28/08/2026

4:45


4:45 da manhã.

Acordei sem motivo.

Nenhum barulho.

Nenhum sonho.

Nenhum despertador.

Apenas acordei.

Fui à cozinha.

Procurei alguma coisa para comer.

Pus a mesa.

Por alguns minutos, fingi que aquilo era suficiente.

Então pensei no carro.

Entrar.

Ligar.

Sair.

Sem destino.

Sem planos.

A estrada, não.

A estrada continua mentindo.

Diz que ainda existe alguma coisa depois da próxima curva.

E eu gosto dessa mentira.

Não porque acredito nela.

Mas porque, enquanto estou dirigindo,

ainda não cheguei.

Chegar é sempre uma sentença.

Aqui.

Até aqui.

Acabou.

4:45 da manhã.

A comida esfriando sobre a mesa.

O carro parado na garagem.

E a estrada, lá fora,

sem me prometer absolutamente nada.

Talvez seja justamente por isso

que eu queira ir.

26/08/2026

O mundo não teve a delicadeza de parar


Você foi embora e ninguém interditou a quarta-feira.

O ônibus passou às seis e quinze, como se ainda houvesse alguém esperando. A fornada de pão saiu normalmente. A padaria acendeu as luzes, o café começou a cheirar a manhã e uma criança empurrava uma bicicleta com o pneu furado.

Nenhuma sirene. Nenhum céu escureceu por respeito.

Você foi embora e, aparentemente, isso não era motivo suficiente.

As pessoas continuaram comprando pão, reclamando de preço, atravessando a rua, dizendo bom-dia sem perceber que havia alguma coisa irreparavelmente errada naquele bom-dia.

Fiquei olhando com uma indignação infantil. Como podia o sol nascer com tamanha falta de caráter? Como podia a quarta-feira existir inteira depois de você?

.

O ônibus passa. A aula acontece. A criança empurra a bicicleta com o pneu furado. E tudo continua, com uma crueldade quase administrativa, como se a dor precisasse esperar o horário comercial para ser atendida.

Esperei demais. Imaginei que alguma engrenagem cósmica reconheceria o peso do que aconteceu entre nós. Mas nenhum deus interrompeu o trânsito. Nenhuma estrela perdeu o equilíbrio. O universo permaneceu vasto e ocupado com coisas que não me diziam respeito.

E compreendi: você não era o centro do mundo. Eu também não. Éramos dois acontecimentos particulares dentro de uma realidade sem obrigação de nos considerar importantes.

Amar é a tentativa de convencer alguém de que, por alguns instantes, o universo cabe entre duas pessoas. Perder é descobrir que ele nunca coube.

Ainda assim, naquela quarta-feira, continuei ali, não por esperança, mas porque o corpo possui uma obstinação que a alma não autorizou. Levantei. Respirei. Ouvi o ônibus passar às seis e quinze

Viver é isso: assistir ao mundo cometer a indelicadeza de continuar existindo quando tudo em nós exige que ele pare.

Você foi embora. O mundo, sem a menor educação, não morreu comigo.

É a única coisa que ele fez corretamente, porque, se tivesse morrido também, eu jamais teria descoberto que era possível continuar vivo sem que isso significasse estar vivo.

14/08/2026

Escravo Cardíaco das Lembranças


O que está tatuado nas veias

não são nomes.

São faltas.

Tinta vermelha

correndo quente

entre músculo, sangue e nervos.

Cada sístole, uma lembrança.

Cada diástole, a mentira

de que passou.

Não é um coração.

É o lugar onde o esquecimento

fracassa.

Fingimos esquecer.

O sangue não.

Ele sabe.

08/08/2026

Da obrigação de viver, esse castigo abençoado


  Acordar é o primeiro tombo do dia. A gente abre os olhos e já tropeça na imposição muda: continue. Não tem contrato, não tem carimbo, mas a cláusula é pétrea. Você há de aceitar a vida até o último suspiro, a morte, com a resignação de quem recebe um pacote sem remetente. Castigo ou bênção? Depende da calçada onde o medo resolve sentar.

Tem gente que olha a ponte mais alta da cidade e sente um frio na sola do pé, um cálculo esquisito entre a gravidade e a coragem. O salto não é medo do chão; é medo de aterrissar num lugar onde não exista nem chão, nem ponte, nem a dúvida gostosa de pular. A dose mal calculada de remédio que vira veneno é prima-irmã desse cálculo: você medica a angústia com a precisão de um ourives e, sem querer, transforma a cura em bilhete de ida. A fronteira entre o remédio e o veneno, meu santo, é uma vírgula na bula da existência, e quem nunca quase engoliu a vírgula?

A felicidade, essa coitada, foi empacotada como dádiva, mas a fita que a embrulha é de espinho. Dádiva de sofrimento, agonia e sofrimento, é um eco que não cala. A gente recebe o presente, rasga o papel e lá dentro encontra um espelho embaçado onde a própria cara é a surpresa desagradável. “Aproveite sua dádiva!”, dizem, enquanto a gente sangra os dedos no laço. É uma ideia tão tóxica que deveria vir com tarja preta e um aviso: “A tentativa de ser feliz pode causar, sangramento, tontura, náusea e uma vontade incontrolável de devolver o universo à loja.”

Mas repare que sagacidade o absurdo tem: se morrer é castigo, então viver é o quê? Regalia? Pena perpétua sem direito a condicional? Eu, cá com meus botões de osso, desconfio que a vida é o verdadeiro corredor da morte. A diferença é que o carrasco esqueceu o relógio em casa e a gente fica ali, de pé, ensaiando a última frase, que nunca chega. A morte, coitada, é só a burocracia final: carimba, assina, arquiva. Um castigo tão breve que mais parece prêmio de consolação. “Morrer é castigo”, repetem, mas eu olho pr’um vivo atolado em conta, desamor e trânsito e penso: castigo mesmo é ter que pagar boleto todo mês sem saber se o mês que vem vem.

E se o contrário for o certo? E se a morte for a bênção e a vida a penitência? Aí estar vivo é rir da própria forca com um cinismo lírico, quase uma valsa. É dançar no cadafalso e perguntar ao carrasco se ele aceita pix. É descobrir que a obrigatoriedade de aceitar a vida não é uma sentença; é um convite para zombar do juiz. Porque, no fundo, a maior sagacidade do absurdo é esta: a ponte, o remédio, a felicidade envenenada, tudo isso é matéria-prima de piada. E rir, meu caro, é o único salto que a gente dá sem calcular a dose. Nem remédio, nem veneno: só cócega na alma.

