talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
20/01/2026
Paleolitico
Empurro uma pedra que o mundo não encomendou.
A montanha não responde. O chão esquece meus passos.
Sou grão que não soma,
areia que não constrói deserto algum.
Cada manhã o mesmo peso.
Cada noite o mesmo lugar.
No fundo, não é a solidão que dói —
é perceber que tem paredes.
Somos casas sem portas,
janelas pintadas por dentro.
De um cômodo gritamos para o outro.
De um corpo chamamos outro corpo
e a voz volta
como pedra atirada contra pedra.
Queremos ser dois em um.
A física diz: um em um,
cada qual empurrando sua carga,
cada qual chamando de amor
o instante em que as pedras se tocam
antes da gravidade separar outra vez.
E ainda assim seguimos.
Não como Sísifo — ele tinha deuses testemunhas,
tinha mito, tinha nome no mármore do tempo.
Nós empurramos no anonimato,
por teimosia de osso,
por essa recusa sem grandeza
de aceitar que o vazio basta.
A pedra rola.
Nós atrás.
Chamamos isso de sentido
porque não temos outro nome
para o hábito de não largar.
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