18/03/2026

Tropeços cronológicos

 O relógio de parede parou e, curiosamente, ninguém percebeu de imediato. Continuou ali, respeitável, com seus ponteiros imóveis, sustentando uma aparência de ordem. Há objetos que, mesmo mortos, mantêm a pose melhor do que muita gente viva.

Alguém, inevitavelmente, repete a máxima: “mesmo parado, ele acerta duas vezes ao dia”. A frase tem o charme das ideias que parecem profundas justamente por não serem examinadas. Funciona como consolo intelectual para a falha, quase uma absolvição.

Mas o relógio não acerta. Ele coincide.

Há uma diferença estrutural aí que costuma ser ignorada. Acertar implica acompanhar, ajustar-se, responder ao tempo. Coincidir é outra coisa, é estar imóvel enquanto o mundo, por acaso, passa pelo mesmo ponto. O mérito, se há algum, não é do relógio, é do tempo que continua, indiferente, fazendo o trabalho sozinho.

Dizer que o relógio parado “acerta” é como elogiar uma pedra por estar no lugar certo quando alguém tropeça nela. A pedra não antecipou nada, não calculou nada. Apenas estava.

Sem outro relógio funcionando, ninguém saberia dizer que horas são olhando para aquele mostrador congelado. Ele não informa, ele sugere, e sugere sempre a mesma coisa. Um instrumento que não diferencia instantes não mede tempo, no máximo encena a ideia de medida.

Ainda assim, há certo conforto em mantê-lo na parede. Ele organiza o espaço, cria a ilusão de continuidade, como se o tempo estivesse ali, domesticado. Talvez seja isso que realmente se defende quando se repete a frase, não o relógio, mas a necessidade de acreditar que até o que falha conserva algum vínculo secreto com o acerto.

Não conserva.

O relógio parado não está certo duas vezes ao dia. Está permanentemente desligado daquilo que pretende representar. E quando, por coincidência, o mundo passa por aquele mesmo número, o que ocorre não é um acerto, é um encontro fortuito entre um sistema que funciona e outro que desistiu.

No fundo, o relógio parado não é um erro ocasional. É a negação contínua do próprio propósito, disfarçada de precisão eventual. E isso, longe de ser reconfortante, é apenas uma forma elegante de inutilidade.

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