No fim, seja castigo ou bênção, a vida está aí, feito visita indesejada que entra sem bater e ainda pergunta se tem café. A gente pode ficar aperreado ou pode passar o café. Eu, que sou cabra do absurdo, passo o café, boto um cuscuz no prato, cubro com queijo coalho e deixo a manteiga de garrafa derreter por cima. Depois puxo a cadeira pra calçada e fico proseando com a vida até a morte chegar, essa sim, a visita que não precisa de convite, porque chega na hora que bem entende. E, quando ela aparecer, eu digo: “Oxente, tenha calma. Sente aí. Deixe eu terminar meu cuscuz e rir mais um pouco. Depois a gente conversa.”


06/08/2026

Desabitar



Moro nesta casa há mais tempo do que já 

Morei em qualquer lugar. 

Se me vendam os olhos, não encontro a cozinha. Hesito diante do corredor. Procuro o interruptor como se fosse visita. Há anos moro aqui. Ainda não decorei a casa.

Comigo aconteceu algo pior.

Fecho os olhos e também não sei onde estou.

Não sei onde começa o coração. Não sei por que os pulmões insistem. O sangue atravessa um mapa que nunca vi. Há uma geografia inteira acontecendo sem mim.

Viver talvez seja isso: um organismo trabalhando para um desconhecido.

Nunca aprendi o caminho até mim. Aprendi apenas os desvios.

Às vezes cozinho. Corto, tempero, provo. No fim, como uma comida que não reconheço. O gosto sempre chega antes ou depois de mim. Nunca comigo.

Dizem que o corpo é a única casa da qual não podemos nos mudar.

Talvez.

Mas ninguém diz que também é possível nunca entrar.

Passei mais tempo dentro deste corpo do que dentro de qualquer outra casa.

E, ainda assim, se me pedissem para voltar para mim de olhos fechados, eu morreria perdido no caminho.

A Dor que me Habita


Sempre morei em mim. Sozinho.


Dizem que sou um lugar bonito. Nunca soube. Um lugar não pode contemplar a própria paisagem. Toda casa ignora o rosto que oferece à rua. Vejo-me apenas pelas frestas tortas do meu próprio olhar, sempre enviesado, sempre suspeito. Para mim, as cortinas permanecem cerradas. A luz, quando entra, chega cansada.


As pessoas insistem em dizer que sou um lugar bonito. Curioso. Porque quase todas me fizeram sentir exatamente o contrário.


Talvez esse lugar de que falam exista. Mas não é a casa inteira. É o quartinho dos fundos. O cômodo onde se empilham objetos sem serventia imediata. Onde se guarda aquilo que não se tem coragem de jogar fora, mas também não se deseja por perto. Um lugar que só recebe visitas por acidente ou necessidade.


Tenho sido esse quarto.


Esquecido, mas nunca vazio.


Habitado apenas pelas coisas que os outros abandonaram em mim.


Amei a poesia que eu era quando estava com você.


Não apenas a poesia que escrevia. A poesia que respirava. A maneira como meu peito parecia menos pesado quando sua voz atravessava o silêncio. Amei quem eu me tornava sob a luz da sua presença. Talvez eu nunca tenha amado alguém sem antes amar a versão de mim que esse alguém permitia existir.


Agora estou magoado.


Estou com medo.


Mas até isso morrerá.


Tudo morre.


A dor morrerá. A saudade morrerá. Você morrerá. Eu morrerei. O planeta continuará girando por algum tempo, até que também desapareça sem deixar endereço. O universo jamais saberá que estivemos aqui tentando dar nome ao que doía.


Há um estranho consolo nisso.


Nada importa o bastante para sobreviver ao tempo.


E, ainda assim, tudo pesa demais enquanto dura.


Todas as manhãs abraço a minha insignificância como quem veste um casaco molhado. Ela pesa sobre os ombros, sobre os olhos, sobre os gestos mais simples. Caminho tentando parecer inteiro enquanto arrasto um corpo convencido de que perdeu alguma coisa que nunca chegou realmente a possuir.


As flores secarão.


A raiva também.


O medo também.


Até a memória daquilo que hoje me destrói acabará reduzida a uma poeira sem nome.


Quem sabe um dia encontremos outras flores.


Vermelhas.


Ou pretas.


Sempre gostei do preto e do vermelho. Talvez porque ambas as cores saibam alguma coisa sobre o fim.


Chamava você de volta porque havia lirismo na sua alma. Meu coração rimava com a serenidade da sua voz. Eu queria envelhecer algumas tardes lendo poemas ao seu lado. Como naquela noite em que você chorou ouvindo o texto sobre minha avó e a árvore de Natal. Ainda sinto o calor das suas lágrimas escorrendo pelas minhas costas.


Naquele instante, tive a ilusão mais rara de toda a minha vida.


Achei que havia sido compreendido.


Talvez eu esteja romantizando uma lembrança. A memória também inventa. Também mente para suportar a realidade.


Mas, para mim, naquele breve intervalo, existiam apenas você, eu e a poesia crescendo entre nós como uma planta que ignorava a precariedade da terra onde nascia.


Fomos, por alguns minutos, dois artistas tentando justificar a existência.


Depois a existência venceu.


Tudo em mim é trânsito.


Passagem.


Provisoriedade.


Nada permanece tempo suficiente para criar raízes, embora eu insista em abraçar o efêmero como se meus braços pudessem impedir o tempo de cumprir seu trabalho.


Achei você bonito.


Bonito para além da pele.


Bonito naquele lugar onde quase ninguém consegue permanecer sem fugir.


O que fizemos um com o outro?


Como conseguimos ser tão delicados e tão cruéis?


Tão líricos e tão profanos?


Como duas pessoas capazes de escrever cartas tão belas conseguem construir silêncios tão devastadores?


As suas palavras continuam lindas.


Mas o amor nunca sobreviveu apenas de palavras.


O amor é uma sequência de escolhas.


E algumas escolhas não erram apenas o caminho.


Erram a própria possibilidade de chegada.


Continuo com medo.


Muito medo.


Imagino sua dor.


Imagino mesmo.


Mas também habito a minha, e ela ocupa todos os cômodos da casa.


Também é permitido aos homens feitos tremerem.


Corarem.


Desejarem voltar ao colo da mãe.


Pedirem socorro sem encontrar linguagem suficiente para isso.


Estou perdido.


Talvez sempre tenha estado.


