12/07/2026

Cartografia da Lembrança



Há um momento em que a memória deixa de ser lembrança e vira geografia; Aracaju fez isso comigo.

Já não caminho por suas ruas; caminho por camadas de gente. Cada esquina tem o nome de um rosto cansado do passado; cada semáforo guarda a pressa de avançar o sinal amarelo pra chegar logo ao não destino; cada calçada é um pequeno tribunal onde sou obrigado a depor sobre alguém que já não existe; ou que existe apenas como versão fossilizada dentro da minha cabeça.

Às vezes finjo esquecer. É uma técnica sofisticada; finjo tanto que esqueço; o problema é que, de tanto representar, esqueço que estava fingindo. Então o esquecimento vence a encenação. Até que uma rua qualquer desfaz o truque.

E lá vem.

Fulano.

Beltrana.

A conversa que nunca terminou.

O café.

A briga.

O silêncio.

Até quem já havia me esquecido volta para me assombrar. Não a pessoa. O espectro. É curioso como a memória é arrogante: ela não aceita a reciprocidade do esquecimento. O outro seguiu vivendo; eu continuo tropeçando na sombra que ele deixou.

O coração leva um susto ridículo, como se tivesse visto um fantasma. E talvez tenha visto. Fantasmas não são mortos; são presenças que perderam o corpo, mas conservaram o maldito endereço, a maldita esquina, o beco, a viela.

Então faço o papel de sensitivo cansado; passo por eles fingindo que não os vejo. Quem sabe, ignorados, desapareçam, como crianças que fecham os olhos e pensam que o mundo desapareceu.

Nunca desaparecem.

O inferno não é reviver o passado; é perceber que ele nunca foi embora. Ele apenas mudou de estratégia; deixou de morar no tempo e passou a morar nos lugares.

Não carregar lembranças; ser carregado por elas. Como se cada rua nos atravessasse mais do que nós a atravessamos.

E ainda assim continuo andando.

Não por esperança, não por teimosia.

Mas porque percebi o óbvio: eu não habito Aracaju. Eu habito as memórias que ela me deu. A cidade é só a moldura; o que fica dentro não tem nome que eu queira dar.

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