06/03/2026

Presente do indicativo

 Não queria ter conhecido as pessoas que conheci.

Cada rosto virou um espelho onde algo em mim ia se decompondo aos poucos, silenciosamente, como fruta que apodrece por dentro antes que a casca revele qualquer coisa. Cada encontro foi uma colisão de mundos imperfeitos, orbitando sem sentido ao redor de um centro que nunca estava lá.

Não queria ter sentido o que senti. E o que ainda pulsa nos nervos como febre tardia, essa coisa que não passa quando deveria ter passado. Sentir é uma ferida que recusa cicatrizar. A consciência se debruça sobre ela, examina, mede, disseca, tenta encontrar a lógica da dor como um médico que conhece o diagnóstico e sabe, com a frieza de quem sabe, que não há cura.

Não quero morrer.

Esse talvez seja o dado mais irracional de todos. Não quero morrer, mas viver tem o peso de um naufrágio que nunca termina. Um corpo à deriva que continua se debatendo na água mesmo depois de entender que não existe costa visível em nenhuma direção. Respirar é só prolongar o intervalo entre uma onda e outra. Viver exige uma crença que eu simplesmente não tenho.

Os outros caminham como se o chão fosse sólido. Como se isso fosse um fato e não uma aposta. Mas sob a superfície existe apenas uma crosta fina, e embaixo dela o abismo, paciente, esperando o momento em que alguém olha para baixo por tempo demais.

Não queria ter nascido.

A frase aparece sem drama, quase administrativa. Um erro inicial que desencadeou todos os outros numa sequência que ninguém pediu para ver. Poderia ter sido um aborto. Seria uma interrupção discreta, uma correção silenciosa feita antes que a consciência surgisse para testemunhar o próprio absurdo de si mesma. Mas nem isso. Às vezes parece que houve uma falha ainda mais profunda, como se até o aborto tivesse sido abortado. Como se a matéria tivesse insistido em produzir este corpo contra qualquer razoabilidade disponível. Um aborto do aborto. Um resto biológico da improbabilidade que acordou um dia e descobriu que tinha que existir.

E então a consciência desperta dentro desse resto e começa a observar.

Observa o teatro. As pequenas ambições, as rivalidades que as pessoas levam a sério, as promessas morais erguidas como paredes sobre um vazio que as paredes não conseguem esconder. A consciência observa tudo isso com o cansaço específico de quem vê o truque mas ainda assim assiste ao espetáculo porque não tem mais para onde olhar.

Enquanto isso a luta continua. A luta para não andar se arrastando pelas ruas com a cara de quem perdeu tudo, embora, na contabilidade fria dos fatos, a derrota seja mesmo o estado mais próximo da verdade. A postura ereta é quase uma encenação diária. Uma tentativa de manter a dignidade mínima de um organismo que sabe coisas demais para o próprio bem.

Mas existe um momento em que a derrota parece suspensa.

Quando alguém procura. Quando alguém precisa de alguma coisa, um favor, uma presença, uma utilidade concreta qualquer. Nesses instantes acontece algo curioso: a existência encontra uma função breve, quase mecânica, e isso basta. Ser útil cria a ilusão temporária de vitória. Por alguns minutos a consciência para de girar no próprio eixo. Há tarefa, há direção, há finalidade.

Depois passa.

E o pensamento volta ao que é naturalmente. A observação quieta de que toda essa luta, essa insistência moderna em seguir, melhorar, progredir, levantar todo dia para repetir gestos aprendidos como se fossem espontâneos, pode não ser mais do que isso. Um movimento constante de corpos conscientes tentando justificar, de alguma forma, o fato fundamental e irrespondível de que nasceram sem que ninguém jamais lhes perguntasse se queriam.

02/03/2026

Inventário de Ruías

O sol de amanhã chega como um convite que eu não emiti. Existe uma espécie de traição no calor que insiste em atravessar a cortina — ele não aquece, apenas expõe: aqui está você, ainda existindo, contra sua própria vontade.

Eu queria o nada. Não o nada terminal, mas o vazio anterior, o espaço não-ocupado, a página que nunca foi tocada pela mão de ninguém. Olho para o que sou e encontro um projeto arquitetônico abandonado a meio caminho: paredes sem reboco, fiação exposta, portas que abrem para paredes. Sou o erro de cálculo que persistiu em pé por puro acaso estrutural.

