O cansaço não começa no corpo; começa no ouvido. No ouvido que aprende cedo o som circular das brigas de família: frases que voltam, acusações requentadas, silêncios que não encerram nada. Discussões que não nascem de ideias, mas de restos. Nada se resolve porque nada está em disputa de verdade. É luta sem objeto. Boxe no escuro. A voz sobe, a razão desce, e o tempo — esse — fica parado, olhando com tédio.
Essas brigas não constroem nem destroem: ocupam. São o mofo das relações. Pequenas, mesquinhas, previsíveis. Têm cheiro de café frio e gosto de domingo desperdiçado. A vida passa nelas como passa um trem que não paramos para ver: rápida, barulhenta, inútil. Discute-se o tom, o gesto, o passado reciclado. Nunca o essencial. Nunca o agora. Nunca o que dói de fato. O cansaço vem daí: de gastar existência com ruído.
A infância é esse chão rachado que seguimos pisando, mesmo adultos, mesmo cansados. Não porque queremos, mas porque aprendemos o caminho. A briga também é herança: repete-se com a mesma coreografia pobre, os mesmos papéis mal distribuídos. Briga-se como se respira, por hábito. E o absurdo maior não é a discórdia — é insistir nela, sabendo que não leva a lugar algum. O cansaço, então, vira estado permanente. Não é exaustão: é lucidez tardia. A percepção amarga de que há lutas que não são fracassadas — são desnecessárias desde o início.
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