28/03/2026

Reticentes Recorretes

A minha mãe nunca disse que não podia. Nunca disse que não tinha. Ela apenas demovia sorrateiramente a vontade que eu tinha de qualquer coisa. Ela ia porfiando pelas beiradas, metia defeitos, procurava jeito qualquer que fosse para me dizer que o que eu queria não servia de nada. Era apenas um capricho de criança. E nisso eu perdia a vontade do que quer que fosse.


Nisso eu fui aprendendo a querer pouco. E acabei sendo pouco também.


Quando a gente fazia aniversário ela deixava claro que pobre não fazia aniversário. Pobre completa ano. Ignorando ela que aniversário era justamente isso. A gente não tinha era festa de aniversário, presente de aniversário e nem um feliz aniversário.


A miséria nos ensinava que querer era errado e que não poder era a norma.


Ela nunca disse um lacônico não!


Ela arrodeava, me fazia cismar, e duvidar do que eu queria. Eu vacilava e mudava o tino. Ia para outras coisas que o menino em mim me permitia. Permitiu tão pouco a bem da verdade. Eu me sentia como um passarinho que não sabia voar. Mas me viam como um menino cheio de azedume, endemoniado. Não a minha mãe. Os outros que saíram dela.


Eu era uma carta sem destinatário,  um livro sem leitor uma chave que não abria porta nenhuma.


Hoje, com minhas cãs, ainda tenho que forçar, empurrar, demandar força para existir mesmo desencaixado daqueles próximos de sangue e longe de existência.


Sou forte; sem ternunra, mas forte. Minha mãe embora me demovesse de minhas pequenas ambições infantis fez de mim um homem forte. Ainda que queira pouco, ainda que saiba pouco, ainda que a vida seja pouca e sem sentido, eu me esforço para andar com a cabeça erguida e para não viver sob olhares presunçosos de grandeza moral inexistente.


Eu sou filho da paixão. Talvez o único ato louco e passional porque ela passou.


Eu passei por tantas paixões loucas e transitórias que tenho pena de quem nunca as experimentou de verdade com medo de deus, esperando uma recompensa de um mundo que seria completamente entendiante. Como é bom não precisar de deus para ser bom. Como é bom imaginar uma deusa-mãe que lhe dá colo e não promete castigar por não viver o roteiro que escreveram para você.


Hoje, de novo, não tem festa de aniversário, apenas aniversário; mais pela minha falta de habilidades sociais do que pela miséria.


De qualquer modo tem aniversário.


Afetos completamente desorganizados, mas cheios de emoções paralelas.


Janelas abertas, portas fechadas.


Um pôr do sol que pincela de amarelo alaranjado meu fim de tarde e que escurece junto com minha alma.


Todo dia é essa agonia, ou essa aventura.


Meu deus que criatura!

26/03/2026

Ímpares Solitários



Abro a gaveta de meias toda manhã com a mesma expectativa tola de quem compra bilhete de loteria sabendo a estatística. E toda manhã o mundo me confirma: não há par. Há meias. Há intenções de meias. Há meias que foram, um dia, a metade de algo que se podia chamar de conjunto, mas que agora existem sozinhas com uma dignidade levemente ridícula, como filósofos do nada e do tudo.

Não jogo fora. Esse é o problema. Guardo a meia solitária porque existe em mim uma fé residual, irracional, quase litúrgica, de que a outra vai aparecer. Que houve apenas um desencontro provisório. Que a gaveta ainda vai se resolver. Mas a gaveta não se resolve, a gaveta acumula, e eu fico ali parado de manhã com uma meia listrada na mão olhando para o nada como se o nada fosse me dar uma explicação.

Minha vida tem essa textura.

No chaveiro que carrego no bolso há chaves que não sei mais do que são. Não sei. Juro que não sei. Há uma pequena, dourada, que pode ter sido de um cadeado de mala ou do coração de alguém ou de uma caixa de papelão onde guardei coisas que não quero lembrar que guardei. Há uma de corte estranho, que abre alguma coisa que provavelmente não existe mais, alguma porta em algum apartamento de algum tempo em que eu era uma versão anterior de mim com outros problemas de mesmo peso. Carrego essas chaves com a seriedade de quem carrega documentos. Com o rigor de quem sabe para onde vai.

Mas não sei para onde vou.

O absurdo não é carregar chaves sem fechadura. O absurdo é a seriedade com que as carrego. É o peso concreto delas no bolso, esse som metálico e sem cerimônia que fazem quando bato na coxa, esse hábito de consultá-las com os dedos enquanto penso, como se na ponta dos dedos houvesse resposta tátil para perguntas que não têm nem enunciado certo. Carrego o peso do que não abre mais como se abertura fosse ainda uma possibilidade honesta.

E talvez seja. Aí está o problema.

Porque a chave que não encontra fechadura permanece numa espécie de limbo teológico: ela não falhou, ela apenas ainda não encontrou o que lhe corresponde. A porta pode existir. Pode ser que em algum lugar haja uma fechadura esperando exatamente esse dente irregular, esse corte específico que minha chave desconhecida tem. A possibilidade não foi descartada, foi só adiada, o que é uma forma de tortura mais refinada do que a negação direta.

