06/08/2026

Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

 Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

Só depois compreendi que ninguém volta para um lugar cuja planta nunca decorou.

Há pessoas que apagam a luz sem pensar. Continuam andando. O corpo conhece a distância entre a cama e a porta. A mão encontra o interruptor antes da parede. Os pés desviam da quina da mesa como quem evita uma lembrança antiga. A casa já desceu para dentro da carne.

Nunca me aconteceu.

Sempre precisei dos olhos.

Quando os fecho, não encontro uma casa. Encontro muros.

Bato neles como um cego que ignora as dimensões da própria cela. Não porque sejam muitos. Porque nunca aprendi o desenho de nenhum. Nunca soube quantos passos separavam um quarto do outro. Nunca soube onde uma parede terminava para que outra começasse a me proteger. Passei por dentro de lugares. Nunca os habitei.

Chamaram isso de morar.

Era apenas permanecer entre paredes.

Talvez seja por isso que invejo as vilas.

Não pela calma. Nem pelas árvores. Nem pela nostalgia barata que inventaram para elas.

Invejo o homem cujo nome ninguém sabe direito, mas cujo rosto todos conhecem. A mulher que passa toda manhã com a mesma sacola. O rapaz da oficina. A velha que senta na porta antes do entardecer.

Ninguém lhes deve amor.

Nem amizade.

Basta o reconhecimento.

Há qualquer coisa de profundamente humano em cruzar um rosto que nunca nos pertenceu e, ainda assim, não precisar perguntar quem ele é. O rosto responde antes. Ele ocupa um lugar no mapa. Ele confirma que aquele pedaço de mundo tem memória.


Talvez seja isso uma casa:

Um lugar onde até os desconhecidos deixam de ser estranhos.


Nunca tive sequer esse consolo.


Os rostos nunca criaram raízes diante de mim. Eram passageiros como eu. Olhavam-me com o mesmo esforço com que se olha uma placa de trânsito: apenas o suficiente para seguir adiante. Nunca fui o homem da esquina. Nunca fui aquele que passa às seis. Nunca fui reconhecido antes de ser identificado.


A vida inteira precisei me apresentar.


É cansativo nascer todos os dias.


Hoje sei que não procurei um teto.


Procurei um lugar onde pudesse fechar os olhos sem desaparecer.


Mas fecho os olhos e continuo perdido.


Não porque exista um labirinto.


Porque nunca existiu uma casa.

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