Acordar é o primeiro tombo do dia. A gente abre os olhos e já tropeça na imposição muda: continua. Não tem contrato, não tem carimbo, mas a cláusula é pétrea. Você há de aceitar a vida até o último suspeito, a morte, com a resignação de quem recebe um pacote sem remetente. Castigo ou bênção? Depende da calçada onde o medo resolve sentar.
Tem gente que olha a ponte mais alta da cidade e sente um frio na sola do pé, um cálculo esquisito entre a gravidade e a coragem. O salto não é medo do chão; é medo de aterrissar num lugar onde não exista nem chão, nem ponte, nem a dúvida gostosa de pular. A dose mal calculada de remédio que vira veneno é prima-irmã desse cálculo: você medica a angústia com a precisão de um ourives e, sem querer, transforma a cura em bilhete de ida. A fronteira entre o remédio e o veneno, meu santo, é uma vírgula na bula da existência, e quem nunca quase engoliu a vírgula?
A felicidade, essa coitada, foi empacotada como dádiva, mas a fita que a embrulha é de espinho. Dádiva de sofrimento, agonia e sofrimento, é um eco que não cala. A gente recebe o presente, rasga o papel e lá dentro encontra um espelho embaçado onde a própria cara é a surpresa desagradável. “Aproveite sua dádiva!”, dizem, enquanto a gente sangra os dedos no laço. É uma ideia tão tóxica que deveria vir com tarja preta e um aviso: “A tentativa de ser feliz pode causar tontura, náusea e uma vontade incontrolável de devolver o universo na loja.”
Mas repara que sagacidade o absurdo tem: se morrer é castigo, então viver é o quê? Regalia? Pena perpétua sem direito a condicional? Eu, cá com meus botões de osso, desconfio que a vida é o verdadeiro corredor da morte. A diferença é que o carrasco esqueceu o relógio em casa e a gente fica ali, de pé, ensaiando a última frase, que nunca chega. A morte, coitada, é só a burocracia final: carimba, assina, arquiva. Um castigo tão breve que mais parece prêmio de consolação. “Morrer é castigo”, repetem, mas eu olho pr’um vivo atolado em conta, desamor e trânsito e penso: castigo mesmo é ter que pagar boleto todo mês sem saber se o mês que vem vem.
E se o contrário for o certo? E se a morte for a bênção e a vida a penitência? Aí estar vivo é rir da própria forca com um cinismo lírico, quase uma valsa. É dançar no cadafalso e perguntar ao carrasco se ele aceita pix. É descobrir que a obrigatoriedade de aceitar a vida não é uma sentença; é um convite para zombar do juiz. Porque, no fundo, a maior sagacidade do absurdo é esta: a ponte, o remédio, a felicidade envenenada, tudo isso é matéria-prima de piada. E rir, meu caro, é o único salto que a gente dá sem calcular a dose. Nem remédio, nem veneno: só cócega na alma.
No fim, seja castigo ou bênção, a vida está aí, feito visita indesejada que entra sem bater e ainda pergunta se tem café. A gente pode ficar puto ou pode passar o café. Eu, que sou mineirinho do absurdo, passo o café, ofereço um pão de queijo e fico proseando com ela até a morte chegar, essa sim, a visita educada que sempre pede licença antes de entrar. E se ela pedir, eu digo: “Uai, pode entrando, sô. Mas deixa eu terminar de rir primeiro.”
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