A vida passageira funciona assim: ela não diz não. Ela diz ainda não, ou diz talvez, ou pior, não diz nada e deixa a chave no bolso tilintando contra as outras chaves igualmente inúteis igualmente esperançosas.

Às vezes penso que devo jogar fora. As meias ímpares, as chaves sem rosto. Fazer aquela limpeza que os livros de autoajuda prometem que muda algo além da gaveta. Mas sempre que pego uma chave para descartar, a seguro por um instante e sinto naquele metal frio uma história que não consigo reconstruir completamente, uma história que existe só como clima, como resíduo, como a sensação de que aquilo importou sem que eu consiga dizer exatamente o quê ou o quando ou o porquê.

E guardo de volta.

Somos, talvez, o que não conseguimos jogar fora. O par que falta, a fechadura que sumiu, o transitório que ficou preso no bolso sem avisar que havia ficado. A vida equívoca e inexata que insiste em não se organizar em conjuntos legíveis, em narrativas com início meio e fim, em gavetas arrumadas de onde se tira, sem drama, as duas meias certas para o dia que começa.

Hoje vou de meias diferentes. Uma cinza, uma azul. Caminho assim, levemente assimétrico, levemente absurdo, com as chaves batendo no bolso como sinos pequenos e sem música que tocam só para mim.

19/03/2026

Telas e Pratos no Calor Morto

 O sol de Sergipe entra pela janela como um ferro em brasa, grudando o ar no corpo, tornando cada respiração uma rendição preguiçosa. É um dia desocupado, desses que o calendário entrega de bandeja, sem textos para dissecar em camadas de ironia ou melancolia. Sento na cadeira rangente, o ventilador girando preguiçoso no teto, e o celular vira âncora. Dedos deslizam, rolam feeds infinitos: memes que riem de nada, notícias que mastigam o mundo em pedaços indigeríveis, stories de vidas alheias que brilham como falsas constelações. É seguro aqui, na tela. O polegar sabe o caminho, automático, hipnótico, como quem foge de um precipício fingindo admirar a vista.Mas o medo não mente. Ele sussurra primeiro, um zumbido baixo sob as notificações, depois grita — uma voz interna que não aponta para lugar nenhum, só para o vazio que engole tudo. Tristeza sem nome, ecoando insignificância como um grito num poço seco, onde cada eco multiplica o silêncio em vez de preenchê-lo. Decadência que se alastra devagar, nos vincos da pele enrugada pelo calor, na pilha de livros intocados na mesa, nas promessas de projetos que viram fantasmas pálidos, pairando como névoa sobre o que poderia ter sido. Falta de sentido? Não é falta, é excesso: o mundo transborda em pixels vazios, e eu, preso, rolo mais uma vez, como se o próximo vídeo pudesse remendar o buraco que se abre no peito, um vazio que não pede explicações, só devora as que inventamos para nos iludir. Parar seria olhar para dentro, encarar o abismo que devolve o olhar com um bocejo indiferente, revelando não um propósito grandioso, mas a teia frágil de rotinas que tecemos para não desabar — rotinas que, no fim, só adiam o inevitável confronto com o nada que nos constitui. E nesse adiamento reside o veneno doce: cada scroll é uma vitória pírrica sobre o silêncio, cada like um aplauso para o ator solitário no palco vazio, onde o sentido finge existir só porque os holofotes ainda piscam. Mas e se o teatro todo for só ilusão? A voz grita mais alto agora, não com raiva ou desespero, mas com uma indiferença cruel, ecoando que somos poeira dançando no vento quente, insignificantes não por maldade do cosmos, mas por sua absoluta indiferença a nossas narrativas frágeis.De repente, o olho cai na cozinha. A pia está cheia de pratos, empilhados como ruínas de banquetes esquecidos — restos de arroz endurecido, xícaras com círculos de café como auréolas profanas. Enquanto houver pratos, haverá procrastinação. Lavo um? Não, amanhã. Amanhã o sol não queima tanto, amanhã a voz cala, amanhã o celular solta um elixir que preenche o vazio. Mas o absurdo mora aí: os pratos se multiplicam sozinhos, ou será que eu os invento para não enfrentar o silêncio? Um prato a mais, uma notificação a menos, e o dia escorre pelo ralo, quente e inútil. O ventilador gira, o sol ri, e eu, rei do nada, continuo rolando

18/03/2026

A inércia de uma pedra , a queda cinetica da dor

Estou só como quem empurra uma pedra que não pede movimento, como quem cumpre um gesto que o mundo não encomendou. O esforço não redime, apenas ocupa. A montanha não responde. O chão não memoriza. Sou um ponto entre bilhões de pontos, grão que não soma, areia que não constrói deserto algum. Existir é repetir o peso, e chamar de sentido o hábito de não largá-lo. No fundo, não é a solidão que dói. É a lucidez de que ela é estrutural. Somos mônadas com sede de fusão, átomos que sonham ser molécula, consciências que imploram por um “nós” sabendo que o máximo que alcançam é um “eu” roçando outro “eu” no escuro. Desejamos ser dois em um, mas a ontologia nos condena ao um em um. Cada qual empurrando sua própria pedra, cada qual chamando de amor o breve alinhamento de trajetórias antes da gravidade nos separar outra vez. E ainda assim seguimos. Como Sísifo, mas sem a dignidade do mito. Empurramos por inércia, por teimosia biológica, por essa recusa patética e grandiosa de aceitar que o nada é suficiente.

