31/05/2026

Território nunca Visitado


Hoje pensei em fazer um pudim.

Não fiz.

A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.

Estranhei.

Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.

Mas nunca fiz um pudim.

A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.

Nunca fiz um pudim.

Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.

Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.

É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.

E então deixa de acontecer.

O tempo deposita poeira sobre a ausência.

Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.

O pudim continuava inexistente.

Os ovos continuavam na geladeira.

O leite condensado continuava no armário.

Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.

No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.

A cozinha permaneceu igual.

O mundo permaneceu igual.

15/05/2026

Casa de Câmbio


Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.


10/05/2026

Bolo de chocolate

 Bolo de chocolate

Estava eu num domingo molhado, daqueles feitos sob medida para quem acorda com a alma fora do corpo. Chovia aquela chuva miúda que, por aqui, chamam de chuva que molha os bestas. Eu nem liguei. Era besta havia tempo demais. Tinha aprendido a correr para a chuva em vez de fugir dela.

Acordei calculista. Queria morrer, mas sem erro. Passei a manhã pesquisando doses, janelas toxicológicas, sequelas, probabilidades de virar vegetal. Imaginava o cenário: preso numa cama, fedendo, virando osso e merda, boca seca, dentes à mostra, esperando a morte que eu mesmo tentara apressar. O celular, esse cão fiel, me sugou para dentro. Leitura ia, leitura vinha. Até que algo me distraiu: não era veneno de farmácia. Era veneno de dispensa.

Margarina, açúcar, farinha, creme de leite, leite condensado — e mais leite condensado, porque uma vez só nunca basta. Sem planejar, comecei a jogar tudo na batedeira. Joguei amendoim, castanha, uva-passa, ameixas. Bati até a massa ficar homogênea, escura, brilhante. O forno já esquentava. Não queria que o bolo saísse solado como a minha vida.

Enquanto a massa girava, os remédios foram esquecidos na gaveta da mente. De repente eu estava preocupado com o tempo exato de forno, com o palito que sai limpo, com o cheiro que invadia a cozinha. O suicida meticuloso tinha virado cozinheiro ansioso. Era ridículo. Era salvador.

O bolo saiu perfeito: alto, úmido, denso. Fiz três xícaras de café. Pus a mesa com a seriedade de um ritual inventado na hora. Primeira garfada. Primeiro gole. Doce demais. Amargo demais. Vivo demais.

Comi devagar. Para cada xícara, um pedaço. No último farelo, no último gole, eu não estava morto. Estava empanturrado de uma tristeza diferente — aquela que ainda consegue sentir gosto.

Nos dias seguintes, a balança cobrou o preço. Mas valia.

O bolo não cura. Não resolve o carrossel de Tobias, aquele brinquedo velho que rodava praças de cidade pequena em Sergipe, rangendo, fazendo a criança jurar que viajava longe quando, na verdade, dava voltas no mesmo eixo enferrujado.

Mesmo assim, sigo aqui. Barriga cheia, boca com gosto de chocolate. Perdi feio para a vida outra vez — mas perdi com cobertura espessa por cima de um miolo meio solado.

Amanhã a gente vê se o carrossel ainda gira. Por hoje, o bolo venceu.