04/08/2026

Cobre por Cobre

 Há sobretudo em mim a inveja dos amigos que nunca tive.

Não dos que aparecem nas fotografias de aniversário, nem dos que distribuem abraços com a generosidade de quem distribui panfletos. Invejo os gratuitos. Essa espécie rara de gente que chega sem cálculo, permanece sem contrato e parte sem deixar uma fatura sobre a mesa.

Nunca soube o que era isso.

Cada amizade que me atravessou trouxe consigo uma praça de pedágio. Paguei em tempo, em escuta, em favores, em paciência. Houve amizades que custaram fins de semana; outras, pedaços inteiros de mim. E eu pagava com uma diligência quase religiosa, como se o preço fosse a prova de que o afeto existia.

Paguei cobre por cobre.

Talvez seja essa a forma mais discreta da solidão: descobrir que algumas pessoas nos querem por perto, desde que continuemos úteis. A utilidade é uma máscara curiosa; veste-se de carinho durante o dia e, à noite, revela o uniforme de cobrador.

Ainda assim, não me tornei amargo. No máximo, adquiri o humor melancólico dos que aprenderam a rir da própria ingenuidade. Se um desconhecido me oferece um café sem segundas intenções, quase procuro a câmera escondida. A gratuidade me parece uma teoria bonita, dessas que funcionam melhor nos livros do que nas esquinas.

Meu mal não é a falta de amigos.

Meu mal é a inveja dos amigos que não fiz. Dos que talvez existam apenas na hipótese, como tantas outras coisas que poderiam ter salvado uma vida e, por um desencontro ridículo de calendários, ônibus ou timidez, jamais aconteceram.

No fim, talvez morrer seja a maior das liberdades.

A escravidão é passar a vida inteira com as moedas na mão, disposto a pagar por companhia, e descobrir, tarde demais, que o único afeto que valia a pena nunca esteve à venda.