02/03/2026

Inventário das Notas Rasgadas

   O sol de amanhã é um estranho que eu preferia não ter sido convidado a conhecer. Existe uma náusea doce em olhar para o céu bonito de chuva e perceber que a água não lava o que fomos — ela apenas molha o peso.

Eu queria o nada. Não o nada da morte, talvez, mas o nada de nunca ter ocupado este espaço, de nunca ter sido essa arquitetura mal planejada que hoje habito. Olho para o que sou e vejo um estrangeiro; olho para o que poderia ter sido e vejo um fantasma que desistiu de assombrar por puro cansaço.

É um exercício absurdo, esse de caber e descaber em si mesmo. À noite, sou vasto como o erro; ao amanhecer, sou estreito como uma bota que aperta o pé. Anoiteço de um jeito e acordo outro, e nessa metamorfose sem propósito, perco as chaves de casa estando dentro dela.

Lamento os rostos que cruzaram o meu. Lamento ter aberto a porta e permitido que sentassem à mesa da minha importância. Dei-lhes o banquete da minha atenção e recebi de volta o silêncio de quem mastiga e cospe. Eles entraram no meu arquivo pessoal e, com a indiferença dos deuses ou dos idiotas, rasgaram minhas anotações, mancharam o que eu guardava com o cuidado de um monge.

A tempestade se avizinha. O cheiro de terra molhada é um convite ao plantio, mas eu permaneço com as sementes fechadas na mão. Tenho medo da colheita porque sei que o fruto terá o sabor amargo de cada escolha que eu não soube não fazer.

O céu está bonito de chuva, e isso é o insulto final: a beleza indiferente do mundo diante da minha desimportância. Um homem para um instante, vê o papel rasgado ao chão e dá de ombros — porque se o sentido não existe, o estrago também é uma obra de arte.

Mas, por enquanto, eu apenas descaibo. E a chuva continua caindo, sem pedir licença para molhar o que restou das minhas lembranças.