Todo carnaval tem seu fim, repetem como quem consola a si mesmo, como quem
precisa acreditar que a ressaca moral da quarta-feira de cinzas é uma espécie de
redenção. Esquecem, porém, que todo carnaval também tem seu começo e que ele
retorna pontualmente, como a pedra de Sísifo, rolando de novo montanha acima,
indiferente ao cansaço dos que a empurraram no ano anterior. O calendário gira,
a serpentina apodrecida vira pó, a fantasia mofada no fundo do armário aguarda
sua ressurreição profana. E lá estamos nós outra vez, convocados por um tambor
que não pergunta se ainda há fôlego, se ainda há desejo, se ainda há sentido.
Apenas chama. E quem está vivo — ou quem ainda simula estar — atende. Na
avenida, corpos se chocam como partículas sem destino: suados, pintados,
sorrindo com a musculatura da boca, não com a convicção do espírito. Dança-se
como quem foge, bebe-se como quem anestesia, beija-se como quem tenta provar a
si mesmo que ainda pulsa alguma coisa por dentro. A música repete refrões como
mantras vazios: alegria obrigatória, euforia regulamentada, prazer em escala
industrial. Mas há os outros. Os que dançam já mortos. Cadáveres funcionais, de
olhos abertos, que cumprem o ritual como quem bate ponto numa repartição do
absurdo. Rodopiam, riem, levantam os braços, mas por dentro a alma já pediu
exoneração. São os que cansaram de empurrar a própria pedra e agora apenas
acompanham seu rolamento, ladeira abaixo, com a inércia de quem desistiu de
resistir. O carnaval passa, como sempre. Promete esquecimento e entrega apenas
mais memória. Promete libertação e devolve rotina. Promete vida intensa e, às
vezes, entrega só exaustão. Alguns sobrevivem. Outros continuam andando,
falando, dançando — mas já atravessaram, sem cerimônia, a fronteira invisível
entre existir e apenas ocupar espaço. E no ano seguinte, se a morte biológica
não tiver feito seu serviço, o tambor chamará de novo. A pedra estará lá, no pé
da montanha. A ciranda recomeça. Os vivos empurram. Os mortos em pé acompanham.
E o carnaval, esse deus indiferente, segue girando, sem se importar se quem
dança ainda está vivo — ou apenas treinando para morrer. Como já disseram, “o
tambor faz barulho, mas é oco”. E então a pergunta se impõe, sem fantasia que a
disfarce: e o quanto de sua existência é vazia de sentido? Só faz barulho para
espantar a falta de razão de existir? No fim, quando a última nota se dissolve
no ar quente e a quarta-feira tenta impor sua gravidade burocrática, resta a
constatação nua e cruel: quem resistiu aos tambores de África?
talvez e só talvez, a poesia salve alivie as dores da alma entre tantos espinhos que nos espetam.
20/01/2026
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