Tal qual Macabeia tudo em mim me dói. E tomo, não tão tal qual Macabeia, um grama de dipirona.
Não resolve a causa, mas disfarça o sintoma.
Uma vida com dor não se justifica quando se tem remédio.
talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.
Eu amei enquanto doía. Doía porque o desejo do outro era difuso, espalhado — cabia em muitos, menos em mim. Doía. Agora não dói mais. O que restou foi a raiva voltada para dentro. Raiva de mim. E isso eu trabalho, sem discurso, sem aplauso. Tento o perdão próprio como quem aprende um idioma hostil.
Eu criei. Nunca tive dúvida. Criei enquanto outros recebiam pronto. Os amigos chegaram depois, colheram o que já estava formado. Amigos que você fez questão de esconder de mim. Que família é essa? Família que só mandava dinheiro, enquanto o afeto, o treino diário, a ginástica emocional, ficava com eles. Uma única foto juntos — e o gesto seguinte foi apagar. Sintomático.
Então a pergunta ficou, crua, sem adorno: o que exatamente você queria comigo? Qual era a minha função? Sustento? Apoio? Esteio provisório? Nunca foi amor. Amor não se esconde, não apaga, não terceiriza.
E isso eu já sei. O aprendizado veio tarde, mas veio seco. Sem consolo. Sem poesia fácil. Apenas verdade.
Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.
Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.
Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".
No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.
A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.
Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.
A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.
A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.
Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.
E a frase que se impõe não consola nem acusa:
não se tratava de ser desnecessário,
mas de existir apenas como peça provisória,
um encaixe tolerado enquanto cumpria função,
retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.
Como aquela criança no guarda-roupa,
que depois de horas escondida decidiu sair,
não porque foi encontrada,
mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,
e ela era, ao mesmo tempo,
a última a saber
e a única que sempre soube.
Tudo começa com um excesso de luz interna. Não a luz que esclarece, mas a que ofusca. Os pensamentos correm como cardumes em pânico, batendo uns nos outros, produzindo faíscas, promessas, urgências. O mundo parece inflado, dilatado, como se cada segundo carregasse mais possibilidades do que o corpo pode sustentar. Há uma falsa sensação de potência, de expansão, de que algo grandioso está prestes a se revelar — embora nada se revele, de fato. Apenas o ritmo acelera.
A consciência, embriagada de si, acredita por instantes que encontrou uma saída, um sentido, um vértice. Mas essa elevação não é subida; é a beira de um colapso. O chão não desaparece de repente. Ele amolece. Torna-se instável, traiçoeiro, como areia que cede sob o peso da própria confiança.
Então vem a queda. Não um despencar espetacular, mas um afundamento lento, contínuo, para regiões onde a pressão substitui o ar. O fundo do oceano não acolhe, não revela, não responde. Apenas comprime. Cada ideia, antes luminosa, é esmagada até perder forma. Não há escuridão poética ali; há densidade. Um silêncio espesso que não promete retorno.
Nesse nível, a existência mostra sua ossatura: movimento sem direção, dor sem finalidade, esforço sem coroamento. Tudo funciona, tudo pulsa, tudo continua — e nada converge para um porquê. O viver é apenas a persistência de mecanismos que não sabem justificar a própria atividade.
Sísifo empurra a pedra nesse cenário não como símbolo de grandeza, mas como prova de que o mundo se sustenta na repetição vazia. A montanha não é obstáculo moral; é geometria. A pedra não é desafio; é massa. E a ideia de que ele possa ser “feliz” soa como tentativa desesperada de resgatar alguma nobreza onde só há desgaste.
No fundo sem luz, não existe heroísmo. Existe atrito. Existe cansaço. Existe a lucidez de perceber que continuar não transforma o absurdo em sentido, apenas o prolonga.
E a pergunta, inevitável, ecoa como pressão nos ouvidos:
Como imaginar Sísifo feliz,
como me imaginar feliz,
se a própria rolagem da pedra
é a encenação mais bem ensaiada
de uma esperança que finge não ver
que todo esforço retorna ao ponto inicial?
Se a felicidade é possível,
talvez seja apenas outra camada de sedimento
depositada sobre o fundo,
para que não vejamos, com clareza total,
a nudez insuportável do sem-propósito.
A vergonha não nasce do espelho; nasce do inventário. Não é um rosto que me encara, é a soma das omissões. Fui pouco. Tentei pouco. Permiti demais.
Corri tanto e nunca cheguei na frente. Movimento sem destino. Esforço sem centro. Fui uma flecha sem alvo, lançada por um arco que prometia sentido e abortou o propósito no espaço vazio entre a tensão e o impacto.
Aceitei humilhações como quem aceita clima. Confundi sobrevivência com dignidade. O mundo seguiu, ruidoso e oco, como um tambor que bate para esconder o próprio vazio.