humilhações como quem aceita clima. Confundi sobrevivência com dignidade. O mundo seguiu, ruidoso e oco, como um tambor que bate para esconder o próprio vazio.


20/01/2026

Tambores de África

Todo carnaval tem seu fim, repetem como quem consola a si mesmo, como quem precisa acreditar que a ressaca moral da quarta-feira de cinzas é uma espécie de redenção. Esquecem, porém, que todo carnaval também tem seu começo e que ele retorna pontualmente, como a pedra de Sísifo, rolando de novo montanha acima, indiferente ao cansaço dos que a empurraram no ano anterior. O calendário gira, a serpentina apodrecida vira pó, a fantasia mofada no fundo do armário aguarda sua ressurreição profana. E lá estamos nós outra vez, convocados por um tambor que não pergunta se ainda há fôlego, se ainda há desejo, se ainda há sentido. Apenas chama. E quem está vivo — ou quem ainda simula estar — atende. Na avenida, corpos se chocam como partículas sem destino: suados, pintados, sorrindo com a musculatura da boca, não com a convicção do espírito. Dança-se como quem foge, bebe-se como quem anestesia, beija-se como quem tenta provar a si mesmo que ainda pulsa alguma coisa por dentro. A música repete refrões como mantras vazios: alegria obrigatória, euforia regulamentada, prazer em escala industrial. Mas há os outros. Os que dançam já mortos. Cadáveres funcionais, de olhos abertos, que cumprem o ritual como quem bate ponto numa repartição do absurdo. Rodopiam, riem, levantam os braços, mas por dentro a alma já pediu exoneração. São os que cansaram de empurrar a própria pedra e agora apenas acompanham seu rolamento, ladeira abaixo, com a inércia de quem desistiu de resistir. O carnaval passa, como sempre. Promete esquecimento e entrega apenas mais memória. Promete libertação e devolve rotina. Promete vida intensa e, às vezes, entrega só exaustão. Alguns sobrevivem. Outros continuam andando, falando, dançando — mas já atravessaram, sem cerimônia, a fronteira invisível entre existir e apenas ocupar espaço. E no ano seguinte, se a morte biológica não tiver feito seu serviço, o tambor chamará de novo. A pedra estará lá, no pé da montanha. A ciranda recomeça. Os vivos empurram. Os mortos em pé acompanham. E o carnaval, esse deus indiferente, segue girando, sem se importar se quem dança ainda está vivo — ou apenas treinando para morrer. Como já disseram, “o tambor faz barulho, mas é oco”. E então a pergunta se impõe, sem fantasia que a disfarce: e o quanto de sua existência é vazia de sentido? Só faz barulho para espantar a falta de razão de existir? No fim, quando a última nota se dissolve no ar quente e a quarta-feira tenta impor sua gravidade burocrática, resta a constatação nua e cruel: quem resistiu aos tambores de África?

Paleolitico

Empurro uma pedra que o mundo não encomendou. A montanha não responde. O chão esquece meus passos. Sou grão que não soma, areia que não constrói deserto algum. Cada manhã o mesmo peso. Cada noite o mesmo lugar.   No fundo, não é a solidão que dói — é perceber que tem paredes. Somos casas sem portas, janelas pintadas por dentro. De um cômodo gritamos para o outro. De um corpo chamamos outro corpo e a voz volta como pedra atirada contra pedra.   Queremos ser dois em um. A física diz: um em um, cada qual empurrando sua carga, cada qual chamando de amor o instante em que as pedras se tocam antes da gravidade separar outra vez.   E ainda assim seguimos. Não como Sísifo — ele tinha deuses testemunhas, tinha mito, tinha nome no mármore do tempo. Nós empurramos no anonimato, por teimosia de osso, por essa recusa sem grandeza de aceitar que o vazio basta.   A pedra rola. Nós atrás. Chamamos isso de sentido porque não temos outro nome para o hábito de não largar.

