28/03/2026

Reticentes Recorretes

A minha mãe nunca disse que não podia. Nunca disse que não tinha. Ela apenas demovia sorrateiramente a vontade que eu tinha de qualquer coisa. Ela ia porfiando pelas beiradas, metia defeitos, procurava jeito qualquer que fosse para me dizer que o que eu queria não servia de nada. Era apenas um capricho de criança. E nisso eu perdia a vontade do que quer que fosse.


Nisso eu fui aprendendo a querer pouco. E acabei sendo pouco também.


Quando a gente fazia aniversário ela deixava claro que pobre não fazia aniversário. Pobre completa ano. Ignorando ela que aniversário era justamente isso. A gente não tinha era festa de aniversário, presente de aniversário e nem um feliz aniversário.


A miséria nos ensinava que querer era errado e que não poder era a norma.


Ela nunca disse um lacônico não!


Ela arrodeava, me fazia cismar, e duvidar do que eu queria. Vacilava e mudava o tino. Ia para outras coisas que o menino em mim me permitiam. Permitiu tão pouco a bem da verdade. Eu me sentia como um passarinho que não sabia voar. Mas me viam como um menino cheio de azedume, endemoniado. Não a minha mãe. Os outros que saíram dela.


Eu era uma carta deslocada, alguém que não deveria estar ali.


Hoje, com minhas cãs, ainda tenho que forçar, empurrar, demandar força para existir desencaixado daqueles próximos de sangue e longe de existência.


Sou forte. Minha mãe embora me demovesse de minhas pequenas ambições infantis fez de mim um homem forte. Ainda que queira pouco, ainda que saiba pouco, ainda que a vida seja pouca e sem sentido, eu me esforço para andar com a cabeça erguida e para não viver sob olhares presunçosos de grandeza moral inexistente.


Eu sou filho da paixão. Talvez o único ato louco e passional porque ela passou.


Eu passei por tantas paixões loucas e transitórias que tenho pena de quem nunca as experimentou de verdade com medo de deus, esperando uma recompensa de um mundo que seria completamente entendiante. Como é bom não precisar de deus para ser bom. Como é bom imaginar uma deusa-mãe que lhe dá colo e não promete castigar por não viver o roteiro que escreveram para você.


Hoje, de novo, não tem festa de aniversário, apenas aniversário; mais pela minha falta de habilidades sociais do que pela miséria.


De qualquer modo tem aniversário.


Afetos completamente desorganizados, mas cheios de emoções paralelas.


Janelas abertas, portas fechadas.


Um pôr do sol que pincela de amarelo alaranjado meu fim de tarde e que escurece junto com minha alma.


Todo dia é essa agonia, ou essa aventura.


Meu deus que criatura!

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