17/06/2026

Necrópolis


A morte nunca me chega como alma.

Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.

A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.

Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.

A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.

Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.

Meu pai, porém, ainda está perto demais.

Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.

E isso me incomoda.

Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.

O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.

A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.

Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.


Nenhum comentário:

Postar um comentário