Talvez apenas agora tenha parado de fingir que sabia o caminho.


Não sei.


Essa talvez seja a frase mais honesta que já pronunciei.


Não sei.


Tudo em mim dói.


Tudo em mim parece sintoma de alguma doença cujo diagnóstico é simplesmente estar vivo.


Tenho vivido dopado.


Esqueço os dias que passaram.


Temo desesperadamente aqueles que ainda insistem em vir.


A depressão possui esse talento perverso: ela não mata imediatamente. Ela transforma a existência numa longa sala de espera onde nada acontece além da expectativa cansada de continuar respirando.


Sinto-me só.


Não da solidão física.


Essa quase sempre encontra distrações.


Falo daquela solidão mineral, anterior à linguagem, onde ninguém consegue realmente atravessar a distância que separa uma consciência da outra.


Encontro abrigo em alguns livros.


Há escritores que conseguem emprestar palavras às coisas que ainda não aprenderam a existir na língua.


A maior parte do que sentimos jamais receberá um nome.


Vivemos esmagados por emoções maiores do que o vocabulário humano.


Chamamos isso de tristeza.


De amor.


De saudade.


Mas são apenas etiquetas frágeis coladas sobre abismos.


Estamos todos presos neste pequeno ponto azul suspenso num universo indiferente.


Aqui dentro, tudo cresce desproporcionalmente.


As dores.


Os medos.


As esperanças.


E, paradoxalmente, nada consegue realmente tocar nada.


A física já havia descoberto isso antes de nós.


Os átomos não se encostam.


Seus núcleos apenas se aproximam, separados por um vazio imenso que insiste em permanecer entre eles.


Talvez o afeto seja isso.


Uma tentativa infinita de atravessar um vazio que a própria matéria decretou intransponível.


Sua carta é bonita.


Meu quartinho dos fundos a guardará para sempre.


Continuarei sendo esse lugar de que falam bem, mas onde ninguém permanece.


Não sou uma casa.


Sou um depósito de permanências interrompidas.


Um endereço lembrado apenas quando falta outro.


Um abrigo de emergência.


Nunca um lar.


Obrigado por emprestar sua poesia à minha durante aquele breve intervalo em que acreditamos que duas almas poderiam morar uma na outra.


Agora restam apenas os sussurros.


E talvez os sussurros sejam tudo o que realmente sobrevive quando o amor termina.

Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

 Passei a vida inteira tentando voltar para casa.

Só depois compreendi que ninguém volta para um lugar cuja planta nunca decorou.

Há pessoas que apagam a luz sem pensar. Continuam andando. O corpo conhece a distância entre a cama e a porta. A mão encontra o interruptor antes da parede. Os pés desviam da quina da mesa como quem evita uma lembrança antiga. A casa já desceu para dentro da carne.

Nunca me aconteceu.

Sempre precisei dos olhos.

Quando os fecho, não encontro uma casa. Encontro muros.

Bato neles como um cego que ignora as dimensões da própria cela. Não porque sejam muitos. Porque nunca aprendi o desenho de nenhum. Nunca soube quantos passos separavam um quarto do outro. Nunca soube onde uma parede terminava para que outra começasse a me proteger. Passei por dentro de lugares. Nunca os habitei.

Chamaram isso de morar.

Era apenas permanecer entre paredes.

Talvez seja por isso que invejo as vilas.

Não pela calma. Nem pelas árvores. Nem pela nostalgia barata que inventaram para elas.

Invejo o homem cujo nome ninguém sabe direito, mas cujo rosto todos conhecem. A mulher que passa toda manhã com a mesma sacola. O rapaz da oficina. A velha que senta na porta antes do entardecer.

Ninguém lhes deve amor.

Nem amizade.

Basta o reconhecimento.

Há qualquer coisa de profundamente humano em cruzar um rosto que nunca nos pertenceu e, ainda assim, não precisar perguntar quem ele é. O rosto responde antes. Ele ocupa um lugar no mapa. Ele confirma que aquele pedaço de mundo tem memória.


Talvez seja isso uma casa:

Um lugar onde até os desconhecidos deixam de ser estranhos.


Nunca tive sequer esse consolo.


Os rostos nunca criaram raízes diante de mim. Eram passageiros como eu. Olhavam-me com o mesmo esforço com que se olha uma placa de trânsito: apenas o suficiente para seguir adiante. Nunca fui o homem da esquina. Nunca fui aquele que passa às seis. Nunca fui reconhecido antes de ser identificado.


A vida inteira precisei me apresentar.


É cansativo nascer todos os dias.


Hoje sei que não procurei um teto.


Procurei um lugar onde pudesse fechar os olhos sem desaparecer.


Mas fecho os olhos e continuo perdido.


Não porque exista um labirinto.


Porque nunca existiu uma casa.

04/08/2026

Cobre por Cobre

 Há sobretudo em mim a inveja dos amigos que nunca tive.

Não dos que aparecem nas fotografias de aniversário, nem dos que distribuem abraços com a generosidade de quem distribui panfletos. Invejo os gratuitos. Essa espécie rara de gente que chega sem cálculo, permanece sem contrato e parte sem deixar uma fatura sobre a mesa.

Nunca soube o que era isso.

Cada amizade que me atravessou trouxe consigo uma praça de pedágio. Paguei em tempo, em escuta, em favores, em paciência. Houve amizades que custaram fins de semana; outras, pedaços inteiros de mim. E eu pagava com uma diligência quase religiosa, como se o preço fosse a prova de que o afeto existia.

Paguei cobre por cobre.

Talvez seja essa a forma mais discreta da solidão: descobrir que algumas pessoas nos querem por perto, desde que continuemos úteis. A utilidade é uma máscara curiosa; veste-se de carinho durante o dia e, à noite, revela o uniforme de cobrador.

Ainda assim, não me tornei amargo. No máximo, adquiri o humor melancólico dos que aprenderam a rir da própria ingenuidade. Se um desconhecido me oferece um café sem segundas intenções, quase procuro a câmera escondida. A gratuidade me parece uma teoria bonita, dessas que funcionam melhor nos livros do que nas esquinas.

Meu mal não é a falta de amigos.

Meu mal é a inveja dos amigos que não fiz. Dos que talvez existam apenas na hipótese, como tantas outras coisas que poderiam ter salvado uma vida e, por um desencontro ridículo de calendários, ônibus ou timidez, jamais aconteceram.

No fim, talvez morrer seja a maior das liberdades.