Tropeços cronológicos

 O relógio de parede parou e, curiosamente, ninguém percebeu de imediato. Continuou ali, respeitável, com seus ponteiros imóveis, sustentando uma aparência de ordem. Há objetos que, mesmo mortos, mantêm a pose melhor do que muita gente viva.

Alguém, inevitavelmente, repete a máxima: “mesmo parado, ele acerta duas vezes ao dia”. A frase tem o charme das ideias que parecem profundas justamente por não serem examinadas. Funciona como consolo intelectual para a falha, quase uma absolvição.

Mas o relógio não acerta. Ele coincide.

Há uma diferença estrutural aí que costuma ser ignorada. Acertar implica acompanhar, ajustar-se, responder ao tempo. Coincidir é outra coisa, é estar imóvel enquanto o mundo, por acaso, passa pelo mesmo ponto. O mérito, se há algum, não é do relógio, é do tempo que continua, indiferente, fazendo o trabalho sozinho.

Dizer que o relógio parado “acerta” é como elogiar uma pedra por estar no lugar certo quando alguém tropeça nela. A pedra não antecipou nada, não calculou nada. Apenas estava.

Sem outro relógio funcionando, ninguém saberia dizer que horas são olhando para aquele mostrador congelado. Ele não informa, ele sugere, e sugere sempre a mesma coisa. Um instrumento que não diferencia instantes não mede tempo, no máximo encena a ideia de medida.

Ainda assim, há certo conforto em mantê-lo na parede. Ele organiza o espaço, cria a ilusão de continuidade, como se o tempo estivesse ali, domesticado. Talvez seja isso que realmente se defende quando se repete a frase, não o relógio, mas a necessidade de acreditar que até o que falha conserva algum vínculo secreto com o acerto.

Não conserva.

O relógio parado não está certo duas vezes ao dia. Está permanentemente desligado daquilo que pretende representar. E quando, por coincidência, o mundo passa por aquele mesmo número, o que ocorre não é um acerto, é um encontro fortuito entre um sistema que funciona e outro que desistiu.

No fundo, o relógio parado não é um erro ocasional. É a negação contínua do próprio propósito, disfarçada de precisão eventual. E isso, longe de ser reconfortante, é apenas uma forma elegante de inutilidade.

06/03/2026

Presente do indicativo

 Não queria ter conhecido as pessoas que conheci.

Cada rosto virou um espelho onde algo em mim ia se decompondo aos poucos, silenciosamente, como fruta que apodrece por dentro antes que a casca revele qualquer coisa. Cada encontro foi uma colisão de mundos imperfeitos, orbitando sem sentido ao redor de um centro que nunca estava lá.

Não queria ter sentido o que senti. E o que ainda pulsa nos nervos como febre tardia, essa coisa que não passa quando deveria ter passado. Sentir é uma ferida que recusa cicatrizar. A consciência se debruça sobre ela, examina, mede, disseca, tenta encontrar a lógica da dor como um médico que conhece o diagnóstico e sabe, com a frieza de quem sabe, que não há cura.

Não quero morrer.

Esse talvez seja o dado mais irracional de todos. Não quero morrer, mas viver tem o peso de um naufrágio que nunca termina. Um corpo à deriva que continua se debatendo na água mesmo depois de entender que não existe costa visível em nenhuma direção. Respirar é só prolongar o intervalo entre uma onda e outra. Viver exige uma crença que eu simplesmente não tenho.

Os outros caminham como se o chão fosse sólido. Como se isso fosse um fato e não uma aposta. Mas sob a superfície existe apenas uma crosta fina, e embaixo dela o abismo, paciente, esperando o momento em que alguém olha para baixo por tempo demais.

Não queria ter nascido.

A frase aparece sem drama, quase administrativa. Um erro inicial que desencadeou todos os outros numa sequência que ninguém pediu para ver. Poderia ter sido um aborto. Seria uma interrupção discreta, uma correção silenciosa feita antes que a consciência surgisse para testemunhar o próprio absurdo de si mesma. Mas nem isso. Às vezes parece que houve uma falha ainda mais profunda, como se até o aborto tivesse sido abortado. Como se a matéria tivesse insistido em produzir este corpo contra qualquer razoabilidade disponível. Um aborto do aborto. Um resto biológico da improbabilidade que acordou um dia e descobriu que tinha que existir.

E então a consciência desperta dentro desse resto e começa a observar.

