26/03/2026

Ímpares Solitários



Abro a gaveta de meias toda manhã com a mesma expectativa tola de quem compra bilhete de loteria sabendo a estatística. E toda manhã o mundo me confirma: não há par. Há meias. Há intenções de meias. Há meias que foram, um dia, a metade de algo que se podia chamar de conjunto, mas que agora existem sozinhas com uma dignidade levemente ridícula, como filósofos do nada e do tudo.

Não jogo fora. Esse é o problema. Guardo a meia solitária porque existe em mim uma fé residual, irracional, quase litúrgica, de que a outra vai aparecer. Que houve apenas um desencontro provisório. Que a gaveta ainda vai se resolver. Mas a gaveta não se resolve, a gaveta acumula, e eu fico ali parado de manhã com uma meia listrada na mão olhando para o nada como se o nada fosse me dar uma explicação.

Minha vida tem essa textura.

No chaveiro que carrego no bolso há chaves que não sei mais do que são. Não sei. Juro que não sei. Há uma pequena, dourada, que pode ter sido de um cadeado de mala ou do coração de alguém ou de uma caixa de papelão onde guardei coisas que não quero lembrar que guardei. Há uma de corte estranho, que abre alguma coisa que provavelmente não existe mais, alguma porta em algum apartamento de algum tempo em que eu era uma versão anterior de mim com outros problemas de mesmo peso. Carrego essas chaves com a seriedade de quem carrega documentos. Com o rigor de quem sabe para onde vai.

Mas não sei para onde vou.

O absurdo não é carregar chaves sem fechadura. O absurdo é a seriedade com que as carrego. É o peso concreto delas no bolso, esse som metálico e sem cerimônia que fazem quando bato na coxa, esse hábito de consultá-las com os dedos enquanto penso, como se na ponta dos dedos houvesse resposta tátil para perguntas que não têm nem enunciado certo. Carrego o peso do que não abre mais como se abertura fosse ainda uma possibilidade honesta.

E talvez seja. Aí está o problema.

Porque a chave que não encontra fechadura permanece numa espécie de limbo teológico: ela não falhou, ela apenas ainda não encontrou o que lhe corresponde. A porta pode existir. Pode ser que em algum lugar haja uma fechadura esperando exatamente esse dente irregular, esse corte específico que minha chave desconhecida tem. A possibilidade não foi descartada, foi só adiada, o que é uma forma de tortura mais refinada do que a negação direta.

A vida passageira funciona assim: ela não diz não. Ela diz ainda não, ou diz talvez, ou pior, não diz nada e deixa a chave no bolso tilintando contra as outras chaves igualmente inúteis igualmente esperançosas.

Às vezes penso que devo jogar fora. As meias ímpares, as chaves sem rosto. Fazer aquela limpeza que os livros de autoajuda prometem que muda algo além da gaveta. Mas sempre que pego uma chave para descartar, a seguro por um instante e sinto naquele metal frio uma história que não consigo reconstruir completamente, uma história que existe só como clima, como resíduo, como a sensação de que aquilo importou sem que eu consiga dizer exatamente o quê ou o quando ou o porquê.

E guardo de volta.

Somos, talvez, o que não conseguimos jogar fora. O par que falta, a fechadura que sumiu, o transitório que ficou preso no bolso sem avisar que havia ficado. A vida equívoca e inexata que insiste em não se organizar em conjuntos legíveis, em narrativas com início meio e fim, em gavetas arrumadas de onde se tira, sem drama, as duas meias certas para o dia que começa.

Hoje vou de meias diferentes. Uma cinza, uma azul. Caminho assim, levemente assimétrico, levemente absurdo, com as chaves batendo no bolso como sinos pequenos e sem música que tocam só para mim.

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