Hoje não marquei hora com ninguém.
E, ainda assim, alguma coisa em mim continua atrasada.
O relógio está ali, na parede, insistindo em seu ofício de ferro e costume. Move os ponteiros com a compostura de quem acredita no mundo. Mas há muito desconfio dessa elegância mecânica. Ele não conduz. Não salva. Não explica. Apenas passa, como passam os dias, como passam os rostos, como passa tudo o que um dia juramos reter.
Durante anos pensei que a vida estivesse me esperando em algum ponto exato do caminho.
Atrasado para o amor.
Atrasado para a alegria.
Atrasado para mim mesmo.
Via os outros correndo com uma segurança que me humilhava. Tinham destinos dobrados no bolso, compromissos nos dedos, fotografias, alianças, diplomas, datas, tudo muito bem alinhado como se houvesse uma ordem secreta que apenas eu ignorava. Eu, ao contrário, me sentia sempre no lado errado do tempo.
Então comecei a correr também.
Não por convicção.
Por medo.
Porque a imobilidade parece indecente diante da pressa alheia.
Porque ficar parado, hoje, é quase uma forma de culpa.
Corri, portanto, como quem tenta alcançar uma porta já fechada.
Mas o caminho não se esclareceu.
Ao contrário: tornou-se cada vez mais incerto, mais delgado, mais parecido com uma invenção do próprio cansaço. Os marcos se apagavam. As distâncias mentiam. Os mapas se contradiziam com uma serenidade ofensiva. E, no meio dessa neblina, nasceu em mim uma suspeita que eu mesmo evitava nomear.
Talvez ninguém soubesse para onde ia.
Talvez todos estivéssemos apenas repetindo o gesto uns dos outros, como crianças perdidas no escuro que chamam de direção o ruído dos próprios passos.
Foi então que a estação apareceu.
Não a estação de ferro, nem a de telhado gasto, nem a de chegadas e partidas.
Uma estação interior.
Uma ruína com forma de espera.
Sentei-me nela durante anos, como quem aguarda um trem que traria a resposta final, a palavra exata, o amor definitivo, a versão legítima de si mesmo. Esperei com educação, com esperança, com esse tipo de fé que já nasce cansada.
E, enquanto esperava, a ferrugem trabalhou.
Subiu pelas placas.
Tomou os bancos.
Cresceu nos pilares.
Apodreceu a linguagem do anúncio, desfez a promessa das linhas, desarrumou o próprio conceito de partida.
Até que um dia compreendi algo pior do que a falta do trem.
Não havia atraso.
Não havia falha.
Não havia abandono.
Não havia estação.
A ruína não era o resto de uma promessa quebrada.
Era a promessa desde o início.
O vazio não sobreviera depois.
O vazio era a arquitetura.
Fui eu quem lhe deu nome.
Fui eu quem desenhou horários.
Fui eu quem escutou partidas imaginárias e chamou isso de destino.
E, quando essa verdade finalmente chegou, não trouxe consolo.
Trouxe silêncio.
Mas não um silêncio vazio, desses que pedem resposta.
Um silêncio anterior à pergunta.
Um silêncio que não aponta o horizonte, porque já desistiu dele.
Um silêncio que apenas deixa os dias passarem com sua disciplina indiferente, enquanto os anos se infiltram na terra como água sem memória.
Hoje não marquei hora com ninguém.
E já não preciso.
Nem sei que horas são.
O relógio continua na parede.
Mas agora entendo: ele nunca esteve enganado.
Quem exigia direção era eu.