Há um equívoco antigo, repetido com a solenidade das mentiras necessárias: dizem que duas pessoas se completam. Nunca acreditei nisso. Ninguém completa ninguém. O que existe é uma lenta amputação consentida.
Viver a dois é viver pela metade.
É descobrir que até a sede deixa de ser sua. Bebe-se o refrigerante que o outro prefere porque já não vale a pena discutir o gosto das pequenas coisas. Depois vêm as grandes. Escolhe-se o filme que não se queria ver. Ri-se da piada que não teve graça. Assiste-se à série vazia, construída para preencher o tempo de quem desaprendeu a suportar o silêncio. E assim os dias passam: um episódio após o outro, enquanto a própria vida permanece pausada.
Viver junto é a pedagogia da renúncia. Renuncia-se ao horário, ao lado da cama, à temperatura do quarto, ao caminho de volta para casa. Renuncia-se até ao direito de sentir fome. Parte-se o pão ao meio para alguém que sequer queria pão. E come-se a metade restante sem saber se era fome ou apenas o reflexo de repartir.
Há uma violência discreta em toda convivência. Não a violência dos gritos, mas a das pequenas concessões. A violência de abandonar uma vontade por dia até já não reconhecer quais eram as próprias vontades. O amor, quando dura, muitas vezes parece apenas a administração eficiente dessas desistências.
E há o corpo.
O corpo talvez seja o primeiro a desertar. Antes das palavras, antes das brigas, antes mesmo da coragem de admitir o fracasso, é ele quem parte. O sexo, que um dia pareceu uma linguagem, transforma-se lentamente num idioma morto. Os toques tornam-se protocolares. Os beijos aprendem a duração exata da obrigação. O desejo deixa de ser encontro e passa a ser lembrança.
Porque o tesão raramente morre. Apenas muda de endereço.
Morre no parceiro e renasce naquilo que ainda não aconteceu. Na mulher que passou na rua. No homem sentado do outro lado do restaurante. Na colega de trabalho. No estranho do metrô. Ou, mais frequentemente, em ninguém de concreto. Apenas numa possibilidade. Numa fantasia sem rosto. Num corpo inventado que jamais terá o peso da realidade.
Somos seres faltantes. Desejamos precisamente aquilo que nos escapa. O que possuímos deixa de ser objeto do desejo porque a posse dissolve a ilusão. O desejo vive da distância, da impossibilidade, daquilo que ainda pode ser qualquer coisa. A realidade é sempre menor do que a imaginação.
Talvez a monogamia não seja a vitória sobre o desejo, mas apenas um acordo para fingirmos que ele obedece. O corpo assina um contrato que a fantasia jamais leu. O olhar continua demorando-se onde não deveria. A imaginação continua fabricando encontros impossíveis. O desejo permanece indisciplinado, indiferente às alianças, aos votos e às fotografias felizes.
Continuamos dividindo a cama enquanto cada um sonha sozinho. Dois corpos lado a lado, separados por um continente invisível. A intimidade, com o tempo, deixa de ser proximidade e passa a ser geografia. Aprende-se exatamente onde termina a perna do outro, mas nunca onde começa seu abismo.
Viver a dois é também negociar o irrenunciável. Não apenas o filme, a música, o refrigerante ou o pão. Negocia-se o próprio desejo. Negocia-se a liberdade de imaginar. Negocia-se o silêncio. Negocia-se o tempo. E, pouco a pouco, negocia-se a si mesmo.
Há quem chame isso de maturidade.
Talvez seja apenas desgaste.
Talvez amar seja apenas a forma socialmente aceita de perder pequenas partes de si sem fazer escândalo.
A solidão, porém, não desaparece quando chega outra pessoa. Ela apenas muda de lugar. Sai da sala e passa a dormir entre os dois travesseiros. Aprende a respirar no mesmo ritmo do casal. Torna-se educada, discreta, quase invisível. Mas continua ali.
Talvez esse seja o destino de toda intimidade: descobrir que ninguém entra realmente na vida de ninguém. Recebemos visitas. Nunca habitantes. Há sempre um quarto trancado dentro de cada pessoa, um território sem mapas, onde nem o amor, nem o sexo, nem a convivência conseguem entrar.
No fim, viver a dois é viver pela metade.
Metade das escolhas. Metade dos desejos. Metade da liberdade. Metade da mesa. Metade da cama. Metade do pão.
E, paradoxalmente, o dobro da solidão.
Porque passamos a carregar não apenas a nossa, mas também a do outro.
E talvez seja esse o maior absurdo da existência: procuramos alguém para nos salvar da solidão e acabamos descobrindo que ela é a única companheira verdadeiramente monogâmica. Nunca nos trai. Nunca nos abandona. Apenas espera, pacientemente, que o amor termine de prometer aquilo que jamais poderia cumprir.
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