Sempre morei em mim. Sozinho.
Dizem que sou um lugar bonito. Nunca soube. Um lugar não pode contemplar a própria paisagem. Toda casa ignora o rosto que oferece à rua. Vejo-me apenas pelas frestas tortas do meu próprio olhar, sempre enviesado, sempre suspeito. Para mim, as cortinas permanecem cerradas. A luz, quando entra, chega cansada.
As pessoas insistem em dizer que sou um lugar bonito. Curioso. Porque quase todas me fizeram sentir exatamente o contrário.
Talvez esse lugar de que falam exista. Mas não é a casa inteira. É o quartinho dos fundos. O cômodo onde se empilham objetos sem serventia imediata. Onde se guarda aquilo que não se tem coragem de jogar fora, mas também não se deseja por perto. Um lugar que só recebe visitas por acidente ou necessidade.
Tenho sido esse quarto.
Esquecido, mas nunca vazio.
Habitado apenas pelas coisas que os outros abandonaram em mim.
Amei a poesia que eu era quando estava com você.
Não apenas a poesia que escrevia. A poesia que respirava. A maneira como meu peito parecia menos pesado quando sua voz atravessava o silêncio. Amei quem eu me tornava sob a luz da sua presença. Talvez eu nunca tenha amado alguém sem antes amar a versão de mim que esse alguém permitia existir.
Agora estou magoado.
Estou com medo.
Mas até isso morrerá.
Tudo morre.
A dor morrerá. A saudade morrerá. Você morrerá. Eu morrerei. O planeta continuará girando por algum tempo, até que também desapareça sem deixar endereço. O universo jamais saberá que estivemos aqui tentando dar nome ao que doía.
Há um estranho consolo nisso.
Nada importa o bastante para sobreviver ao tempo.
E, ainda assim, tudo pesa demais enquanto dura.
Todas as manhãs abraço a minha insignificância como quem veste um casaco molhado. Ela pesa sobre os ombros, sobre os olhos, sobre os gestos mais simples. Caminho tentando parecer inteiro enquanto arrasto um corpo convencido de que perdeu alguma coisa que nunca chegou realmente a possuir.
As flores secarão.
A raiva também.
O medo também.
Até a memória daquilo que hoje me destrói acabará reduzida a uma poeira sem nome.
Quem sabe um dia encontremos outras flores.
Vermelhas.
Ou pretas.
Sempre gostei do preto e do vermelho. Talvez porque ambas as cores saibam alguma coisa sobre o fim.
Chamava você de volta porque havia lirismo na sua alma. Meu coração rimava com a serenidade da sua voz. Eu queria envelhecer algumas tardes lendo poemas ao seu lado. Como naquela noite em que você chorou ouvindo o texto sobre minha avó e a árvore de Natal. Ainda sinto o calor das suas lágrimas escorrendo pelas minhas costas.
Naquele instante, tive a ilusão mais rara de toda a minha vida.
Achei que havia sido compreendido.
Talvez eu esteja romantizando uma lembrança. A memória também inventa. Também mente para suportar a realidade.
Mas, para mim, naquele breve intervalo, existiam apenas você, eu e a poesia crescendo entre nós como uma planta que ignorava a precariedade da terra onde nascia.
Fomos, por alguns minutos, dois artistas tentando justificar a existência.
Depois a existência venceu.
Tudo em mim é trânsito.
Passagem.
Provisoriedade.
Nada permanece tempo suficiente para criar raízes, embora eu insista em abraçar o efêmero como se meus braços pudessem impedir o tempo de cumprir seu trabalho.
Achei você bonito.
Bonito para além da pele.
Bonito naquele lugar onde quase ninguém consegue permanecer sem fugir.
O que fizemos um com o outro?
Como conseguimos ser tão delicados e tão cruéis?
Tão líricos e tão profanos?
Como duas pessoas capazes de escrever cartas tão belas conseguem construir silêncios tão devastadores?
As suas palavras continuam lindas.
Mas o amor nunca sobreviveu apenas de palavras.
O amor é uma sequência de escolhas.
E algumas escolhas não erram apenas o caminho.
Erram a própria possibilidade de chegada.
Continuo com medo.
Muito medo.
Imagino sua dor.
Imagino mesmo.
Mas também habito a minha, e ela ocupa todos os cômodos da casa.
Também é permitido aos homens feitos tremerem.
Corarem.
Desejarem voltar ao colo da mãe.
Pedirem socorro sem encontrar linguagem suficiente para isso.
Estou perdido.
Talvez sempre tenha estado.
Talvez apenas agora tenha parado de fingir que sabia o caminho.
Não sei.
Essa talvez seja a frase mais honesta que já pronunciei.
Não sei.
Tudo em mim dói.
Tudo em mim parece sintoma de alguma doença cujo diagnóstico é simplesmente estar vivo.
Tenho vivido dopado.
Esqueço os dias que passaram.
Temo desesperadamente aqueles que ainda insistem em vir.
A depressão possui esse talento perverso: ela não mata imediatamente. Ela transforma a existência numa longa sala de espera onde nada acontece além da expectativa cansada de continuar respirando.
Sinto-me só.
Não da solidão física.
Essa quase sempre encontra distrações.
Falo daquela solidão mineral, anterior à linguagem, onde ninguém consegue realmente atravessar a distância que separa uma consciência da outra.
Encontro abrigo em alguns livros.
Há escritores que conseguem emprestar palavras às coisas que ainda não aprenderam a existir na língua.
A maior parte do que sentimos jamais receberá um nome.
Vivemos esmagados por emoções maiores do que o vocabulário humano.
Chamamos isso de tristeza.
De amor.
De saudade.
Mas são apenas etiquetas frágeis coladas sobre abismos.
Estamos todos presos neste pequeno ponto azul suspenso num universo indiferente.
Aqui dentro, tudo cresce desproporcionalmente.
As dores.
Os medos.
As esperanças.
E, paradoxalmente, nada consegue realmente tocar nada.
A física já havia descoberto isso antes de nós.
Os átomos não se encostam.
Seus núcleos apenas se aproximam, separados por um vazio imenso que insiste em permanecer entre eles.
Talvez o afeto seja isso.
Uma tentativa infinita de atravessar um vazio que a própria matéria decretou intransponível.
Sua carta é bonita.
Meu quartinho dos fundos a guardará para sempre.
Continuarei sendo esse lugar de que falam bem, mas onde ninguém permanece.
Não sou uma casa.
Sou um depósito de permanências interrompidas.
Um endereço lembrado apenas quando falta outro.
Um abrigo de emergência.
Nunca um lar.
Obrigado por emprestar sua poesia à minha durante aquele breve intervalo em que acreditamos que duas almas poderiam morar uma na outra.
Agora restam apenas os sussurros.
E talvez os sussurros sejam tudo o que realmente sobrevive quando o amor termina.
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