Observa o teatro. As pequenas ambições, as rivalidades que as pessoas levam a sério, as promessas morais erguidas como paredes sobre um vazio que as paredes não conseguem esconder. A consciência observa tudo isso com o cansaço específico de quem vê o truque mas ainda assim assiste ao espetáculo porque não tem mais para onde olhar.

Enquanto isso a luta continua. A luta para não andar se arrastando pelas ruas com a cara de quem perdeu tudo, embora, na contabilidade fria dos fatos, a derrota seja mesmo o estado mais próximo da verdade. A postura ereta é quase uma encenação diária. Uma tentativa de manter a dignidade mínima de um organismo que sabe coisas demais para o próprio bem.

Mas existe um momento em que a derrota parece suspensa.

Quando alguém procura. Quando alguém precisa de alguma coisa, um favor, uma presença, uma utilidade concreta qualquer. Nesses instantes acontece algo curioso: a existência encontra uma função breve, quase mecânica, e isso basta. Ser útil cria a ilusão temporária de vitória. Por alguns minutos a consciência para de girar no próprio eixo. Há tarefa, há direção, há finalidade.

Depois passa.

E o pensamento volta ao que é naturalmente. A observação quieta de que toda essa luta, essa insistência moderna em seguir, melhorar, progredir, levantar todo dia para repetir gestos aprendidos como se fossem espontâneos, pode não ser mais do que isso. Um movimento constante de corpos conscientes tentando justificar, de alguma forma, o fato fundamental e irrespondível de que nasceram sem que ninguém jamais lhes perguntasse se queriam.

02/03/2026

Inventário de Ruínas

O sol de amanhã chega como um convite que eu não emiti. Existe uma espécie de traição no calor que insiste em atravessar a cortina — ele não aquece, apenas expõe: aqui está você, ainda existindo, contra sua própria vontade.

Eu queria o nada. Não o nada terminal, mas o vazio anterior, o espaço não-ocupado, a página que nunca foi tocada pela mão de ninguém. Olho para o que sou e encontro um projeto arquitetônico abandonado a meio caminho: paredes sem reboco, fiação exposta, portas que abrem para paredes. Sou o erro de cálculo que persistiu em pé por puro acaso estrutural.

É um exercício de contorcionismo existencial, esse de habitar e desabilitar-se simultaneamente. À noite, expando-me como gás tóxico, ocupando quartos que não pedi; ao amanhecer, contrai-me como músculo em cãibra, encolhendo-me dentro da própria pele como quem foge de si mesmo. Durmo como um atlas e acordo como um selo postal — diminuído, adesivo, pronto para ser remetido a lugar nenhum.

Lamento os rostos que depositaram suas digitais no meu vidro. Lamento ter aberto a comporta e deixado que bebessem da água turva da minha atenção. Ofereci-lhes o cardápio inteiro de minha disponibilidade, e eles mastigaram com os olhos fixos no telefone, engoliram sem saborear, deixaram a gorjeta do esquecimento sobre a toalha suja. Eles entraram no meu arquivo pessoal — aquele armário de aço onde guardo os originais com o zelo de um arquivista lunático — e trataram meus documentos como rascunhos. Rasgaram minhas anotações marginais, dobraram minhas certezas ao meio, usaram minhas conclusões para apagar lápis. Saíram deixando portas abertas e luzes acesas, e eu, o tolo, paguei a conta do consumo.

O céu carrega o peso específico da chuva que não cai. O cheiro de ferro molhado invade pela janela — é o odor da possibilidade, do plantio que exige coragem que eu já gastei em outras estações. Seguro as sementes na palma até que suem, até que germinem no calor da minha hesitação, criando raízes que não levam a terra nenhuma. Tenho pavor da colheita porque sei que cada fruto será uma sentença — o gosto metálico de todas as vezes que escolhi não escolher.

O céu está bonito de chuva que não vem, e isso é a ironia suprema: a beleza em potencial, o desastre que se anuncia mas não acontece, a espera que se torna permanente. Um homem para por um instante no meio da calçada, observa o papel amassado no chão, e dá de ombros — porque se nada tem sentido prévio, até o lixo é curadoria.

Mas eu não sou esse homem. Eu sou o papel. Eu sou o amassado, o rasgado, o descartado que ainda tenta ler a si mesmo antes que a chuva chegue e borre a tinta. E a chuva continua suspensa, preguiçosa, molhando outros telhados enquanto eu aguardo aqui, embaixo, me dissolvendo lentamente no ar úmido do que não aconteceu.

O arquivo está aberto. As notas estão rasgadas. O inventário continua — item por item, ferida por ferida, silêncio por silêncio — e eu, o arquivista, o arquivo, o estrago, sigo catalogando a própria ruína com a precisão de quem sabe que ninguém mais lerá este documento.

18/02/2026

Pretérito Perfeito

 Queria amar para sempre quem um dia amei.

Não a pessoa — o estado.

A vertigem limpa de acreditar.

Havia um lugar dentro de mim onde o amor não tinha cálculo. Era puro impulso, quase fé. Eu não sabia do desgaste, não suspeitava da falha. Amar era um gesto sem sombra.

Queria voltar ali.

