13/01/2026

Um abraço suspenso no ar

 Minha mãe no oítão, escorada no cabo de vassoura, conversando sem pressa, como se qualquer mudança no mundo tivesse a obrigação de esperar o fim daquela prosa. O fim da tarde espalhava seu dourado pelo terreiro como quem avisa que está indo embora. Ao me aproximar do terreiro, com o choro vindo sem explicação, senti aquele desajuste interno que eu não sabia nomear. Ela não perguntou nada. Apenas me puxou para o colo, sem alterar o compasso da conversa, me embalando como se o meu desalento fosse parte orgânica daquele dia que acabava.


Eu me lembro do instante sem nome. Não era dor de machucado, não era medo, não era tristeza simples. Era outra coisa, leve e pesada ao mesmo tempo, um pressentimento que escorria por dentro como o próprio fim da tarde. Todo pôr do sol, desde então, me parece uma facada a mais ou a menos. O tempo sangra, e o sangue é essa luz dourada que se espalha antes de desaparecer. Naquele dia, eu não sabia disso. Só sentia a lâmina entrando em silêncio.


Foi naquele embalo distraído que percebi a aproximação dessa coisa sem corpo. Não se revelava, apenas se insinuava. Um arrepio interno, uma espécie de vazio que não doía, mas também não poupava. O sol se esvaía pelas árvores, e eu tinha a impressão de que o mundo ficava grande demais para mim. Como se a luz estivesse se despedindo não só do dia, mas de alguma parte minha que eu nunca recuperaria completamente.


A sensação não tinha forma, não tinha origem, não oferecia explicações. Era pura preconsciência. Um aviso mudo vindo de um ponto que eu ainda não alcançava. O crepúsculo me tocava o peito como quem diz, sem dizer, que toda existência carrega uma sombra anterior ao entendimento.


No colo da minha mãe, não encontrei consolo, mas um contraste brutal. O calor dela tornava mais nítido o frio que se enfiava em mim, como se o abraço iluminasse o próprio abismo. A noite avançava, e eu intuía, muito antes da idade permitir, que tudo podia se apagar de repente. Que a vida não tinha obrigação de devolver nada do que tirava.


A criança que eu era não compreendia, mas sentia. E naquela mistura de medo, silêncio e luz agonizante, fui apresentado à profundidade sombria da vida. O primeiro toque do inexplicável. A primeira suspeita de que existir é sempre assistir ao sangue do tempo correndo enquanto o sol nos banha em dourado pela última vez naquele dia. Cada tarde uma lâmina, cada poente o lembrete de que a luz não dura.

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