A escravidão é passar a vida inteira com as moedas na mão, disposto a pagar por companhia, e descobrir, tarde demais, que o único afeto que valia a pena nunca esteve à venda.

31/07/2026

Viver a Dois é Viver Metade


Há um equívoco antigo, repetido com a solenidade das mentiras necessárias: dizem que duas pessoas se completam. Nunca acreditei nisso. Ninguém completa ninguém. O que existe é uma lenta amputação consentida.

Viver a dois é viver pela metade.

É descobrir que até a sede deixa de ser sua. Bebe-se o refrigerante que o outro prefere porque já não vale a pena discutir o gosto das pequenas coisas. Depois vêm as grandes. Escolhe-se o filme que não se queria ver. Ri-se da piada que não teve graça. Assiste-se à série vazia, construída para preencher o tempo de quem desaprendeu a suportar o silêncio. E assim os dias passam: um episódio após o outro, enquanto a própria vida permanece pausada.

Viver junto é a pedagogia da renúncia. Renuncia-se ao horário, ao lado da cama, à temperatura do quarto, ao caminho de volta para casa. Renuncia-se até ao direito de sentir fome. Parte-se o pão ao meio para alguém que sequer queria pão. E come-se a metade restante sem saber se era fome ou apenas o reflexo de repartir.

Há uma violência discreta em toda convivência. Não a violência dos gritos, mas a das pequenas concessões. A violência de abandonar uma vontade por dia até já não reconhecer quais eram as próprias vontades. O amor, quando dura, muitas vezes parece apenas a administração eficiente dessas desistências.

E há o corpo.

O corpo talvez seja o primeiro a desertar. Antes das palavras, antes das brigas, antes mesmo da coragem de admitir o fracasso, é ele quem parte. O sexo, que um dia pareceu uma linguagem, transforma-se lentamente num idioma morto. Os toques tornam-se protocolares. Os beijos aprendem a duração exata da obrigação. O desejo deixa de ser encontro e passa a ser lembrança.

Porque o tesão raramente morre. Apenas muda de endereço.

Morre no parceiro e renasce naquilo que ainda não aconteceu. Na mulher que passou na rua. No homem sentado do outro lado do restaurante. Na colega de trabalho. No estranho do metrô. Ou, mais frequentemente, em ninguém de concreto. Apenas numa possibilidade. Numa fantasia sem rosto. Num corpo inventado que jamais terá o peso da realidade.

Somos seres faltantes. Desejamos precisamente aquilo que nos escapa. O que possuímos deixa de ser objeto do desejo porque a posse dissolve a ilusão. O desejo vive da distância, da impossibilidade, daquilo que ainda pode ser qualquer coisa. A realidade é sempre menor do que a imaginação.

Talvez a monogamia não seja a vitória sobre o desejo, mas apenas um acordo para fingirmos que ele obedece. O corpo assina um contrato que a fantasia jamais leu. O olhar continua demorando-se onde não deveria. A imaginação continua fabricando encontros impossíveis. O desejo permanece indisciplinado, indiferente às alianças, aos votos e às fotografias felizes.

Continuamos dividindo a cama enquanto cada um sonha sozinho. Dois corpos lado a lado, separados por um continente invisível. A intimidade, com o tempo, deixa de ser proximidade e passa a ser geografia. Aprende-se exatamente onde termina a perna do outro, mas nunca onde começa seu abismo.

Viver a dois é também negociar o irrenunciável. Não apenas o filme, a música, o refrigerante ou o pão. Negocia-se o próprio desejo. Negocia-se a liberdade de imaginar. Negocia-se o silêncio. Negocia-se o tempo. E, pouco a pouco, negocia-se a si mesmo.

Há quem chame isso de maturidade.

Talvez seja apenas desgaste.

Talvez amar seja apenas a forma socialmente aceita de perder pequenas partes de si sem fazer escândalo.

A solidão, porém, não desaparece quando chega outra pessoa. Ela apenas muda de lugar. Sai da sala e passa a dormir entre os dois travesseiros. Aprende a respirar no mesmo ritmo do casal. Torna-se educada, discreta, quase invisível. Mas continua ali.

Talvez esse seja o destino de toda intimidade: descobrir que ninguém entra realmente na vida de ninguém. Recebemos visitas. Nunca habitantes. Há sempre um quarto trancado dentro de cada pessoa, um território sem mapas, onde nem o amor, nem o sexo, nem a convivência conseguem entrar.

No fim, viver a dois é viver pela metade.

Metade das escolhas. Metade dos desejos. Metade da liberdade. Metade da mesa. Metade da cama. Metade do pão.

E, paradoxalmente, o dobro da solidão.

Porque passamos a carregar não apenas a nossa, mas também a do outro.

E talvez seja esse o maior absurdo da existência: procuramos alguém para nos salvar da solidão e acabamos descobrindo que ela é a única companheira verdadeiramente monogâmica. Nunca nos trai. Nunca nos abandona. Apenas espera, pacientemente, que o amor termine de prometer aquilo que jamais poderia cumprir.


28/07/2026

Porque dói e Sangra

 Há cacos de me mim por toda parte. 

Eles me fazem sangrar;

 Há cacos de mim por toda parte;

Estou invisível. 

Não insensível.

21/07/2026

Da Amizade

 

A amizade talvez seja o vínculo mais mal compreendido que existe.

Gostamos de acreditar que ela nasce de afinidades profundas, de encontros raros, de algum reconhecimento secreto entre duas pessoas. Mas basta observar um pouco. A maioria dos amigos compartilhou primeiro um endereço, uma rotina, um horário ou um inconveniente. O resto veio depois, como as plantas que crescem nas rachaduras do concreto e nos fazem esquecer que a rachadura veio antes da planta.

Sempre me intrigou a facilidade com que as pessoas pertencem umas às outras. Elas entram em um lugar e, pouco tempo depois, parecem fazer parte dele. Eu nunca consegui esse tipo de adaptação. Os ambientes sempre me receberam como quem tolera um visitante. Aprendi a conversar, a rir no momento certo, a participar. Não porque me sentisse dentro, mas porque o lado de fora também exige etiqueta.

Há quem diga que isso é solidão. Não sei. Solidão pressupõe a falta de alguma coisa. Eu nunca soube se me faltava algo ou se apenas enxergava um mecanismo que os outros preferiam ignorar.

As amizades também obedecem a esse mecanismo.