Mas o tempo não permite regressos; apenas memória. E memória é reconstrução, nunca retorno. O que chamamos de “para sempre” era só ignorância do fim.

Já é tarde.

Não porque o amor tenha acabado — mas porque eu já sei.

E saber corrói a ingenuidade como ferrugem lenta.

Resta a lembrança daquele instante inaugural, quando tudo parecia eterno simplesmente porque ainda não tinha sido quebrado.

Furta-cor

 Saio sem óculos quando não desejo ver ninguém. Não é descuido; é método. Reduzo o mundo a um palmo diante do nariz e deixo que as ruas do bairro se tornem aquarela mal fixada. Rostos dissolvem-se antes de me exigir um bom-dia. As fachadas perdem arestas. O concreto amolece. A ansiedade encontra na miopia uma aliada disciplinada: desfocar é uma forma de defesa.

Caminho com o cachorro e tateio o as ruas como quem atravessa um sonho mal iluminado. As ruas respiram em manchas. Árvores são vultos verdes indecisos. Portões tornam-se grades abstratas. Tudo vibra numa espécie de impressionismo involuntário, como se o real estivesse sempre a um passo de se desfazer. Sólido mesmo só o azul do céu.

Ainda assim algo além insiste em ganhar contorno.

Diante de uma casa, por trás das grades, uma senhora. Não vejo nitidamente seu rosto — vejo o gesto. As mãos atravessam o ferro como se negociassem com ele. A mangueira se estende, serpente discreta, e a água sai em arco preciso. Ela inclina a cabeça, mira, corrige o ângulo. Rega o jardim da vizinha.

As flores são vermelhas — ou parecem. Vermelhas que quase doem. Mas também são furta-cor, como diria minha vó: capturam a luz e a devolvem em nuances que escapam ao nome. Há nelas um brilho que não aceita rótulo fixo. Vermelho que vira vinho, que insinua laranja, que às vezes cintila quase rosa quando o sol toca. Mesmo no meu olhar míope, elas ardem.

A cena tem algo de paradoxal: grades que prendem, água que atravessa. Ferro que delimita, gesto que expande. A senhora, contida pelo portão, projeta-se para fora com as mãos molhadas. Não deixa que as flores murchem por falta do que é simples. Em vez de atirar espinhos ao mundo, oferece irrigação.

A miopia me poupa da distração do detalhe e me entrega o essencial. Não enxergo rugas, mas enxergo cuidado. Não distingo pétalas individualmente, mas percebo que resistem. Entre o borrão e a luz, algo se afirma com nitidez ética: ainda há quem regue o que não lhe pertence.

As ruas do bairro seguem difusas. O mundo permanece em pinceladas incertas. Mas naquele arco de água, naquele vermelho furta-cor que pulsa contra o cinza, existe uma precisão incontestável.

A visão é turva. A beleza, não.

Viva.

12/02/2026

Despojos

 

Tal qual Macabeia tudo em mim me dói. E tomo, não tão tal qual Macabeia, um grama de dipirona.

Não resolve a causa, mas disfarça o sintoma.
Uma vida com dor não se justifica quando se tem remédio.

09/02/2026

Mentiras sem Esquadros

 Eu não sou feliz. Nunca fui. A felicidade não me teve como destino; passou ao largo, como passam os ônibus que não param. O que houve foram furtos: instantes roubados de alegria, sempre sob vigilância, porque a infelicidade nunca saiu de cena. Estava ali, à espreita, paciente.


24/01/2026

Brincadeira de criança


Desde cedo, o gesto de entrar no guarda-roupa não tinha a gramática do jogo. Não havia contagem regressiva, nem a expectativa infantil do susto alegre. Era um movimento sem interlocutor — como quem se abriga da chuva em uma casa que sabe estar vazia. A porta se fechava não para provocar o mundo, mas para confirmar que o mundo não responderia.

Um esconderijo sem caçador é apenas um lugar onde a ausência pode se ouvir respirando.

Ali começava o jogo mais cruel: esconde-esconde com apenas uma pessoa. Aquela que se procura e se encontra só. Sempre só. A criança que se esconde de si mesma, sabendo que ninguém virá. Que pode ficar ali horas, dias, uma vida inteira, e nenhuma voz atravessará o tecido das roupas penduradas para gritar seu nome. Nenhuma mão abrirá a porta com a surpresa fingida do "achei!".

No escuro, o corpo tornava-se um instrumento tocando para uma sala deserta. O ar curto, o som abafado do próprio peito — como um relógio esquecido numa gaveta, marcando horas que não servem a ninguém. Não era tristeza teatral. Era constatação mineral, densa como pedra no fundo de um lago. Existir ali era como ser um objeto guardado não por valor, mas por inércia: algo que permanece porque ninguém se deu ao trabalho de descartar.

A infância já ensinava a lógica do esconde-esconde solitário: não há nome sendo chamado do lado de fora. E quando não há voz, aprende-se a reduzir o próprio volume, como um móvel empurrado para o canto para não atrapalhar a circulação. O corpo vai se tornando arquitetura de passagem, nunca de permanência. Um espaço funcional, não desejado. Uma peça no jogo que joga sozinha, que conta até cem e não sai procurar, porque já sabe: está ali, sempre esteve, sempre estará — achada e perdida simultaneamente.