É um exercício de contorcionismo existencial, esse de habitar e desabilitar-se simultaneamente. À noite, expando-me como gás tóxico, ocupando quartos que não pedi; ao amanhecer, contrai-me como músculo em cãibra, encolhendo-me dentro da própria pele como quem foge de si mesmo. Durmo como um atlas e acordo como um selo postal — diminuído, adesivo, pronto para ser remetido a lugar nenhum.

Lamento os rostos que depositaram suas digitais no meu vidro. Lamento ter aberto a comporta e deixado que bebessem da água turva da minha atenção. Ofereci-lhes o cardápio inteiro de minha disponibilidade, e eles mastigaram com os olhos fixos no telefone, engoliram sem saborear, deixaram a gorjeta do esquecimento sobre a toalha suja. Eles entraram no meu arquivo pessoal — aquele armário de aço onde guardo os originais com o zelo de um arquivista lunático — e trataram meus documentos como rascunhos. Rasgaram minhas anotações marginais, dobraram minhas certezas ao meio, usaram minhas conclusões para apagar lápis. Saíram deixando portas abertas e luzes acesas, e eu, o tolo, paguei a conta do consumo.

O céu carrega o peso específico da chuva que não cai. O cheiro de ferro molhado invade pela janela — é o odor da possibilidade, do plantio que exige coragem que eu já gastei em outras estações. Seguro as sementes na palma até que suem, até que germinem no calor da minha hesitação, criando raízes que não levam a terra nenhuma. Tenho pavor da colheita porque sei que cada fruto será uma sentença — o gosto metálico de todas as vezes que escolhi não escolher.

O céu está bonito de chuva que não vem, e isso é a ironia suprema: a beleza em potencial, o desastre que se anuncia mas não acontece, a espera que se torna permanente. Um homem para por um instante no meio da calçada, observa o papel amassado no chão, e dá de ombros — porque se nada tem sentido prévio, até o lixo é curadoria.

Mas eu não sou esse homem. Eu sou o papel. Eu sou o amassado, o rasgado, o descartado que ainda tenta ler a si mesmo antes que a chuva chegue e borre a tinta. E a chuva continua suspensa, preguiçosa, molhando outros telhados enquanto eu aguardo aqui, embaixo, me dissolvendo lentamente no ar úmido do que não aconteceu.

O arquivo está aberto. As notas estão rasgadas. O inventário continua — item por item, ferida por ferida, silêncio por silêncio — e eu, o arquivista, o arquivo, o estrago, sigo catalogando a própria ruína com a precisão de quem sabe que ninguém mais lerá este documento.

18/02/2026

Pretérito Perfeito

 Queria amar para sempre quem um dia amei.

Não a pessoa — o estado.

A vertigem limpa de acreditar.

Havia um lugar dentro de mim onde o amor não tinha cálculo. Era puro impulso, quase fé. Eu não sabia do desgaste, não suspeitava da falha. Amar era um gesto sem sombra.

Queria voltar ali.

Mas o tempo não permite regressos; apenas memória. E memória é reconstrução, nunca retorno. O que chamamos de “para sempre” era só ignorância do fim.

Já é tarde.

Não porque o amor tenha acabado — mas porque eu já sei.

E saber corrói a ingenuidade como ferrugem lenta.

Resta a lembrança daquele instante inaugural, quando tudo parecia eterno simplesmente porque ainda não tinha sido quebrado.

Furta-cor

 Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.

Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.

Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.

Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.

As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.

A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.

A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.

As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.

A visão é turva. A beleza, não.

Viva.

12/02/2026

Despojos

 

Tal qual Macabeia tudo em mim me dói. E tomo, não tão tal qual Macabeia, um grama de dipirona.

Não resolve a causa, mas disfarça o sintoma.
Uma vida com dor não se justifica quando se tem remédio.

09/02/2026

Mentiras sem Esquadros

 Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.


24/01/2026

Brincadeira de criança


Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.

Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.

Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".

No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.

A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.

Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.

A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.

A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.

Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.

E a frase que se impõe não consola nem acusa:

não se tratava de ser desnecessário,

mas de existir apenas como peça provisória,

um encaixe tolerado enquanto cumpria função,

retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.

Como aquela criança no guarda-roupa,

que depois de horas escondida decidiu sair,

não porque foi encontrada,

mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,

e ela era, ao mesmo tempo,

a última a saber

e a única que sempre soube.