Enquanto existe um chão comum, elas respiram. O trabalho. A universidade. A infância. A vizinhança. Quando o chão desaparece, quase sempre o vínculo desaparece junto. Não porque alguém tenha traído alguém. Apenas porque a estrutura que sustentava o encontro deixou de existir. Chamamos isso de afastamento, como se houvesse um culpado. Talvez nunca tenha havido aproximação suficiente.

É estranho. Passamos a vida inteira cercados de relações que dependem de circunstâncias, mas insistimos em chamá-las de escolhas.

Ainda assim, de tempos em tempos, acontece um erro.

Alguém permanece.

Não permanece porque precisa. Nem porque você precise. Permanece apesar da completa ausência de necessidade. Como se duas consciências, condenadas a jamais dividir a mesma experiência, decidissem continuar orbitando uma à outra sem esperar que a distância diminuísse.

Não vejo beleza nisso.

Vejo apenas uma exceção.

E talvez a amizade seja exatamente isso: uma exceção sem promessa, sem finalidade e sem garantia de durar. Ela não derrota o isolamento. Não cura o desencontro entre uma consciência e outra. Apenas o contradiz por algum tempo.

Depois, como quase tudo, segue o seu caminho.


12/07/2026

Cartografia da Lembrança



Há um momento em que a memória deixa de ser lembrança e vira geografia; Aracaju fez isso comigo.

Já não caminho por suas ruas; caminho por camadas de gente. Cada esquina tem o nome de um rosto cansado do passado; cada semáforo guarda a pressa de avançar o sinal amarelo pra chegar logo ao não destino; cada calçada é um pequeno tribunal onde sou obrigado a depor sobre alguém que já não existe; ou que existe apenas como versão fossilizada dentro da minha cabeça.

Às vezes finjo esquecer. É uma técnica sofisticada; finjo tanto que esqueço; o problema é que, de tanto representar, esqueço que estava fingindo. Então o esquecimento vence a encenação. Até que uma rua qualquer desfaz o truque.

E lá vem.

Fulano.

Beltrana.

A conversa que nunca terminou.

O café.

A briga.

O silêncio.

Até quem já havia me esquecido volta para me assombrar. Não a pessoa. O espectro. É curioso como a memória é arrogante: ela não aceita a reciprocidade do esquecimento. O outro seguiu vivendo; eu continuo tropeçando na sombra que ele deixou.

O coração leva um susto ridículo, como se tivesse visto um fantasma. E talvez tenha visto. Fantasmas não são mortos; são presenças que perderam o corpo, mas conservaram o maldito endereço, a maldita esquina, o beco, a viela.

Então faço o papel de sensitivo cansado; passo por eles fingindo que não os vejo. Quem sabe, ignorados, desapareçam, como crianças que fecham os olhos e pensam que o mundo desapareceu.

Nunca desaparecem.

O inferno não é reviver o passado; é perceber que ele nunca foi embora. Ele apenas mudou de estratégia; deixou de morar no tempo e passou a morar nos lugares.

Não carregar lembranças; ser carregado por elas. Como se cada rua nos atravessasse mais do que nós a atravessamos.

E ainda assim continuo andando.

Não por esperança, não por teimosia.

Mas porque percebi o óbvio: eu não habito Aracaju. Eu habito as memórias que ela me deu. A cidade é só a moldura; o que fica dentro não tem nome que eu queira dar.

