15/05/2026

Casa bancária

 Chamavam aquilo de amor porque faltava coragem para chamar de empréstimo. Entregamos a alguém os móveis mais caros da casa: o futuro, a rotina, a versão da gente que parecia, enfim, tolerável. Depois ficamos esperando um recibo. Fidelidade. Coerência. Qualquer prova de que o investimento não foi só mais um gesto humano tentando negociar com o acaso.

O erro nunca foi só amar alguém ruim. Gente ruim existe com a mesma banalidade dos dias úmidos. O erro mais sutil foi forrar essa pessoa por dentro: polir defeitos até virarem profundidade, chamar ausência de mistério, egoísmo de ferida, crueldade de confusão. Há um artesanato desesperado nisso — fabricar caráter onde havia só conveniência.

E um dia a máscara cai, mas sem barulho. Máscaras raramente caem de repente; elas se dissolvem devagar até mostrar algo decepcionantemente comum. E o comum dói mais. Seria quase confortável encontrar um monstro. Difícil é descobrir alguém medíocre na ética, pequeno nas promessas, previsível nas fugas. O desastre costuma ser menos cinematográfico do que esperávamos.

A perda verdadeira não é só da pessoa.

É daquela criatura que existia enquanto amávamos. O sujeito que fazia planos, que aceitava esperar, que suportava humilhações pequenas por uma grande narrativa futura. Morre uma identidade inteira. Há luto por versões de si que só respiravam ao lado de outro.

Talvez o mais ofensivo seja perceber que parte do que chamávamos "eu" dependia do reflexo nos olhos de alguém.

Depois sobra um inventário estranho.

Não apenas: "quem era ele?"

Mas: "quem fui eu para acreditar nisso?"

Essa pergunta vem carregada de desprezo, como se ingenuidade fosse crime, esperança falha de caráter.

Não é.

Idealizar é, às vezes, uma forma elegante de abandonar a realidade antes que ela te abandone.

Maturidade talvez não seja ficar frio; é aprender a olhar alguém inteiro. Sem salvar. Sem traduzir defeitos em poesia. Sem transformar escassez moral em profundidade.

Há dores que passam.

Outras deixam simplesmente de pedir explicação.

Chega um ponto em que não se sente falta nem da pessoa nem dos planos. Sente-se falta da antiga ignorância, da facilidade de acreditar — porque acreditar era um descanso.

Depois disso, amar deixa de ser cegueira.

Vira observação.

Menos encantamento.

Mais lucidez.

A lucidez raramente consola. Mas, ao menos, para de mentir

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