18/02/2026

Furta-cor

 Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.

Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.

Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.

Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.

As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.

A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.

A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.

As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.

A visão é turva. A beleza, não.

Viva.

12/02/2026

Despojos

 

Tal qual Macabeia tudo em mim me dói. E tomo, não tão tal qual Macabeia, um grama de dipirona.

Não resolve a causa, mas disfarça o sintoma.
Uma vida com dor não se justifica quando se tem remédio.

09/02/2026

Mentiras sem Esquadros

 Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.


24/01/2026

Brincadeira de criança


Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.

Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.

Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".

No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.

A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.

Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.

A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.

A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.

Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.

E a frase que se impõe não consola nem acusa:

não se tratava de ser desnecessário,

mas de existir apenas como peça provisória,

um encaixe tolerado enquanto cumpria função,

retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.

Como aquela criança no guarda-roupa,

que depois de horas escondida decidiu sair,

não porque foi encontrada,

mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,

e ela era, ao mesmo tempo,

a última a saber

e a única que sempre soube.

22/01/2026

Abissais Existenciais

 Tudo começa com um excesso de luz interna. Não a luz que esclarece, mas a que ofusca. Os pensamentos correm como cardumes em pânico, batendo uns nos outros, produzindo faíscas, promessas, urgências. O mundo parece inflado, dilatado, como se cada segundo carregasse mais possibilidades do que o corpo pode sustentar. Há uma falsa sensação de potência, de expansão, de que algo grandioso está prestes a se revelar — embora nada se revele, de fato. Apenas o ritmo acelera.

A consciência, embriagada de si, acredita por instantes que encontrou uma saída, um sentido, um vértice. Mas essa elevação não é subida; é a beira de um colapso. O chão não desaparece de repente. Ele amolece. Torna-se instável, traiçoeiro, como areia que cede sob o peso da própria confiança.

Então vem a queda. Não um despencar espetacular, mas um afundamento lento, contínuo, para regiões onde a pressão substitui o ar. O fundo do oceano não acolhe, não revela, não responde. Apenas comprime. Cada ideia, antes luminosa, é esmagada até perder forma. Não há escuridão poética ali; há densidade. Um silêncio espesso que não promete retorno.

Nesse nível, a existência mostra sua ossatura: movimento sem direção, dor sem finalidade, esforço sem coroamento. Tudo funciona, tudo pulsa, tudo continua — e nada converge para um porquê. O viver é apenas a persistência de mecanismos que não sabem justificar a própria atividade.

Sísifo empurra a pedra nesse cenário não como símbolo de grandeza, mas como prova de que o mundo se sustenta na repetição vazia. A montanha não é obstáculo moral; é geometria. A pedra não é desafio; é massa. E a ideia de que ele possa ser “feliz” soa como tentativa desesperada de resgatar alguma nobreza onde só há desgaste.

No fundo sem luz, não existe heroísmo. Existe atrito. Existe cansaço. Existe a lucidez de perceber que continuar não transforma o absurdo em sentido, apenas o prolonga.

E a pergunta, inevitável, ecoa como pressão nos ouvidos:

Como imaginar Sísifo feliz,

como me imaginar feliz,

se a própria rolagem da pedra

é a encenação mais bem ensaiada

de uma esperança que finge não ver

que todo esforço retorna ao ponto inicial?

Se a felicidade é possível,

talvez seja apenas outra camada de sedimento

depositada sobre o fundo,

para que não vejamos, com clareza total,

a nudez insuportável do sem-propósito.


21/01/2026

Economia

 A vergonha não nasce do espelho; nasce do inventário. Não é um rosto que me encara, é a soma das omissões. Fui pouco. Tentei pouco. Permiti demais.

Corri tanto e nunca cheguei na frente. Movimento sem destino. Esforço sem centro. Fui uma flecha sem alvo, lançada por um arco que prometia sentido e abortou o propósito no espaço vazio entre a tensão e o impacto.

Aceitei humilhações como quem aceita clima. Confundi sobrevivência com dignidade. O mundo seguiu, ruidoso e oco, como um tambor que bate para esconder o próprio vazio.


20/01/2026

Tambores de África

Todo carnaval tem seu fim, repetem como quem consola a si mesmo, como quem precisa acreditar que a ressaca moral da quarta-feira de cinzas é uma espécie de redenção. Esquecem, porém, que todo carnaval também tem seu começo e que ele retorna pontualmente, como a pedra de Sísifo, rolando de novo montanha acima, indiferente ao cansaço dos que a empurraram no ano anterior. O calendário gira, a serpentina apodrecida vira pó, a fantasia mofada no fundo do armário aguarda sua ressurreição profana. E lá estamos nós outra vez, convocados por um tambor que não pergunta se ainda há fôlego, se ainda há desejo, se ainda há sentido. Apenas chama. E quem está vivo — ou quem ainda simula estar — atende. Na avenida, corpos se chocam como partículas sem destino: suados, pintados, sorrindo com a musculatura da boca, não com a convicção do espírito. Dança-se como quem foge, bebe-se como quem anestesia, beija-se como quem tenta provar a si mesmo que ainda pulsa alguma coisa por dentro. A música repete refrões como mantras vazios: alegria obrigatória, euforia regulamentada, prazer em escala industrial. Mas há os outros. Os que dançam já mortos. Cadáveres funcionais, de olhos abertos, que cumprem o ritual como quem bate ponto numa repartição do absurdo. Rodopiam, riem, levantam os braços, mas por dentro a alma já pediu exoneração. São os que cansaram de empurrar a própria pedra e agora apenas acompanham seu rolamento, ladeira abaixo, com a inércia de quem desistiu de resistir. O carnaval passa, como sempre. Promete esquecimento e entrega apenas mais memória. Promete libertação e devolve rotina. Promete vida intensa e, às vezes, entrega só exaustão. Alguns sobrevivem. Outros continuam andando, falando, dançando — mas já atravessaram, sem cerimônia, a fronteira invisível entre existir e apenas ocupar espaço. E no ano seguinte, se a morte biológica não tiver feito seu serviço, o tambor chamará de novo. A pedra estará lá, no pé da montanha. A ciranda recomeça. Os vivos empurram. Os mortos em pé acompanham. E o carnaval, esse deus indiferente, segue girando, sem se importar se quem dança ainda está vivo — ou apenas treinando para morrer. Como já disseram, “o tambor faz barulho, mas é oco”. E então a pergunta se impõe, sem fantasia que a disfarce: e o quanto de sua existência é vazia de sentido? Só faz barulho para espantar a falta de razão de existir? No fim, quando a última nota se dissolve no ar quente e a quarta-feira tenta impor sua gravidade burocrática, resta a constatação nua e cruel: quem resistiu aos tambores de África?