04/07/2026

O que ninguem viu


A irmã não batia. Não precisava. Ela dava esmolas de afeto. 
Ela só parava de olhar. Quando eu errava, o olho dela desviava. Como se eu tivesse viradqq+o parede. Eu aprendi que o silêncio dela pesava mais que grito. Aprendi a vigiar a direção dos olhos dela antes de abrir a boca. Se ela olhava para o lado, eu já sabia: some. E eu sumia. Não do quarto. De mim.
Tinha dia que eu acordava e a primeira coisa que fazia era testar o humor pelo barulho dos passos. Passo forte = encolher. Passo arrastado = tentar uma piada. Passo rápido = fingir que não existo. Eu tinha 6 anos e sabia ler pisada melhor que palavra.
Na mesa, meu lugar era o mais perto da parede. Sem costas livres. Sem saída. Se eu derrubasse o copo, era o fim. Se eu mastigasse alto, era o fim. Se eu pedisse mais comida, era o fim. Então eu comia devagar, baixo, pouco. Aprendi a ter fome calada.
Dedé falava: "Você não presta". Mas não era gritando. Era dando risada. Como se fosse brincadeira. E todo mundo ria junto. Eu ria também. Ria para não chorar. Ria para provar que entendia a piada. A piada era eu.
Certa vez, brinquei de descobridor. Fiz uma cabana com lençol. A irmã entrou, olhou, não falou nada. Desmontou a cabana com um puxão. Pegou o lençol, dobrou, guardou. Não disse uma palavra. Eu fiquei ali, no meio do nada, como se a cabana nunca tivesse existido. Como se eu nunca tivesse existido.
Quando me chamavam de "demoníaco", era em tom de conversa normal. Como quem diz "hoje tá frio". Meu corpo gelava. Mas eu não podia mostrar. Mostrar era pior. Eu aprendi a não tremer quando ouviam meu nome.
No juizado de menores, era o cartão de visita. Toda vez que eu fazia algo que eles não gostavam: "Vai pro Juizado." Eu não sabia o que era. Mas sabia que era onde criança ruim vai. E eu tentava não ser ruim. Tentava ser bom. Mas nunca sabia o que era bom pra eles. O alvo mudava. Um dia bom era silêncio. Outro dia bom era alegria. Outro dia bom era sumir.
Minha mãe, quando me defendia, era em voz baixa. Como quem pede desculpa por pedir. Eu ouvia: "Ele é só uma criança". E ouvia a resposta: "É por isso mesmo". Eu não entendia. Mas entendia que ser criança era o problema.
Eu tinha medo de dormir. Porque dormindo, não vigiava. Acordava com gente em cima da cama, conversando sobre mim, "ele não melhora", "vai piorar". Eu fingia que tava dormindo. Aprendi a respirar fundo e lento pra parecer que não ouvia.
Minha irmã mais velha me ensinou a não tocar nas coisas dela. Mas não falou. Só olhou. Um olho que dizia "se tocar, você vai ver". Eu nunca toquei. Até hoje, em loja, tenho vontade de pedir licença pra tocar em roupa.
O banheiro era o único lugar onde eu podia chorar sem barulho. Aprendi a chorar com a boca aberta, sem som. Só o ar saindo. Assim ninguém ouvia. Assim ninguém vinha perguntar. Porque perguntar era pior. Perguntar era "o que você fez agora?"
Dedé me dava brinquedo quebrado. E dizia: "É pra você aprender a consertar". Eu consertava. Consertava tudo. Cada brinquedo era um teste. Se eu não consertasse, era ingrato. Se eu consertasse, ele dava outro quebrado. Eu aprendi que amor vem quebrado. E que a culpa é sua se não souber colar.
A irmã me chamava de "sensível". Mas não era elogio. Era diagnóstico. Como quem diz "tem defeito de fábrica". Eu fiquei anos tentando ser menos sensível. Até que entendi que sensível era o que sobrava de mim depois que eles tiraram tudo.
Quando eu ria muito, alguém dizia: "Tá achando graça do quê?" Quando eu ficava quieto: "Tá de castigo?" Quando eu pedia desculpas: "Desculpa o quê? Você não fez nada." Mas eu sempre pedia. Pedia por existir. Pedia por respirar no mesmo cômodo.
Até hoje, quando alguém ergue a mão perto de mim, eu pisco. Não por medo de apanhar. Por medo do gesto. Do movimento. Do que vem depois. Do que pode vir.
Aprendi a medir o valor de uma palavra pelo tom, não pelo conteúdo. "Vem cá" podia ser amor ou armadilha. Eu ia. Ia sempre. Porque não ir era pior.
Na cozinha, aquele dia, eu ouvi: "Ele não tem jeito". E todo mundo concordou. Cabeça balançando. Como se eu fosse um defeito que não vale o conserto. Eu tinha 8 anos. Eu entendi que não tinha jeito antes de saber que tinha jeito.
Você, você nunca fez isso. Mas você via. Você via eu sumir na mesa. Via eu rir quando não era graça. Via eu pedir desculpas por nada. E não dizia nada. E eu entendi que até quem ama não vê tudo. Ou vê e não sabe o que fazer. Ou vê e escolhe não ver.
Hoje, quando alguém me diz "você é forte", eu quero gritar: não sou forte. Sou sobrevivente. Sobrevivente não é forte. Sobrevivente é quem aprendeu a viver com o osso quebrado porque ninguém levou ao médico.
Meus irmãos me olham como quem olha um estranho que ficou rico. Não me veem. Veem o que podem tirar. E eu deixo tirar. Deixo porque aprender a dar foi a única forma que eu tive de merecer ficar. Mas hoje eu sei: dar não compra amor. Só adia o abandono.
Minha mãe, no fim, foi a única que ficou. Mas até ela, às vezes, me olhava com a pergunta: "Por que você nasceu?" Ela nunca disse. Mas o olho dela disse. E eu, menino, aprendi a responder com boas notas. Com não dar trabalho. Com ser útil. Com ser pouco.
Eu não quero mais ser pouco. Não quero mais merecer. Não quero mais ler passos. Não quero mais medir tom. Não quero mais rir de piada que me mata.
Quero que saibam: cada vez que me chamaram de doido, cada vez que desmontaram minha cabana, cada vez que me sentaram na cozinha pra decidir se eu ficava ou ia, cada vez que me olharam como defeito, cada vez que eu chorei sem som no banheiro, cada vez que eu engoli fome pra não pedir mais, cada vez que eu fingi que não doía, cada vez que eu me encolhi, cada vez que eu não fui eu, cada vez que eu apaguei quem era pra caber onde não cabia, cada vez que eu esperei o amor como quem espera esmola:
Nunca foi culpa minha.
E eu ainda estou aqui. Não porque perdoei. Porque aprendi a viver com o que não foi pedido.

01/07/2026

Coivaras


O sol pesa. Não brilha — oprime.

No meio da malhada, o fogo é uma língua antiga, lambendo o mato seco, traduzindo o calor em sentença. As coivaras ardem em fileiras, e minhas irmãs, com rastelos nas mãos, repetem o gesto das gerações: riscar a terra para alimentar o fogo, como quem mantém o mundo em funcionamento por pura teimosia.

O ar cheira a cinza e a espera. Tudo pulsa em vermelho.

Os homens fincam postes, erguem torres de promessa. São figuras feitas de sombra e suor, moldando o futuro com as próprias mãos. Um deles se destaca — o operário do sorriso inclinado, o olhar que mede o horizonte e o corpo de minha irmã com o mesmo cálculo.

Ela o observa de soslaio, fingindo distração. O fogo estala ao lado, mas há outro fogo crescendo ali — mais silencioso, mais perigoso. Entre um fio e outro, ele torce pedaços de arame, faz pequenas esculturas: pássaros, corações, serpentes. Oferece uma delas a ela, como quem entrega um segredo materializado.

O sol testemunha o gesto sem piedade.

Ela recebe o presente. O metal brilha, quente, como se ainda guardasse a temperatura das mãos dele. É o primeiro contato, e o primeiro contato é sempre uma espécie de ferida.

O fogo cresce. A terra respira com dificuldade.

Eu assisto — criança no limite entre o visível e o que não se entende. O mundo inteiro parece arder em simultâneo: o mato, os corpos, o tempo. As formigas correm entre as brasas, os homens gritam ordens, o vento muda de direção e leva o cheiro do fogo para dentro da casa.

Minha irmã não olha mais para as chamas.

Olha para ele.

E nesse olhar há uma estranha suspensão: como se o agreste inteiro — o pó, o calor, as moscas, a claridade insuportável — parasse para assistir à possibilidade do que não devia acontecer.

O operário ri de algo que ninguém ouve.

A escultura de arame gira entre os dedos dela, refletindo a luz como um aviso: o perigo também sabe ser belo.

As coivaram rolam ao sabor do vento  lambendo o chão. As ordens aos operários  corta o ar em ecos apressados.

E tudo parece anunciar que a vida, naquele instante, está prestes a começar , ou a queimar por completo.

Eu, imóvel, não entendo a diferença.

No meio da malhada, o que se acende nunca quer apenas iluminar

28/06/2026

Ponto e vírgula;


Ninguém entra na vida de ninguém. O verbo engana.


Chegamos quando a frase já está sendo dita. A mesa conserva marcas de copos que não vimos, há fotografias viradas para baixo em gavetas que nunca abriremos, um perfume qualquer insiste num casaco cujo dono talvez já nem exista. Chamamos isso de encontro apenas porque ignoramos tudo o que aconteceu antes de abrirmos a porta.


As pessoas gostam de dizer "conheci alguém". É uma vaidade da gramática. Não se conhece alguém; conhece-se uma superfície suficientemente generosa para deixar adivinhar os escombros. O resto permanece trabalhando no escuro, onde a linguagem não alcança.


