19/01/2026

Ponto de Ônibus

Minha mãe repetia, como um axioma doméstico, que cinquenta por cento de algo ainda é melhor do que cem por cento do nada. Filosofia de prataria herdada, economia do afeto. Mas minha sobrinha, essa, trazia uma matemática nova no sangue. Sabia com o corpo inteiro — pressa nos tendões, vaidade ainda úmida nos lábios, hormônios em estado de sítio. Tudo nela proclamava, numa ignorância límpida e soberana, que não se contentava com a metade. Que metade era excesso. Que o seu bastante era o nada, esse nada cheio de futuro, esse vazio por onde a vida irrompe, intacta. Eu, então, recolhi-me. Fiz de mim um resto, um canto de sala por onde se passa a caminho de outro lugar. Deixei-a partir, e uma parte de mim — a que ainda acreditava em portos — partiu com ela. Sem direito a retorno, sem recibo, sem a caução mínima de uma memória afetiva. Não ficou em mim um porto. Porto é geografia da permanência, enseada, abrigo final. Ficou um ponto de ônibus. Esse não-lugar de concreto e lata, abrigo estreito onde as coisas não ancoram: apenas esperam. Vez ou outra, os mesmos passageiros, as mesmas passagens compradas com moedas de desatenção, os mesmos itinerários pré-fixados. Em mim, tudo se repete como cansaço. Como círculo vicioso. Como a sina de quem nunca verdadeiramente sai. Tenho servido de ponto de ônibus — ou, na linguagem burocrática da cidade, de abrigo — para uma linhagem de parentes e aderentes emocionais. Chegam, encostam o peso do dia, aquietam a dor por um instante, partem. Rechicoteiam na minha existência. Testam, com o pé, se a plataforma ainda está firme. Balançam o braço, gesto imperioso, quando desejam que o veículo de suas vidas pare. E eu paro. Sempre paro. Às vezes, sou também o motorista cego: conduzo sem conhecer o mapa, levo cargas sem perguntar o destino, vejo descer na esquina errada justamente aquele que eu queria que permanecesse a bordo. Quiçá seja um palhaço sem picadeiro, fazendo graças para a plateia já dispersa. Um tio-ônibus, um tio-abrigo. Um laço que apodreceu na gaveta, muito antes de dar flor. A solidão que me constitui não é líquida, nem gasosa, nem passageira. É sólida. Sólida como parede de porão, como laje de fundação, como chão que cede sem ruído. Cheguei à adolescência por um mergulho direto nessa matéria, atirado num picadeiro onde o número principal era compreender — cedo demais — que metade é farsa quando o que se anseia é o inteiro. Ninguém, porém, me deu o manual dessa compreensão. Ninguém me disse que pontos de ônibus também envelhecem. Que a tinta descasca, que o banco de madeira racha ao meio, que um dia os itinerários mudam e ninguém mais espera ali. Que existem solidões que se tornam paisagem: estão tão integradas ao cenário que ninguém as vê. Permaneço. Um abrigo fora de rota, esquecido na periferia de todos os mapas. E quando a chuva vem — a chuva de verdade, aquela que não pede licença — descubro, por fim, a minha derradeira ironia: nem a mim mesmo sirvo de cobertura. A água encontra suas fendas, corre pelo concreto gasto, e eu fico ali, oferecendo um refúgio que não me inclui, ponto final de uma linha que talvez não exista mais.

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