Você foi embora e ninguém interditou a quarta-feira.
O ônibus passou às seis e quinze, como se ainda houvesse alguém esperando. A fornada de pão saiu normalmente. A padaria acendeu as luzes, o café começou a cheirar a manhã e uma criança empurrava uma bicicleta com o pneu furado.
Nenhuma sirene. Nenhum céu escureceu por respeito.
Você foi embora e, aparentemente, isso não era motivo suficiente.
As pessoas continuaram comprando pão, reclamando de preço, atravessando a rua, dizendo bom-dia sem perceber que havia alguma coisa irreparavelmente errada naquele bom-dia.
Fiquei olhando com uma indignação infantil. Como podia o sol nascer com tamanha falta de caráter? Como podia a quarta-feira existir inteira depois de você?
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O ônibus passa. A aula acontece. A criança empurra a bicicleta com o pneu furado. E tudo continua, com uma crueldade quase administrativa, como se a dor precisasse esperar o horário comercial para ser atendida.
Esperei demais. Imaginei que alguma engrenagem cósmica reconheceria o peso do que aconteceu entre nós. Mas nenhum deus interrompeu o trânsito. Nenhuma estrela perdeu o equilíbrio. O universo permaneceu vasto e ocupado com coisas que não me diziam respeito.
E compreendi: você não era o centro do mundo. Eu também não. Éramos dois acontecimentos particulares dentro de uma realidade sem obrigação de nos considerar importantes.
Amar é a tentativa de convencer alguém de que, por alguns instantes, o universo cabe entre duas pessoas. Perder é descobrir que ele nunca coube.
Ainda assim, naquela quarta-feira, continuei ali, não por esperança, mas porque o corpo possui uma obstinação que a alma não autorizou. Levantei. Respirei. Ouvi o ônibus passar às seis e quinze
Viver é isso: assistir ao mundo cometer a indelicadeza de continuar existindo quando tudo em nós exige que ele pare.
Você foi embora. O mundo, sem a menor educação, não morreu comigo.
É a única coisa que ele fez corretamente, porque, se tivesse morrido também, eu jamais teria descoberto que era possível continuar vivo sem que isso significasse estar vivo.
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