Cada rosto traz uma multidão que desaprendeu a aparecer. Infâncias que ainda respiram por baixo da pele. Mortos que continuam decidindo o tom da voz. Cidades demolidas que persistem no jeito de arrumar uma mesa ou fechar uma janela. O passado não passa; muda de roupa.


Talvez seja por isso que toda intimidade seja um equívoco bem-sucedido. Não porque revele o outro, mas porque nos faz esquecer, durante alguns minutos, que ele continua irremediavelmente estrangeiro.


Há uma superstição discreta segundo a qual ocupamos um papel decisivo na vida dos que amamos. É confortável imaginar que chegamos para alterar o enredo. Como se o mundo esperasse nossa entrada em cena para finalmente adquirir sentido.


Mas a vida raramente escreve assim.


Ela prefere a pontuação.


Às vezes somos uma vírgula: adiamos o fôlego. Às vezes um travessão: interrompemos. Às vezes reticências: deixamos um eco maior que a presença. Quase nunca somos o ponto final.


E existe o ponto e vírgula.


Esse sinal estranho que recusa tanto o encerramento quanto a continuidade dócil. Algo terminou; algo insiste. A frase poderia acabar, mas não acaba. Prossegue carregando o peso do que já não pode desfazer.


Talvez seja esse o verdadeiro nome dos encontros. Não capítulos. Não destinos. Apenas um ponto e vírgula na sintaxe do tempo.


Depois seguimos.


Não porque a história terminou.


Porque ela nunca pertenceu a ninguém.

Domingo a gente Chora



Domingo não é dia. É umidade — nas paredes, nos ossos, nas ideias. Chove sem pressa, sem drama, sem promessa de limpeza. A chuva apenas cai, como quem já não precisa se explicar.

Acordei com Bethânia declamando Prece. Hoje não li Pessoa — ouvi Pessoa atravessando a garganta de uma mulher que faz da palavra herdada coisa própria. Talvez seja esse o único milagre da poesia: um morto mais vivo que os vivos que o leem.

Todos acreditam carregar um pouco de Pessoa. Vaidade compreensível. Ninguém admite a própria banalidade, mas todos reconhecem a própria tristeza. Somos mendigos do íntimo. Sabemos o endereço da dor, frequentamos sua calçada, decoramos sua fachada — mas nunca tivemos a chave. Talvez nem exista porta. Talvez a dor seja só um bairro onde andamos em círculos chamando repetição de profundidade.

Não acredito em Deus. Deus exige templos, dogmas, promessas, recompensas adiadas. A poesia é mais modesta: não salva, apenas organiza o fracasso em versos bonitos o bastante para contemplá-lo sem constrangimento. Mesma aposta, sem o luxo da eternidade.

Bethânia canta um homem morto que passou a vida escrevendo sobre existir como quem observa o próprio corpo de longe. Um vivo emprestando voz a um morto para alcançar outros vivos que já experimentam, aos poucos, a própria ausência.

A chuva continua. Não participa — acontece. Não precisa de testemunhas, nem de aplausos, nem de sentido.

Talvez o domingo seja isso: não pausa antes da segunda, mas demonstração silenciosa de que o universo não interrompe seu funcionamento para nos responder. Chove sobre quem crê e sobre quem não crê. Sobre a infância, os velhos, as igrejas e os cemitérios — com a mesma indiferença mineral.

Não há lição.

Há Bethânia, um poeta morto, uma janela molhada e um domingo cumprindo sua única vocação: existir sem pedir licença para ser interpretado.

22/06/2026

Que destino é esse?


Hoje não marquei hora com ninguém.

E, ainda assim, alguma coisa em mim continua atrasada.

O relógio está ali, na parede, insistindo em seu ofício de ferro e costume. Move os ponteiros com a compostura de quem acredita no mundo. Mas há muito desconfio dessa elegância mecânica. Ele não conduz. Não salva. Não explica. Apenas passa, como passam os dias, como passam os rostos, como passa tudo o que um dia juramos reter.

Durante anos pensei que a vida estivesse me esperando em algum ponto exato do caminho.

Atrasado para o amor.

Atrasado para a alegria.

Atrasado para mim mesmo.

Via os outros correndo com uma segurança que me humilhava. Tinham destinos dobrados no bolso, compromissos nos dedos, fotografias, alianças, diplomas, datas, tudo muito bem alinhado como se houvesse uma ordem secreta que apenas eu ignorava. Eu, ao contrário, me sentia sempre no lado errado do tempo.

Então comecei a correr também.

Não por convicção.

Por medo.

Porque a imobilidade parece indecente diante da pressa alheia.

Porque ficar parado, hoje, é quase uma forma de culpa.

Corri, portanto, como quem tenta alcançar uma porta já fechada.

Mas o caminho não se esclareceu.

Ao contrário: tornou-se cada vez mais incerto, mais delgado, mais parecido com uma invenção do próprio cansaço. Os marcos se apagavam. As distâncias mentiam. Os mapas se contradiziam com uma serenidade ofensiva. E, no meio dessa neblina, nasceu em mim uma suspeita que eu mesmo evitava nomear.

Talvez ninguém soubesse para onde ia.

Talvez todos estivéssemos apenas repetindo o gesto uns dos outros, como crianças perdidas no escuro que chamam de direção o ruído dos próprios passos.

Foi então que a estação apareceu.

Não a estação de ferro, nem a de telhado gasto, nem a de chegadas e partidas.

Uma estação interior.

Uma ruína com forma de espera.

Sentei-me nela durante anos, como quem aguarda um trem que traria a resposta final, a palavra exata, o amor definitivo, a versão legítima de si mesmo. Esperei com educação, com esperança, com esse tipo de fé que já nasce cansada.

E, enquanto esperava, a ferrugem trabalhou.

Subiu pelas placas.

Tomou os bancos.

Cresceu nos pilares.

Apodreceu a linguagem do anúncio, desfez a promessa das linhas, desarrumou o próprio conceito de partida.

Até que um dia compreendi algo pior do que a falta do trem.

Não havia atraso.

Não havia falha.

Não havia abandono.

Não havia estação.

A ruína não era o resto de uma promessa quebrada.

Era a promessa desde o início.

O vazio não sobreviera depois.

O vazio era a arquitetura.

Fui eu quem lhe deu nome.

Fui eu quem desenhou horários.

Fui eu quem escutou partidas imaginárias e chamou isso de destino.