19/01/2026

Ponto de Ônibus

Minha mãe dizia que cinquenta por cento de alguma coisa é melhor do que cem por cento de coisa nenhuma. Mas minha sobrinha sabia mais. Sabia com o corpo, com a pressa, com a vaidade ainda úmida e os hormônios em motim. Tudo nela gritava — numa ignorância soberana, límpida — que não precisava da metade. Que metade ainda era excesso. Que já lhe bastava o nada. Recolhi-me. Fiz de mim um resto, um canto de sala onde ninguém se demora. Deixei-a partir como se parte de mim fosse com ela. Sem direito a retorno, sem caução de memória. Em mim não ficou um porto. Porto é lugar de chegada, de âncora, de permanência. Em mim ficou um ponto de ônibus. Abrigo estreito onde as coisas não ancoram: esperam. Vez ou outra os mesmos passageiros, as mesmas passagens, os mesmos itinerários. Em mim tudo se repete como cansaço. Como círculo. Como quem nunca sai. Tenho servido de ponto de ônibus — ou, como dizem por aqui, de abrigo — para tantos parentes e aderentes. Chegam, encostam, aquietam a dor por um instante, partem. Rechicoteiam na minha existência. Testam se ainda estou. Balançam o braço quando querem que o ônibus pare. E eu paro. Sempre paro. Tenho sido motorista também: conduzo sem escolher rota, levo sem decidir destino, vejo descer quem eu queria que ficasse. Às vezes — quiçá — sou um palhaço sem palco, fazendo graça para um público que já foi embora. Um tio sem sobrinha, sem prima, sem escuta. Um laço que apodreceu antes de dar flor. Foi sólida, a solidão. Não líquida, não passageira: sólida como parede, como laje, como chão que desaparece sem aviso. Um mergulho direto. Cheguei à adolescência assim, lançado num picadeiro onde o número principal era entender — cedo demais — que metade não basta quando o que falta é inteiro. Mas ninguém me ensinou o que fazer com essa compreensão. Ninguém me disse que ponto de ônibus também envelhece. Que a tinta descasca, que o banco racha, que um dia ninguém mais espera ali. Que há solidões que viram paisagem: estão, mas ninguém vê. Permaneço. Um abrigo esquecido na periferia de todos. E quando chove — quando chove de verdade — nem a mim mesmo sirvo de cobertura.

Ponto de Ônibus

Minha mãe repetia, como um axioma doméstico, que cinquenta por cento de algo ainda é melhor do que cem por cento do nada. Filosofia de prataria herdada, economia do afeto. Mas minha sobrinha, essa, trazia uma matemática nova no sangue. Sabia com o corpo inteiro — pressa nos tendões, vaidade ainda úmida nos lábios, hormônios em estado de sítio. Tudo nela proclamava, numa ignorância límpida e soberana, que não se contentava com a metade. Que metade era excesso. Que o seu bastante era o nada, esse nada cheio de futuro, esse vazio por onde a vida irrompe, intacta. Eu, então, recolhi-me. Fiz de mim um resto, um canto de sala por onde se passa a caminho de outro lugar. Deixei-a partir, e uma parte de mim — a que ainda acreditava em portos — partiu com ela. Sem direito a retorno, sem recibo, sem a caução mínima de uma memória afetiva. Não ficou em mim um porto. Porto é geografia da permanência, enseada, abrigo final. Ficou um ponto de ônibus. Esse não-lugar de concreto e lata, abrigo estreito onde as coisas não ancoram: apenas esperam. Vez ou outra, os mesmos passageiros, as mesmas passagens compradas com moedas de desatenção, os mesmos itinerários pré-fixados. Em mim, tudo se repete como cansaço. Como círculo vicioso. Como a sina de quem nunca verdadeiramente sai. Tenho servido de ponto de ônibus — ou, na linguagem burocrática da cidade, de abrigo — para uma linhagem de parentes e aderentes emocionais. Chegam, encostam o peso do dia, aquietam a dor por um instante, partem. Rechicoteiam na minha existência. Testam, com o pé, se a plataforma ainda está firme. Balançam o braço, gesto imperioso, quando desejam que o veículo de suas vidas pare. E eu paro. Sempre paro. Às vezes, sou também o motorista cego: conduzo sem conhecer o mapa, levo cargas sem perguntar o destino, vejo descer na esquina errada justamente aquele que eu queria que permanecesse a bordo. Quiçá seja um palhaço sem picadeiro, fazendo graças para a plateia já dispersa. Um tio-ônibus, um tio-abrigo. Um laço que apodreceu na gaveta, muito antes de dar flor. A solidão que me constitui não é líquida, nem gasosa, nem passageira. É sólida. Sólida como parede de porão, como laje de fundação, como chão que cede sem ruído. Cheguei à adolescência por um mergulho direto nessa matéria, atirado num picadeiro onde o número principal era compreender — cedo demais — que metade é farsa quando o que se anseia é o inteiro. Ninguém, porém, me deu o manual dessa compreensão. Ninguém me disse que pontos de ônibus também envelhecem. Que a tinta descasca, que o banco de madeira racha ao meio, que um dia os itinerários mudam e ninguém mais espera ali. Que existem solidões que se tornam paisagem: estão tão integradas ao cenário que ninguém as vê. Permaneço. Um abrigo fora de rota, esquecido na periferia de todos os mapas. E quando a chuva vem — a chuva de verdade, aquela que não pede licença — descubro, por fim, a minha derradeira ironia: nem a mim mesmo sirvo de cobertura. A água encontra suas fendas, corre pelo concreto gasto, e eu fico ali, oferecendo um refúgio que não me inclui, ponto final de uma linha que talvez não exista mais.