Hoje o armário é interno, mas conserva a mesma física. Um compartimento onde o tempo não entra com luz, apenas com poeira. Nenhuma porta range de esperança. Não há mito de resgate, não há mão que venha testar a maçaneta. O esconde-esconde continua: a mesma pessoa procurando a si mesma nos corredores vazios da própria existência, tropeçando no próprio rastro, chamando o próprio nome sem convicção, sabendo que ao virar a esquina encontrará apenas o espelho — e nele, a confirmação de que sempre foi só o esconderijo e o caçador, o procurado e o que procura, o achado e o perdido, tudo numa pessoa só.

A vida ali não se apresenta como tragédia, mas como mecanismo: gira, range, repete, sem finalidade que a redima.

A pedra não promete nada enquanto rola. O esforço não acumula sentido como quem acumula mérito. O movimento apenas acontece, e o cansaço não se converte em nobreza. Não há revolta luminosa, nem felicidade arrancada do absurdo. Há apenas a percepção seca de que o circuito é fechado — como um ventilador ligado em quarto sem janelas: muito ar em movimento, nenhuma renovação. Como uma criança contando até mil no escuro, esperando que alguém a procure, mas sabendo, com a sabedoria terrível dos esquecidos, que ela mesma terá que se levantar, sair do esconderijo e constatar o óbvio: a brincadeira nunca começou para os outros. Só para ela.

Assim, a inutilidade não é drama, é estatuto.

E a frase que se impõe não consola nem acusa:

não se tratava de ser desnecessário,

mas de existir apenas como peça provisória,

um encaixe tolerado enquanto cumpria função,

retirado sem falta quando o mecanismo seguiu sozinho.

Como aquela criança no guarda-roupa,

que depois de horas escondida decidiu sair,

não porque foi encontrada,

mas porque o jogo acabou sem que tivesse começado,

e ela era, ao mesmo tempo,

a última a saber

e a única que sempre soube.

22/01/2026

Abissais Existenciais

 Tudo começa com um excesso de luz interna. Não a luz que esclarece, mas a que ofusca. Os pensamentos correm como cardumes em pânico, batendo uns nos outros, produzindo faíscas, promessas, urgências. O mundo parece inflado, dilatado, como se cada segundo carregasse mais possibilidades do que o corpo pode sustentar. Há uma falsa sensação de potência, de expansão, de que algo grandioso está prestes a se revelar — embora nada se revele, de fato. Apenas o ritmo acelera.

A consciência, embriagada de si, acredita por instantes que encontrou uma saída, um sentido, um vértice. Mas essa elevação não é subida; é a beira de um colapso. O chão não desaparece de repente. Ele amolece. Torna-se instável, traiçoeiro, como areia que cede sob o peso da própria confiança.

Então vem a queda. Não um despencar espetacular, mas um afundamento lento, contínuo, para regiões onde a pressão substitui o ar. O fundo do oceano não acolhe, não revela, não responde. Apenas comprime. Cada ideia, antes luminosa, é esmagada até perder forma. Não há escuridão poética ali; há densidade. Um silêncio espesso que não promete retorno.

Nesse nível, a existência mostra sua ossatura: movimento sem direção, dor sem finalidade, esforço sem coroamento. Tudo funciona, tudo pulsa, tudo continua — e nada converge para um porquê. O viver é apenas a persistência de mecanismos que não sabem justificar a própria atividade.

Sísifo empurra a pedra nesse cenário não como símbolo de grandeza, mas como prova de que o mundo se sustenta na repetição vazia. A montanha não é obstáculo moral; é geometria. A pedra não é desafio; é massa. E a ideia de que ele possa ser “feliz” soa como tentativa desesperada de resgatar alguma nobreza onde só há desgaste.

No fundo sem luz, não existe heroísmo. Existe atrito. Existe cansaço. Existe a lucidez de perceber que continuar não transforma o absurdo em sentido, apenas o prolonga.

E a pergunta, inevitável, ecoa como pressão nos ouvidos:

Como imaginar Sísifo feliz,

como me imaginar feliz,

se a própria rolagem da pedra

é a encenação mais bem ensaiada

de uma esperança que finge não ver

que todo esforço retorna ao ponto inicial?

Se a felicidade é possível,

talvez seja apenas outra camada de sedimento

depositada sobre o fundo,

para que não vejamos, com clareza total,

a nudez insuportável do sem-propósito.


21/01/2026

Economia

 A vergonha não nasce do espelho; nasce do inventário. Não é um rosto que me encara, é a soma das omissões. Fui pouco. Tentei pouco. Permiti demais.

Corri tanto e nunca cheguei na frente. Movimento sem destino. Esforço sem centro. Fui uma flecha sem alvo, lançada por um arco que prometia sentido e abortou o propósito no espaço vazio entre a tensão e o impacto.

