21/07/2026

Da Amizade

 

A amizade talvez seja o vínculo mais mal compreendido que existe.

Gostamos de acreditar que ela nasce de afinidades profundas, de encontros raros, de algum reconhecimento secreto entre duas pessoas. Mas basta observar um pouco. A maioria dos amigos compartilhou primeiro um endereço, uma rotina, um horário ou um inconveniente. O resto veio depois, como as plantas que crescem nas rachaduras do concreto e nos fazem esquecer que a rachadura veio antes da planta.

Sempre me intrigou a facilidade com que as pessoas pertencem umas às outras. Elas entram em um lugar e, pouco tempo depois, parecem fazer parte dele. Eu nunca consegui esse tipo de adaptação. Os ambientes sempre me receberam como quem tolera um visitante. Aprendi a conversar, a rir no momento certo, a participar. Não porque me sentisse dentro, mas porque o lado de fora também exige etiqueta.

Há quem diga que isso é solidão. Não sei. Solidão pressupõe a falta de alguma coisa. Eu nunca soube se me faltava algo ou se apenas enxergava um mecanismo que os outros preferiam ignorar.

As amizades também obedecem a esse mecanismo.

Enquanto existe um chão comum, elas respiram. O trabalho. A universidade. A infância. A vizinhança. Quando o chão desaparece, quase sempre o vínculo desaparece junto. Não porque alguém tenha traído alguém. Apenas porque a estrutura que sustentava o encontro deixou de existir. Chamamos isso de afastamento, como se houvesse um culpado. Talvez nunca tenha havido aproximação suficiente.

É estranho. Passamos a vida inteira cercados de relações que dependem de circunstâncias, mas insistimos em chamá-las de escolhas.

Ainda assim, de tempos em tempos, acontece um erro.

Alguém permanece.

Não permanece porque precisa. Nem porque você precise. Permanece apesar da completa ausência de necessidade. Como se duas consciências, condenadas a jamais dividir a mesma experiência, decidissem continuar orbitando uma à outra sem esperar que a distância diminuísse.

Não vejo beleza nisso.

Vejo apenas uma exceção.

E talvez a amizade seja exatamente isso: uma exceção sem promessa, sem finalidade e sem garantia de durar. Ela não derrota o isolamento. Não cura o desencontro entre uma consciência e outra. Apenas o contradiz por algum tempo.

Depois, como quase tudo, segue o seu caminho.


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