27/06/2026

Ponto e vírgula

 

Entramos nas vidas como quem abre uma porta no meio de uma conversa. Acreditamos ter começado histórias, mas é mentira confortável: você não é o livro inteiro, só uma vírgula que apareceu no meio de uma frase escrita há muito tempo. Histórias não começam; se encontram. Dois trilhos paralelos que, por um acaso bobo, um ônibus atrasado, um olhar desviado, se tocam antes de voltar ao próprio rumo.

Quando conhecemos alguém, encontramos um arquivo. Não a pessoa pura, mas o que ela já foi: ex-amores, silêncios ensinados, cidades que ficaram no mapa. E ela encontra os seus destroços também. São dois depósitos de ruínas que se cumprimentam com a cautela de quem já sabe o peso das coisas.

O pior é a síndrome do protagonista: a crença de que somos o centro do mundo, e os outros estão aqui para compor cenário. Não estão. Cada pessoa carrega uma trama inteira onde você talvez não exista. Somos coadjuvantes por geografia, não por humildade. Topografia mesmo.

Por isso, hoje eu tento fazer a pergunta certa: em que ponto da história dela eu apareci? Esse encontro é só um ponto numa linha já traçada, uma coincidência com hora marcada pelo acaso, que, ao contrário de nós, não precisa de aplauso. O trabalho honesto é não atrapalhar a passada. Se tiver sorte, você cruza com alguém no trecho mais interessante. Só isso já basta.

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