Aceitei humilhações como quem aceita clima. Confundi sobrevivência com dignidade. O mundo seguiu, ruidoso e oco, como um tambor que bate para esconder o próprio vazio.


20/01/2026

Tambores de África

Todo carnaval tem seu fim, repetem como quem consola a si mesmo, como quem precisa acreditar que a ressaca moral da quarta-feira de cinzas é uma espécie de redenção. Esquecem, porém, que todo carnaval também tem seu começo e que ele retorna pontualmente, como a pedra de Sísifo, rolando de novo montanha acima, indiferente ao cansaço dos que a empurraram no ano anterior. O calendário gira, a serpentina apodrecida vira pó, a fantasia mofada no fundo do armário aguarda sua ressurreição profana. E lá estamos nós outra vez, convocados por um tambor que não pergunta se ainda há fôlego, se ainda há desejo, se ainda há sentido. Apenas chama. E quem está vivo — ou quem ainda simula estar — atende. Na avenida, corpos se chocam como partículas sem destino: suados, pintados, sorrindo com a musculatura da boca, não com a convicção do espírito. Dança-se como quem foge, bebe-se como quem anestesia, beija-se como quem tenta provar a si mesmo que ainda pulsa alguma coisa por dentro. A música repete refrões como mantras vazios: alegria obrigatória, euforia regulamentada, prazer em escala industrial. Mas há os outros. Os que dançam já mortos. Cadáveres funcionais, de olhos abertos, que cumprem o ritual como quem bate ponto numa repartição do absurdo. Rodopiam, riem, levantam os braços, mas por dentro a alma já pediu exoneração. São os que cansaram de empurrar a própria pedra e agora apenas acompanham seu rolamento, ladeira abaixo, com a inércia de quem desistiu de resistir. O carnaval passa, como sempre. Promete esquecimento e entrega apenas mais memória. Promete libertação e devolve rotina. Promete vida intensa e, às vezes, entrega só exaustão. Alguns sobrevivem. Outros continuam andando, falando, dançando — mas já atravessaram, sem cerimônia, a fronteira invisível entre existir e apenas ocupar espaço. E no ano seguinte, se a morte biológica não tiver feito seu serviço, o tambor chamará de novo. A pedra estará lá, no pé da montanha. A ciranda recomeça. Os vivos empurram. Os mortos em pé acompanham. E o carnaval, esse deus indiferente, segue girando, sem se importar se quem dança ainda está vivo — ou apenas treinando para morrer. Como já disseram, “o tambor faz barulho, mas é oco”. E então a pergunta se impõe, sem fantasia que a disfarce: e o quanto de sua existência é vazia de sentido? Só faz barulho para espantar a falta de razão de existir? No fim, quando a última nota se dissolve no ar quente e a quarta-feira tenta impor sua gravidade burocrática, resta a constatação nua e cruel: quem resistiu aos tambores de África?

Paleolítico

Empurro uma pedra que o mundo não encomendou. A montanha não responde. O chão esquece meus passos. Sou grão que não soma, areia que não constrói deserto algum. Cada manhã o mesmo peso. Cada noite o mesmo lugar.   No fundo, não é a solidão que dói — é perceber que tem paredes. Somos casas sem portas, janelas pintadas por dentro. De um cômodo gritamos para o outro. De um corpo chamamos outro corpo e a voz volta como pedra atirada contra pedra.   Queremos ser dois em um. A física diz: um em um, cada qual empurrando sua carga, cada qual chamando de amor o instante em que as pedras se tocam antes da gravidade separar outra vez.   E ainda assim seguimos. Não como Sísifo — ele tinha deuses testemunhas, tinha mito, tinha nome no mármore do tempo. Nós empurramos no anonimato, por teimosia de osso, por essa recusa sem grandeza de aceitar que o vazio basta.   A pedra rola. Nós atrás. Chamamos isso de sentido porque não temos outro nome para o hábito de não largar.

13/01/2026

Um abraço suspenso no ar

 Minha mãe no oítão, escorada no cabo de vassoura, conversando sem pressa, como se qualquer mudança no mundo tivesse a obrigação de esperar o fim daquela prosa. O fim da tarde espalhava seu dourado pelo terreiro como quem avisa que está indo embora. Ao me aproximar do terreiro, com o choro vindo sem explicação, senti aquele desajuste interno que eu não sabia nomear. Ela não perguntou nada. Apenas me puxou para o colo, sem alterar o compasso da conversa, me embalando como se o meu desalento fosse parte orgânica daquele dia que acabava.


Eu me lembro do instante sem nome. Não era dor de machucado, não era medo, não era tristeza simples. Era outra coisa, leve e pesada ao mesmo tempo, um pressentimento que escorria por dentro como o próprio fim da tarde. Todo pôr do sol, desde então, me parece uma facada a mais ou a menos. O tempo sangra, e o sangue é essa luz dourada que se espalha antes de desaparecer. Naquele dia, eu não sabia disso. Só sentia a lâmina entrando em silêncio.


