Hoje pensei em fazer um pudim.
Não fiz.
A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.
Estranhei.
Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.
Mas nunca fiz um pudim.
A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.
Nunca fiz um pudim.
Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.
Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.
É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.
E então deixa de acontecer.
O tempo deposita poeira sobre a ausência.
A ausência ganha contorno.
O contorno ganha aparência de realidade.
Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação. Como bancos de areia formando ilhas no meio de um rio. Ninguém decidiu que ali seria uma ilha. Ela apenas apareceu.
O pudim continuava inexistente.
Os ovos continuavam na geladeira.
O leite condensado continuava no armário.
Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.
No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.
A cozinha permaneceu igual.
O mundo permaneceu igual.