Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.
Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.
Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.
Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.
As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.
A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.
A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.
As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.
A visão é turva. A beleza, não.
Viva.