10/05/2026

Bolo de chocolate

 Bolo de chocolate

Estava eu num domingo molhado, daqueles feitos sob medida para quem acorda com a alma fora do corpo. Chovia aquela chuva miúda que, por aqui, chamam de chuva que molha os bestas. Eu nem liguei. Era besta havia tempo demais. Tinha aprendido a correr para a chuva em vez de fugir dela.

Acordei calculista. Queria morrer, mas sem erro. Passei a manhã pesquisando doses, janelas toxicológicas, sequelas, probabilidades de virar vegetal. Imaginava o cenário: preso numa cama, fedendo, virando osso e merda, boca seca, dentes à mostra, esperando a morte que eu mesmo tentara apressar. O celular, esse cão fiel, me sugou para dentro. Leitura ia, leitura vinha. Até que algo me distraiu: não era veneno de farmácia. Era veneno de dispensa.

Margarina, açúcar, farinha, creme de leite, leite condensado — e mais leite condensado, porque uma vez só nunca basta. Sem planejar, comecei a jogar tudo na batedeira. Joguei amendoim, castanha, uva-passa, ameixas. Bati até a massa ficar homogênea, escura, brilhante. O forno já esquentava. Não queria que o bolo saísse solado como a minha vida.

Enquanto a massa girava, os remédios foram esquecidos na gaveta da mente. De repente eu estava preocupado com o tempo exato de forno, com o palito que sai limpo, com o cheiro que invadia a cozinha. O suicida meticuloso tinha virado cozinheiro ansioso. Era ridículo. Era salvador.

O bolo saiu perfeito: alto, úmido, denso. Fiz três xícaras de café. Pus a mesa com a seriedade de um ritual inventado na hora. Primeira garfada. Primeiro gole. Doce demais. Amargo demais. Vivo demais.

Comi devagar. Para cada xícara, um pedaço. No último farelo, no último gole, eu não estava morto. Estava empanturrado de uma tristeza diferente — aquela que ainda consegue sentir gosto.

Nos dias seguintes, a balança cobrou o preço. Mas valia.

O bolo não cura. Não resolve o carrossel de Tobias, aquele brinquedo velho que rodava praças de cidade pequena em Sergipe, rangendo, fazendo a criança jurar que viajava longe quando, na verdade, dava voltas no mesmo eixo enferrujado.

Mesmo assim, sigo aqui. Barriga cheia, boca com gosto de chocolate. Perdi feio para a vida outra vez — mas perdi com cobertura espessa por cima de um miolo meio solado.

Amanhã a gente vê se o carrossel ainda gira. Por hoje, o bolo venceu.

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