Não queria ter conhecido as pessoas que conheci.
Cada rosto virou um espelho onde algo em mim ia se decompondo aos poucos, silenciosamente, como fruta que apodrece por dentro antes que a casca revele qualquer coisa. Cada encontro foi uma colisão de mundos imperfeitos, orbitando sem sentido ao redor de um centro que nunca estava lá.
Não queria ter sentido o que senti. E o que ainda pulsa nos nervos como febre tardia, essa coisa que não passa quando deveria ter passado. Sentir é uma ferida que recusa cicatrizar. A consciência se debruça sobre ela, examina, mede, disseca, tenta encontrar a lógica da dor como um médico que conhece o diagnóstico e sabe, com a frieza de quem sabe, que não há cura.
Não quero morrer.
Esse talvez seja o dado mais irracional de todos. Não quero morrer, mas viver tem o peso de um naufrágio que nunca termina. Um corpo à deriva que continua se debatendo na água mesmo depois de entender que não existe costa visível em nenhuma direção. Respirar é só prolongar o intervalo entre uma onda e outra. Viver exige uma crença que eu simplesmente não tenho.
Os outros caminham como se o chão fosse sólido. Como se isso fosse um fato e não uma aposta. Mas sob a superfície existe apenas uma crosta fina, e embaixo dela o abismo, paciente, esperando o momento em que alguém olha para baixo por tempo demais.
Não queria ter nascido.
A frase aparece sem drama, quase administrativa. Um erro inicial que desencadeou todos os outros numa sequência que ninguém pediu para ver. Poderia ter sido um aborto. Seria uma interrupção discreta, uma correção silenciosa feita antes que a consciência surgisse para testemunhar o próprio absurdo de si mesma. Mas nem isso. Às vezes parece que houve uma falha ainda mais profunda, como se até o aborto tivesse sido abortado. Como se a matéria tivesse insistido em produzir este corpo contra qualquer razoabilidade disponível. Um aborto do aborto. Um resto biológico da improbabilidade que acordou um dia e descobriu que tinha que existir.
E então a consciência desperta dentro desse resto e começa a observar.
Observa o teatro. As pequenas ambições, as rivalidades que as pessoas levam a sério, as promessas morais erguidas como paredes sobre um vazio que as paredes não conseguem esconder. A consciência observa tudo isso com o cansaço específico de quem vê o truque mas ainda assim assiste ao espetáculo porque não tem mais para onde olhar.
Enquanto isso a luta continua. A luta para não andar se arrastando pelas ruas com a cara de quem perdeu tudo, embora, na contabilidade fria dos fatos, a derrota seja mesmo o estado mais próximo da verdade. A postura ereta é quase uma encenação diária. Uma tentativa de manter a dignidade mínima de um organismo que sabe coisas demais para o próprio bem.
Mas existe um momento em que a derrota parece suspensa.
Quando alguém procura. Quando alguém precisa de alguma coisa, um favor, uma presença, uma utilidade concreta qualquer. Nesses instantes acontece algo curioso: a existência encontra uma função breve, quase mecânica, e isso basta. Ser útil cria a ilusão temporária de vitória. Por alguns minutos a consciência para de girar no próprio eixo. Há tarefa, há direção, há finalidade.
Depois passa.
E o pensamento volta ao que é naturalmente. A observação quieta de que toda essa luta, essa insistência moderna em seguir, melhorar, progredir, levantar todo dia para repetir gestos aprendidos como se fossem espontâneos, pode não ser mais do que isso. Um movimento constante de corpos conscientes tentando justificar, de alguma forma, o fato fundamental e irrespondível de que nasceram sem que ninguém jamais lhes perguntasse se queriam.