E, quando essa verdade finalmente chegou, não trouxe consolo.

Trouxe silêncio.

Mas não um silêncio vazio, desses que pedem resposta.

Um silêncio anterior à pergunta.

Um silêncio que não aponta o horizonte, porque já desistiu dele.

Um silêncio que apenas deixa os dias passarem com sua disciplina indiferente, enquanto os anos se infiltram na terra como água sem memória.

Hoje não marquei hora com ninguém.

E já não preciso.

Nem sei que horas são.

O relógio continua na parede.

Mas agora entendo: ele nunca esteve enganado.

Quem exigia direção era eu.

17/06/2026

Cadaverina


A morte nunca me chega como alma.

Quando alguém morre, não penso em anjos, passagens ou reencontros. Penso no corpo. No peso inútil do corpo. Na máquina desligada que continua ocupando espaço. Penso nos entrelaçamentos vermelhos das veias, na carne abandonada às próprias leis, na lenta conspiração das bactérias.

A morte, para mim, começa quando o cadáver é entregue ao mundo.

Primeiro a rigidez. Depois a invasão. Milhões de organismos assumem o governo de uma república sem cidadãos. O coração já não legisla. Os pulmões já não negociam com o ar. O corpo torna-se território ocupado.

A putrefação sempre me perturbou mais que a morte. A morte é um instante. A decomposição é um processo. Uma marcha paciente. A carne dissolve-se em lama, em odores, em substâncias cujo nome já parece uma ofensa: cadaverina, putrescina.

Quando minha avó morreu, eu pensava em seu cadáver. Hoje, passadas décadas, penso em ossos. Talvez fragmentos de ossos.

Meu pai, porém, ainda está perto demais.

Seu corpo continua trabalhando na única tarefa que lhe resta: decompor-se. Enterrado numa catacumba, sem os sete palmos de terra que a imaginação popular exige, ele prossegue sua última transformação. Não sei onde habita sua existência. Não sei onde repousa a ideia imperfeita que ele foi. Sei apenas onde está seu corpo.

E isso me incomoda.

Talvez porque a morte revele uma verdade que a vida inteira tenta esconder: somos inseparáveis da carne enquanto ela existe. Falamos de consciência, memória, personalidade, mas basta a morte para que tudo seja arrastado de volta ao problema fundamental da matéria.

O cadáver não pensa. Mas obriga os vivos a pensar.

A morte não é o silêncio de quem partiu. É o ruído incessante da decomposição. Vermes, fungos, bactérias, reações químicas. Um concerto obsceno de transformações. O morto não participa dele. Nós participamos.

Os túmulos não guardam os mortos. Escondem dos vivos a velocidade com que a matéria nos esquece.


31/05/2026

Território nunca Visitado


Hoje pensei em fazer um pudim.

Não fiz.

A ideia surgiu entre uma coisa e outra, dessas que atravessam a cabeça sem pedir licença. Não havia motivo especial. Apenas a constatação: nunca fiz um pudim.

Estranhei.

Já fiz bolos doces. Bolos salgados. Já sovaram minhas mãos massas de pão. Já observei fermentos trabalharem no escuro como pequenas conspirações biológicas. Já retirei do forno coisas que antes eram apenas uma mistura sem identidade definida.

Mas nunca fiz um pudim.

A frase ficou parada na cozinha como um objeto esquecido sobre a mesa.

Nunca fiz um pudim.

Quanto mais pensava nela, mais estranha parecia. Não pela dificuldade do pudim. Pelo contrário. Há tarefas mais complexas que atravessei sem cerimônia. O pudim não se impôs como obstáculo. Apenas permaneceu ali, intacto, como um território nunca visitado.

Existem regiões assim dentro da vida. Não lugares proibidos. Nem inacessíveis. Apenas não percorridos. Como ruas da própria cidade onde nunca se entrou.

É curioso observar a quantidade de coisas que não fazemos sem que exista uma razão clara para não fazê-las. Não há impedimento. Não há veto. Não há tragédia fundadora. Apenas uma sucessão silenciosa de dias em que algo não aconteceu.

E então deixa de acontecer.

O tempo deposita poeira sobre a ausência.

Talvez seja assim que surgem certas fronteiras. Não por construção, mas por sedimentação.

O pudim continuava inexistente.

Os ovos continuavam na geladeira.

O leite condensado continuava no armário.

Entre eles e o pudim havia somente uma sequência de ações simples. Mas também havia alguma outra coisa. Não exatamente medo. Não exatamente preguiça. Talvez apenas o peso acumulado de nunca ter acontecido.

No fim da tarde, continuei sem fazer o pudim.

A cozinha permaneceu igual.

O mundo permaneceu igual.

15/05/2026

Casa de Câmbio


Chamavam aquilo de amor porque a língua é preguiçosa e usa a mesma palavra para negócios diferentes. Foi uma operação de câmbio.
Entregamos o que tínhamos de maior valor — anos futuros, hábitos, versões ainda em construção de nós mesmos — em troca de promessas emitidas numa moeda que não sabíamos avaliar. Pareciam sólidas entre duas pessoas. Fora dali, eram apenas papel.
Não houve um grande engano. Houve pequenas conversões diárias: falta de consideração trocada por cansaço, mentira convertida em medo, egoísmo reembalado como fragilidade. A taxa era sempre desfavorável, mas as perdas vinham em centavos. Centavos não fazem barulho.
Éramos falsificadores involuntários. Acrescentamos profundidade ao que era apenas charme. Indecisão virou complexidade. Distância virou liberdade. Conveniência virou afeto. Era mais fácil do que admitir que o edifício se sustentava em andaimes.
Um dia a pessoa apareceu sem os acréscimos que havíamos escrito sobre ela. Restou alguém comum. Limitado, inconsistente, pequeno nos momentos decisivos. O mito não escondia um monstro. Escondia um burocrata.
O luto não foi pela pessoa. Foi pela morte de quem a observava — aquele que fazia concessões em nome de um futuro imaginado, que encontrava significado em migalhas. Esse luto não tem velório.
Depois vêm os extratos da memória. A contabilidade obsessiva dos sinais ignorados. A pergunta mais cruel chega sozinha: "Quanto disso fui eu?" Quem ainda consegue fazer essa pergunta sem a resposta já pronta não está destruído. Está, no mínimo, honesto.
Fechamos a operação. Saímos mais pobres. Sem andaimes novos por enquanto. Só a planta baixa, desta vez, antes de erguer qualquer coisa.