O sol de Sergipe entra pela janela como um ferro em brasa, grudando o ar no corpo, tornando cada respiração uma rendição preguiçosa. É um dia desocupado, desses que o calendário entrega de bandeja, sem textos para dissecar em camadas de ironia ou melancolia. Sento na cadeira rangente, o ventilador girando preguiçoso no teto, e o celular vira âncora. Dedos deslizam, rolam feeds infinitos: memes que riem de nada, notícias que mastigam o mundo em pedaços indigeríveis, stories de vidas alheias que brilham como falsas constelações. É seguro aqui, na tela. O polegar sabe o caminho, automático, hipnótico, como quem foge de um precipício fingindo admirar a vista.Mas o medo não mente. Ele sussurra primeiro, um zumbido baixo sob as notificações, depois grita — uma voz interna que não aponta para lugar nenhum, só para o vazio que engole tudo. Tristeza sem nome, ecoando insignificância como um grito num poço seco, onde cada eco multiplica o silêncio em vez de preenchê-lo. Decadência que se alastra devagar, nos vincos da pele enrugada pelo calor, na pilha de livros intocados na mesa, nas promessas de projetos que viram fantasmas pálidos, pairando como névoa sobre o que poderia ter sido. Falta de sentido? Não é falta, é excesso: o mundo transborda em pixels vazios, e eu, preso, rolo mais uma vez, como se o próximo vídeo pudesse remendar o buraco que se abre no peito, um vazio que não pede explicações, só devora as que inventamos para nos iludir. Parar seria olhar para dentro, encarar o abismo que devolve o olhar com um bocejo indiferente, revelando não um propósito grandioso, mas a teia frágil de rotinas que tecemos para não desabar — rotinas que, no fim, só adiam o inevitável confronto com o nada que nos constitui. E nesse adiamento reside o veneno doce: cada scroll é uma vitória pírrica sobre o silêncio, cada like um aplauso para o ator solitário no palco vazio, onde o sentido finge existir só porque os holofotes ainda piscam. Mas e se o teatro todo for só ilusão? A voz grita mais alto agora, não com raiva ou desespero, mas com uma indiferença cruel, ecoando que somos poeira dançando no vento quente, insignificantes não por maldade do cosmos, mas por sua absoluta indiferença a nossas narrativas frágeis.De repente, o olho cai na cozinha. A pia está cheia de pratos, empilhados como ruínas de banquetes esquecidos — restos de arroz endurecido, xícaras com círculos de café como auréolas profanas. Enquanto houver pratos, haverá procrastinação. Lavo um? Não, amanhã. Amanhã o sol não queima tanto, amanhã a voz cala, amanhã o celular solta um elixir que preenche o vazio. Mas o absurdo mora aí: os pratos se multiplicam sozinhos, ou será que eu os invento para não enfrentar o silêncio? Um prato a mais, uma notificação a menos, e o dia escorre pelo ralo, quente e inútil. O ventilador gira, o sol ri, e eu, rei do nada, continuo rolando
talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
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