23/01/2026

Desregressar

Sem chão. Como se a casa tivesse sido retirada debaixo dos meus pés e restasse apenas o negativo do que um dia foi abrigo. A família se desfez em outros centros de gravidade; cada um fundou o seu, e eu permaneci como corpo sem órbita. Não gerei continuidade, não inaugurei futuro. Meus irmãos ergueram suas casas, seus ritos, suas linhas de sucessão. O território comum virou ruína: sabe-se que existiu, mas não se pisa mais ali.
A infância não foi superada; ficou suspensa, como um tempo que não avança nem retorna, apenas ocupa. Não amadureceu: endureceu. Um resto. Já não sou o mais novo, mas também não me tornei outra coisa. Resta a função: cumprir horários, repetir trajetos, obedecer à mecânica dos dias. Casa, trabalho, casa. Um movimento que não leva, apenas consome.
Não há paixões que desorganizem o eixo. Não há encontros que inaugurem mundo. Há presenças que passam, contatos que não se inscrevem, aproximações que não produzem laço. Quando ocorre algo parecido com encontro, ele traz a sensação de erro, como se não devesse ter acontecido.
Desde criança, eu me escondia no guarda-roupa. Não como jogo, não como provocação à busca. Eu sabia que ninguém viria. Mesmo assim entrava, fechava a porta, permanecia no escuro. Não para ser encontrado, mas para experimentar a ausência de procura. No silêncio abafado, eu me escutava: a respiração curta, o coração marcando presença num corpo que não era chamado por ninguém. Ali, no escuro, eu me sentia existir — não porque alguém me visse, mas porque ninguém me via. A solidão tornava-se verificável, quase tátil.
Era um esconderijo sem perseguidor, um sumiço sem falta. Um corpo que se retira antes mesmo de ser solicitado. Aprendi cedo que não há nome sendo pronunciado do lado de fora. E quando não há chamado, o sujeito aprende a se recolher por conta própria. Não como drama, mas como economia psíquica: ocupar pouco espaço, fazer pouco ruído, não esperar.
Hoje o gesto permanece, sem armário concreto, mas com a mesma lógica. Um espaço interno estreito, fechado, onde o ar circula mal e o tempo não entra. Não há expectativa de porta abrindo. Não há fantasia de ser achado. Apenas a permanência nesse intervalo escuro onde se constata, sem revolta e sem consolo, que a ausência sempre esteve antes da perda.
Não é tragédia. É estrutura.
A porta fica fechada porque nunca houve, de fato, quem a empurrasse.

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