Moro nesta casa há mais tempo do que moro em mim.
Se me vendam os olhos, não encontro a cozinha. Hesito diante do corredor. Procuro o interruptor como se fosse visita. Há anos moro aqui. Ainda não decorei a casa.
Comigo aconteceu algo pior.
Fecho os olhos e também não sei onde estou.
Não sei onde começa o coração. Não sei por que os pulmões insistem. O sangue atravessa um mapa que nunca vi. Há uma geografia inteira acontecendo sem mim.
Viver talvez seja isso: um organismo trabalhando para um desconhecido.
Nunca aprendi o caminho até mim. Aprendi apenas os desvios.
Às vezes cozinho. Corto, tempero, provo. No fim, como uma comida que não reconheço. O gosto sempre chega antes ou depois de mim. Nunca comigo.
Dizem que o corpo é a única casa da qual não podemos nos mudar.
Talvez.
Mas ninguém diz que também é possível nunca entrar.
Passei mais tempo dentro deste corpo do que dentro de qualquer outra casa.
E, ainda assim, se me pedissem para voltar para mim de olhos fechados, eu morreria perdido no caminho.
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