Foi naquele embalo distraído que percebi a aproximação dessa coisa sem corpo. Não se revelava, apenas se insinuava. Um arrepio interno, uma espécie de vazio que não doía, mas também não poupava. O sol se esvaía pelas árvores, e eu tinha a impressão de que o mundo ficava grande demais para mim. Como se a luz estivesse se despedindo não só do dia, mas de alguma parte minha que eu nunca recuperaria completamente.


A sensação não tinha forma, não tinha origem, não oferecia explicações. Era pura preconsciência. Um aviso mudo vindo de um ponto que eu ainda não alcançava. O crepúsculo me tocava o peito como quem diz, sem dizer, que toda existência carrega uma sombra anterior ao entendimento.


No colo da minha mãe, não encontrei consolo, mas um contraste brutal. O calor dela tornava mais nítido o frio que se enfiava em mim, como se o abraço iluminasse o próprio abismo. A noite avançava, e eu intuía, muito antes da idade permitir, que tudo podia se apagar de repente. Que a vida não tinha obrigação de devolver nada do que tirava.


A criança que eu era não compreendia, mas sentia. E naquela mistura de medo, silêncio e luz agonizante, fui apresentado à profundidade sombria da vida. O primeiro toque do inexplicável. A primeira suspeita de que existir é sempre assistir ao sangue do tempo correndo enquanto o sol nos banha em dourado pela última vez naquele dia. Cada tarde uma lâmina, cada poente o lembrete de que a luz não dura.

07/01/2026

Velar a inexistência

 Hoje eu morreria sem saudade alguma.

A frase não me ameaça; ela apenas constata. Como um objeto esquecido sobre a mesa, sem dono e sem urgência. Hoje eu morreria sem saudade porque a saudade exige vínculo, e o vínculo sempre me pareceu um acordo implícito que nunca assinei.

Na infância, eu já ensaiava esse desaparecimento. Entrava no guarda-roupas não para brincar, mas para testar a hipótese do sumiço. Entre camisas grandes demais e o cheiro morno de madeira antiga, eu me escondia com método. Não havia plateia. Ninguém me procurava. Ainda assim, eu esperava. Esperava o milagre mínimo de ser necessário. Ele não vinha. O guarda-roupas era um útero sem promessa: eu entrava criança e saía igual, apenas um pouco mais consciente do vazio.

Ninguém me encontrava porque ninguém tinha me perdido. Essa foi uma das primeiras verdades objetivas da minha vida. Aprendi cedo que o desaparecimento só é dramático quando há testemunhas. Sem elas, é apenas logística.

Cresci levando o guarda-roupas comigo, agora invisível. Navego a vida adulta com o mesmo protocolo: entro, fecho a porta, aguardo. O mundo segue. As pessoas se cruzam como compromissos mal marcados. Chamam isso de relação; eu chamo de troca utilitária com verniz emocional. Tudo pede algo. Tudo cobra. Tudo se sustenta em favores disfarçados de afeto.

Nunca houve um encontro real. Houve aproximações, encostos laterais, negociações afetivas. Verdadeiro, não. Verdadeiro exigiria ausência de necessidade — e isso seria antinatural, quase obsceno. O adulto que me tornei entende: ninguém encontra ninguém; no máximo, coincidem carências.

O tom é absurdo porque a lógica funciona demais. Eu me escondia sem perseguidor, cresci sem buscador, e agora caminho lúcido entre pessoas que se chamam de encontros enquanto apenas se utilizam. Não há clímax, não há revelação, não há resgate do armário.

Por isso, hoje eu morreria sem saudade.

Não por desamor à vida, mas por excesso de clareza.

A saudade pressupõe que algo tenha, de fato, acontecido.

03/01/2026

De grão em grão o cansaço vence.

 O cansaço não começa no corpo; começa no ouvido. No ouvido que aprende cedo o som circular das brigas de família: frases que voltam, acusações requentadas, silêncios que não encerram nada. Discussões que não nascem de ideias, mas de restos. Nada se resolve porque nada está em disputa de verdade. É luta sem objeto. Boxe no escuro. A voz sobe, a razão desce, e o tempo — esse — fica parado, olhando com tédio.

Essas brigas não constroem nem destroem: ocupam. São o mofo das relações. Pequenas, mesquinhas, previsíveis. Têm cheiro de café frio e gosto de domingo desperdiçado. A vida passa nelas como passa um trem que não paramos para ver: rápida, barulhenta, inútil. Discute-se o tom, o gesto, o passado reciclado. Nunca o essencial. Nunca o agora. Nunca o que dói de fato. O cansaço vem daí: de gastar existência com ruído.

A infância é esse chão rachado que seguimos pisando, mesmo adultos, mesmo cansados. Não porque queremos, mas porque aprendemos o caminho. A briga também é herança: repete-se com a mesma coreografia pobre, os mesmos papéis mal distribuídos. Briga-se como se respira, por hábito. E o absurdo maior não é a discórdia — é insistir nela, sabendo que não leva a lugar algum. O cansaço, então, vira estado permanente. Não é exaustão: é lucidez tardia. A percepção amarga de que há lutas que não são fracassadas — são desnecessárias desde o início.