14/05/2026

Crônica de um inferno íntimo

 Você me pediu para considerar seu existencialismo, seu vocabulário, sua visão de mundo. Eu obedeço: esta crônica não é sobre o amor que acabou, é sobre o amor que nunca começou a ser. Porque o amor que trai não é o que vai embora — é o que fica, mas te transforma em ausência


Me doi me dói ter sido escondido.


Existir já era, antes de ti, um ofício sem manual. Uma condenação à liberdade, diziam os livros que eu sublinhava. Mas havia a ilusão, a pior delas, de que dois projetos de ser poderiam, na contingência absurda de um encontro, construir um pequeno absoluto. Um nós. Chamei isso de amor, mas era só minha ânsia de sentido costurando o teu nome no vazio.


Tu me prometeste o teu. O teu mundo, a tua casa, o teu afeto como território. E eu, condenado a ser livre, escolhi acreditar. Mas o “teu” que me davas nunca era o teu mundo — era um quarto dos fundos. O porão da tua biografia. A facticidade do segredo. Aprendi contigo que o amor que trai não precisa mentir: basta prometer o que não pode mostrar. Tu me davas o inferno com a mesma mão que me chamava de céu.


Me doi não ter sido família.


A família é o primeiro núcleo de reconhecimento, a célula primitiva onde o olhar do outro nos confere existência legítima. Fui mantido do lado de fora, um acidente, uma nota de rodapé que não se lê em voz alta. Tua vida tinha jantares, sobrenomes, álbuns de fotografia — e eu era o recorte que ficava de fora da moldura. Existia apenas no interstício, na hora vaga, no silêncio entre uma mensagem e outra. O inferno, descobri, não é o fogo: é a temperatura ambiente de quem te deixa sempre do lado de fora da porta, com o nariz pressionando o vidro da tua vida, embaçando com meu hálito a imagem da tua liberdade.


E me doi o grito: você jamais conhecerá os meus amigos.


Essa frase não foi dita com raiva. Foi dita como quem informa uma lei natural, um fato da física: a água molha, o fogo queima, você jamais conhecerá os meus amigos. E nesse instante eu soube que o amor, o teu, era uma estrutura fechada. Um clube de acesso restrito onde eu não tinha sequer o direito de aguardar na portaria. Teu afeto era uma performance para uma plateia da qual eu não fazia parte. Eu era o texto que se decora mas não se publica. A vergonha que a luz não podia tocar.


Paramos aqui.


Foi o que disseste, ou o que eu finalmente entendi. “Paramos aqui” é a fronteira onde o projeto do nós se espatifa contra a tua indiferença metafísica. É o limite do absurdo. Existencialmente, o outro é sempre um inferno possível, porque seu olhar me aprisiona, me fixa, me define. Mas tu fizeste pior: teu olhar me apagava. Me definia como indefinível, me fixava como ausência. Teu amor era uma fábrica de solidão. E eu, operário dedicado, produzia o meu próprio desterro.


A vida não vale essa dor.


Esta frase não é uma ameaça, é uma constatação. É a lucidez que vem depois da náusea. De que adianta a liberdade radical de escolher, se escolhi o que me aniquila? Passei a existência inteira acreditando que o sentido se construía no encontro, e o encontro era uma fratura exposta. Mas há um segundo movimento, silencioso e duro como os ossos: dizer que a vida não vale essa dor é, enfim, recusar o inferno como horizonte. É vomitar para fora o veneno doce das tuas promessas. É interromper o circuito de humilhação e negar ao teu olhar o poder de me sequestrar de mim mesmo.


Paramos aqui. E parar é, enfim, o ato mais autêntico da minha liberdade. Não é renúncia ao amor — é renúncia ao teu amor, que nunca foi amor, apenas a tua incapacidade de existir plenamente projetada sobre mim. Que tua vida siga na clausura dos teus círculos impenetráveis. A minha, agora, é este descampado sem cercas. Não é o paraíso, mas é real. E no real, por mais absurdo e sem garantias, não há lugar para ser escondido. Aqui, eu me mostro. Ainda que sozinho. E a vida, agora, começa a valer.

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