Hoje não tenho hora marcada. Nem sei que horas são. O relógio apodrece na parede, um parasita que insiste em fatiar o nada em porções iguais. Há dias em que sua simples presença provoca náusea: um objeto estúpido tiquetaqueando sobre uma parede muda, fingindo que alguma coisa está acontecendo.
Não tenho trem para perder. Não tenho compromisso que justifique meu atraso no mundo. Não há ninguém consultando o relógio à minha espera. Ninguém perguntando por onde ando. Ninguém contando os minutos da minha ausência.
Chamam isso de liberdade.
Mas liberdade não tem esse cheiro de coisa esquecida. Liberdade não pesa assim no estômago.
Porque não existe estação nenhuma.
Nenhuma plataforma de concreto frio. Nenhum apito distante cortando a tarde. Nenhum painel luminoso anunciando chegadas e partidas. Nenhum banco duro onde eu pudesse me sentar e fingir — por algumas horas, ao menos — que estou à espera de alguém.
À espera de um amor que me atravessasse as vísceras.
À espera do anúncio do meu nome num alto-falante que nunca funcionou.
À espera de que a vida finalmente começasse.
Mas não há trem.
Não há estação.
Não há partida.
Durante muito tempo carreguei a convicção de que estava atrasado para alguma coisa essencial. Via os outros correndo: acumulando metas, fotografias brilhantes, diplomas, filhos, casas, histórias quentes para contar. Pareciam passageiros apressados, arrastando malas pesadas rumo a destinos que realmente importavam.
E eu corri também.
Corri atrás de horários. Corri atrás de promessas. Corri atrás de vagões que só existiam na fumaça da minha cabeça.
Hoje suspeito que o trilho nunca foi construído.
Talvez essa seja a fraude mais antiga da existência: a promessa silenciosa de que, em algum momento, o grande acontecimento virá. Uma curva gloriosa. Um encontro capaz de reorganizar os escombros. Um sentido oculto aguardando pacientemente na próxima estação.
E então os anos passam.
Passam sem pedir licença.
Passam como chuvas de verão sobre telhados velhos: fazem barulho, deixam infiltrações e desaparecem.
O trem não veio.
Pior.
Talvez nunca tivesse sido programado.
A estação enferrujou antes da inauguração. Uma carcaça de metal esquecida ao sol. Um monumento erguido para uma promessa que já nasceu morta.
E a vida não esperou ninguém.
Passou depressa, com a indiferença de quem não reconhece passageiros atrasados. Passou enquanto eu organizava a bagagem. Passou enquanto eu procurava uma razão suficientemente nobre para embarcar. Passou enquanto eu observava um horizonte imóvel, esperando algum sinal.
Nenhum sinal veio.
E ficou apenas isto:
A plataforma vazia do que não foi vivido.
A poeira acumulada sobre caminhos que meus pés jamais percorreram.
O eco distante de partidas que morreram antes mesmo de serem anunciadas.
Sem trem.
Sem estação.
Sem glória.
Sem esperança — essa palavra desgastada, esse mecanismo de adiamento que nos convence a esperar mais um pouco.
Apenas a sensação áspera de permanecer onde sempre estive.
Parado diante de trilhos que não levam a lugar algum, observando uma existência que passou ao longe, silenciosa, sem diminuir a velocidade, sem olhar para trás.